A medicina é
uma profissão repleta de beleza, apesar do enfrentamento diário de sofrimento
dos pacientes, ter o conhecimento capaz de curar às vezes, aliviar, esclarecer,
prevenir e compartilhar sentimentos na maior parte do tempo é extremamente
gratificante. No Brasil em 2018 havia 466 mil médicos ativos,
desses aproximadamente 200 mil são mulheres, elas optaram por participar como
os homens, desse árduo e belo trabalho, de profunda dimensão humanitária, que é
ser médico (a).
Contudo, nós mulheres desempenhamos, muitas vezes , um papel triplo: médicas, mães e esposas. Essa situação é potencialmente estressante e assim surge o questionamento: Como equilibrar essas esferas da vida?
Ser mulher e médica, já
tem um peso diferente, apesar de toda a evolução humana, ainda não somos
consideradas, em muitos casos, tão
capazes quanto os homens e por isso muitas vezes “damos o sangue”
para mostrarmos nossa capacidade.
Contudo, para isso ocorrer, não é incomum sacrificarmos nossa saúde e nossas relações interpessoais. Há artigos mostrando que médicas apresentam duas vezes mais depressão que homens médicos e quatro vezes mais que a população em geral . Elas apresentam taxas maiores de burnout, suicídio e divórcio que outras mulheres. O auto-sacrifício das médicas é considerado algo “normal” tanto entre os colegas quanto entre os pacientes . Apesar de todas essas dificuldades a proporção de mulheres médicas menores de 29 anos, já suplantou o de homens médicos da mesma faixa etária.
Essa crescente proporção de mulheres na medicina,
equivocadamente, tem sido argumento para médicos poderosos e influentes expressarem que à perda de poder, influência e status profissional da
medicina é devido a ascensão feminina. Não sou feminista e não estou escrevendo
isso para instigar a guerra mulheres médicas versus homens médicos, apenas
escrevo com o intuito de ter essa clareza nas relações interpessoais, para que
possamos tomar cuidado, para não ficarmos submersas com essa rotulagem que se
sacrificar é bom e para termos ciência que é uma questão cultural em evolução.
Somado a isso, vocês imaginam como é manejar toda essa demanda física e psíquica profissional somada a explosão de emoções e angústias da vivência e experiência da maternidade. Há artigos discutindo esse tema e concluem sobre manter o equilíbrio profissional e pessoal, me pareceu tão simples essa conclusão e tão inatingível .
Eu sou médica há 12 anos, mãe e esposa, engravidei no último ano da faculdade, foi um susto, ficamos muito angustiados como iríamos dar conta da residência que para mim seria no próximo ano, do bebê que nasceria durante a residência e da vida de casada.
Foi uma sensação completa de desequilíbrio emocional, mistura de amor, felicidade, angustia e muito medo. Eu queria tanto fazer residência, passei o ano estudando muito, a primeira coisa que o meu marido me disse, quando ficamos sabendo da gravidez foi “você não vai poder fazer residência“, mas depois repensamos e resolvi fazer, passei na prova, nas entrevistas eu estava grávida, ouvi “grávida só atravanca a residência”, percebo que de certa forma é verdade.
Entrei na residência e nos primeiros dias, eu com 8 meses
de gestação, uma paciente minha teve uma parada cardiorrespiratória na minha
frente, um colega começou as compressões torácicas o desfibrilador chegou e eu
imediatamente desfibrilei a paciente, foi tão rápido e reativo, que só após me
dei conta do risco que coloquei meu bebê.
Cadê o equilíbrio, nisso? Um mês depois minha filha nasceu, bem à despeito das loucuras da mãe dela, eu voltei para a residência quando ela tinha 45 dias, deixei ela com uma “anja” que apareceu nas nossas vidas. Eu recém formada “faminta” por atuar como médica, acabei mantendo os planos prévios à gestação, no momento parecia ser o correto a fazer.
Foi tudo muito intenso 4 anos de residência, pouca grana,
bebê pequeno, aquele mistura de demandas profissionais e pessoais parece que
nada foi bem feito. Sempre tentei dar o meu melhor tanto na medicina quanto com
a minha família, mas sempre ficava com a sensação que era pouco. Percebi me conhecendo melhor, no decorrer dos
últimos anos que, pelo menos para mim, ser médica e mãe será desequilibrado e
estou muito tranquila com isso. Com o passar do tempo, minhas percepções, minha
forma de viver a medicina e os relacionamentos mudaram.
Tive outro filho, agora em 2019, fiquei 7 meses com ele
em casa, depois do final da licença reduzi 70% da minha carga horária de
trabalho e nesse momento sou mais mãe do que médica, daqui um tempo
provavelmente serei mais médica, porque amo a medicina também.
O importante para nós médicas e mães é ter clareza do que queremos e que consigamos manter o auto-cuidado emocional e físico, cuidar das relações interpessoais e dos pacientes da melhor forma possível seja com 70% do tempo ou com 30%, mas com uma dedicação de 100%, nesse desequilíbrio.
Portanto, na minha ótica e de provavelmente a maioria das mães médicas, ser mãe e médica combina sim , não há um modelo de qual é o melhor jeito de viver essas duas profissões, fácil não é, mas é uma opção, não somos ou fomos obrigadas a seguir esse caminho. Se estamos nessa é porque o prazer e a gratificação de cuidar de outros seres humanos, além dos nossos filhos, é positiva. Considero que ser honesta, comprometida e autêntica é ponto fundamental para que esse binômio mãe-médica funcione.
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