Os conhecimentos sobre a amamentação, embora sobre ela
ainda pairem muitos mitos, já são bem embasados na literatura médica. Mesmo
assim, muito se estuda sobre o tema, com várias nuances a serem abordadas.
A amamentação de sucesso e eficaz
também é tema de discussões políticas, por exemplo, as políticas de emprego e
renda devem considerar as mulheres inseridas no mercado de trabalho, incluindo
as em idade reprodutiva e considerando as necessidades da mulher que amamenta.
Ou seja, a regulamentação sobre temas como a licença-maternidade e salas de
apoio à amamentação em empresas, são fundamentais na proteção ao aleitamento
materno exclusivo e ao desenvolvimento da primeira infância em nosso Brasil.
Nesse
texto, vamos conversar um pouco sobre detalhes que podem garantir uma
amamentação eficaz e o quão ela é importante no desenvolvimento de nossas
crianças e no futuro do nosso país.
PRÉ NATAL E PARTO
Falar sobre amamentação deveria ser algo a ser discutido e introduzido ainda no pré-natal. Por exemplo, principalmente na rede privada, onde ainda existe a prática da cesárea eletiva agendada, esse tópico é de suma importância a ser abordado ainda na gestação, sendo mais um dos fatores para estímulo ao parto normal. A gestante precisa ter boas conversas nesse acompanhamento gestacional, com informações embasadas e de fácil compreensão para entender, por exemplo, sobre a importância da Hora de Ouro (Golden hour). Essa hora, uma vez protegida, é uma das grandes preditoras de sucesso na amamentação.
Mas o que seria essa Golden hour? Posso resumir como uma nova maneira de sistematizar a assistência ao recém-nascido e à mãe. Nessa abordagem, o bebê que nasceu em boas condições, é submetido a menos intervenções (é muito valorizado o clampeamento tardio e oportuno do cordão umbilical, o contato pele a pele e a amamentação na primeira hora de vida).São deixadas de lado, ou melhor, para depois, práticas como medir perímetros, pesar o bebê, entre outras.
Belas imagens como essa abaixo, são
vistas quando respeitamos esse momento singular. Pode não parecer, mas esse
olho no olho tem importância fundamental na secreção de ocitocina (muito
chamado de hormônio do amor). E isso aumenta em muito o vínculo entre mãe e
bebê, reduz hemorragia materna e favorece o sucesso do aleitamento materno
exclusivo. Naturalmente, é mais fácil de atingir esse objetivo quando a mulher
e o recém-nascido vivenciaram um parto natural fisiológico, com menos
intervenções.

OS MESES INICIAIS – BENEFÍCIOS PARA MÃE E BEBÊ
Já em casa, o aleitamento materno exclusivo é um grande
estímulo para o crescimento dessa criança. Ganho de peso adequado
(principalmente quando o bebê mama até o esvaziamento completo do seio), melhor
desenvolvimento do sistema imune.
Há uma vasta lista de benefícios:
Menor número de episódios de diarréia;
Menos hospitalizações por resfriados e
problemas respiratórios;
Menor risco de desnutrição (quando o aleitamento é exclusivo, menor há chance
de má absorção de nutrientes importantes do leite materno, como o ferro e o
zinco);
Maior chance de o aleitamento exclusivo
ser eficaz como método anticoncepcional: “a amamentação é um excelente método
anticoncepcional nos primeiros seis meses após o parto (98% de eficácia), desde
que a mãe esteja amamentando exclusiva ou predominantemente e ainda não tenha
menstruado (GRAY, 1990).”
Mesmo após
aquele período recomendado de seis meses, já no segundo ano de vida, o leite
materno continua sendo importante fonte de nutrientes. “Estima-se que dois
copos (500 mL) de leite materno no segundo ano de vida fornecem 95% das
necessidades de vitamina C, 45% das de vitamina A, 38% das de proteína e 31% do
total de energia”. (BRASIL, 2015)
A
amamentação também pode evitar o desenvolvimento de diabetes. É relatada a
redução da diabetes do tipo 2 na mãe: “foi descrita uma redução de 15% na
incidência de diabetes tipo 2 para cada ano de lactação (STUEBE, 2005).
Atribui-se essa proteção a uma melhor homeostase da glicose em mulheres que amamentam.
”; e diabetes do tipo 1 na criança onde estima-se que 30% dos casos poderiam
ser prevenidos se 90% das crianças até três meses não recebessem leite de vaca
(GERSTEIN, 1994).
ASPECTOS PRÁTICOS – PEGA E POSICIONAMENTO
Sobre aspectos mais práticos, há alguns pontos em relação a
técnica de pega e posicionamento que devem ser aprendidas e utilizadas para
orientação das mamães:
Pontos-chave do
posicionamento adequado
1. Rosto do bebê de frente para a mama, com nariz na altura do mamilo;
2. Corpo do bebê próximo ao da mãe;
3. Bebê com cabeça e tronco alinhados (pescoço não torcido);
4. Bebê bem apoiado.
Pontos-chave da pega
adequada
1. Mais aréola visível acima da boca do
bebê;
2. Boca bem aberta;
3. Lábio inferior virado para fora;
4. Queixo tocando a mama.
Os seguintes sinais são indicativos de técnica inadequada
de amamentação: Bochechas do bebê
encovadas a cada sucção; Ruídos da língua; Mama aparentando estar esticada ou
deformada durante a mamada; Mamilos com estrias vermelhas ou áreas
esbranquiçadas ou achatadas quando o bebê solta a mama; Dor na amamentação.
E SOBRE A FREQUÊNCIA DAS MAMADAS?
Em aleitamento materno exclusivo, geralmente a criança vai
mamar de 8 a 12 vezes ao dia. Muitas mulheres, principalmente as mães mais
inseguras e com baixa autoestima, costumam interpretar esse comportamento, que
é normal, como sinal de fome do bebê, leite fraco ou pouco leite, o que pode
resultar na introdução precoce e desnecessária de suplementos.
COMO ORIENTAR SOBRE O RETORNO AO TRABALHO?
A maior parte das empresas, segundo a
legislação brasileira, tema licença maternidade que dura 4 meses, outras ainda
permitem 6 meses de cuidados. Certas empresas, pouco mais de 200 no Brasil,
contam com salas de apoio a amamentação, elas estão listadas nas referências
deste artigo. Em 2015, o Ministério da Saúde lançou uma cartilha para a mulher
que trabalha e amamenta (link no final do artigo). Segundo esse documento,
todas as mulheres com carteira assinada têm direito a duas pausas especiais na
jornada de trabalho, durando 30 minutos cada. Essas pausas são para amamentação
ou retirada do leite, até o sexto mês de vida do bebê. Elas não anulam os
intervalos regulares para repouso e alimentação.
Inclusive, este mesmo documento traz que: os
estabelecimentos em que trabalham pelo menos 30 mulheres com mais de 16 anos de
idade deverão ter local apropriado onde seja permitido às empregadas deixar,
sob vigilância e assistência, os seus filhos durante a amamentação.
Um aspecto prático importante de ser
orientado às mães é o modo correto de armazenamento do leite: após retirado, se
no trabalho, levar para casa e oferecer à criança no mesmo dia ou no dia
seguinte ou congelar. Leite cru (não pasteurizado) pode ser conservado em
geladeira por 12 horas e, no freezer ou congelador, por 15 dias.
SEIS MESES E AGORA? – ALIMENTAÇÃO COMPLEMENTAR
Seis meses de nascido, e agora? Como ajudar essa mãe a organizar a vida e a alimentação dessa criança em desenvolvimento. É interessante ir além e pensar sobre a formação do apetite. Estudos mostram que os hábitos alimentares da mãe já influenciam nas preferências do bebê depois de nascidos. São estudos sobre os primeiros mil dias de vida. Recentemente houve um programa fantástico no Café Filosófico da TV Cultura sobre isso (Link nas referências)
Então, à partir dos 6 meses a criança
já desenvolveu reflexos necessários para a deglutição: o reflexo lingual; agora
ela tem excitação à visão do alimento, consegue sustentar a cabeça, logo,
consegue se orientar para abocanhar a colherinha, e começam a surgir os
primeiros dentinhos, facilitando a mastigação. Além disso, a criança desenvolve
ainda mais o paladar e, consequentemente, começa a estabelecer preferências
alimentares, processo que a acompanha até a vida adulta, lembrando que devemos
incentivar que a mãe ofereça várias vezes um alimento antes de dizer que a
criança realmente não gosta de tal item em específico.
Então, de
seis meses em diante, além de complementar as necessidades nutricionais, a
introdução de alimentos aproxima a criança dos hábitos alimentares da família e
proporciona uma adaptação do bebê a uma nova fase do ciclo de vida. Daí vem a
importância de uma alimentação nutritiva e adequada de toda a família, para fazer
uma transição adequada e promover crescimento e desenvolvimento saudáveis desse
pequeno ser humano.
CONCLUINDO
Há realmente um mundo de conhecimentos sobre a amamentação. Tentei trazer aqui alguns aspectos importantes a serem abordados na nossa prática, desde o pré-natal, os primeiros meses, a volta ao trabalho e a iniciação da alimentação complementar. Mais detalhes podem ser vistos nas referências abaixo. Conto com você como multiplicador(a), para melhorarmos as práticas de amamentação e consequentemente a saúde do no nosso país!
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.