Confira um artigo completo que falamos sobre a Saúde Coletiva para esclarecer todas as suas dúvidas. Ao final, confira alguns materiais educativos para complementar ainda mais os seus estudos.
Boa leitura!
Medidas de Saúde Coletiva
Transição demográfica
A teoria da transição demográfica, proposta nas primeiras décadas do século XX, relaciona o crescimento populacional com o desenvolvimento sócio-econômico. Segundo essa teoria, com o desenvolvimento econômico e o processo de modernização, as sociedades, que eram rurais e tinham altas taxas de natalidade e mortalidade, se tornariam urbanas e teriam essas respectivas taxas diminuídas.
Ainda segundo a teoria da transição demográfica, essa mudança não aconteceria rapidamente, existindo um processo de transição, com um desequilíbrio demográfico e um descompasso entre as taxas de mortalidade e natalidade. Esse desequilíbrio é devido a uma redução precoce da primeira em relação a segunda, acarretando em um ritmo acelerado de crescimento populacional. O equilíbrio seria retomado apenas em um momento posterior, com a redução da taxa de natalidade, provocando então uma redução no ritmo de crescimento populacional.
Essa teoria se mostrou verdadeira, ainda que hoje tenha sido constatado que a transição demográfica não ocorra da mesma maneira em todas as sociedades, pois múltiplos fatores podem influenciar nas taxas supracitadas, fazendo com que o equilíbrio demográfico seja alcançado em séculos ou em décadas apenas.
A transição demográfica brasileira iniciou na segunda metade do século XX, mais especificamente entre as décadas de 50 e 60, com o descenso da mortalidade combinado com a manutenção de níveis elevados de natalidade e de fecundidade, resultando nas taxas de crescimento populacional mais elevadas na história do país: 3,1 e 2,9% ao ano, respectivamente. Neste momento, a pirâmide etária não sofreu muita transformação e a população permaneceu muito jovem, com idade média de 18 anos.
A partir de 1970, o Brasil experimenta uma verdadeira revolução demográfica com uma diminuição nos indicadores de natalidade e fecundidade (ainda que tenham se mantido muito altos). Os níveis de mortalidade continuaram em queda e observou-se o início do processo de envelhecimento populacional; a idade mediana aumentou para 19 anos e a proporção de idosos superou 5,0%.
A pirâmide populacional de 1990 revelou grandes mudanças, com uma diminuição drástica nos indicadores de natalidade, fecundidade e mortalidade. Neste período, a estrutura etária continuou seu processo de envelhecimento, conforme mostrou o Censo de 1991: a idade mediana aumentou para 22 anos e o índice de envelhecimento alcançou 20,9%, duas vezes maior do que o valor observado em 1950.
Em 2010, a idade mediana aumentou para 27 anos, apenas 1 em cada 4 habitantes tinham idade inferior a 15 anos e 10,8% tinham 60 anos ou mais de idade. O índice de envelhecimento aumentou para 44,8%; para cada 100 jovens, havia 45 idosos.
SAIBA MAIS: O censo demográfico é a principal fonte de referência para o conhecimento das condições de vida da população em todos os municípios do país e em seus recortes territoriais internos, tendo como unidade de coleta a pessoa residente, na data de referência, em domicílio do Território Nacional. Ele tem como objetivo contar os habitantes do território nacional, identificar suas características e revelar como vivem os brasileiros, produzindo informações imprescindíveis para a definição de políticas públicas e a tomada de decisões de investimentos da iniciativa privada ou de qualquer nível de governo. A periodicidade da pesquisa é decenal, excetuando-se os anos de 1910 e 1930, em que o levantamento foi suspenso, 1990, quando a operação foi adiada para 1991 e em 2020, que ele acaba de ser adiado para 2021 devido a pandemia de COVID-19.
Ainda que na década de 70 todas as regiões brasileiras se encontrassem em processo de transição, essa transição não foi uniforme. A queda dos níveis de mortalidade (especialmente infantil) e o consequente aumento da expectativa de vida eram generalizados, entretanto as regiões Sul e Sudeste sempre estavam “um passo à frente” das demais regiões praticamente em uma década, conforme pode-se perceber com a tabela abaixo.
Tabela: Indicadores de estrutura etária, fecundidade e mortalidade nas grandes regiões. Brasil, 1970 a 2010. Fonte: VASCONCELOS, Ana Maria Nogales; GOMES, Marília Miranda Forte. Transição demográfica: a experiência brasileira. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 21, n. 4, p. 539-548, 2012.


Analisando então as pirâmides etárias de 1950 até 2010, podemos perceber que o Brasil teve seu perfil demográfico totalmente transformado: de uma sociedade majoritariamente rural e tradicional, com famílias numerosas e risco de morte na infância elevado, à uma sociedade predominantemente urbana, com arranjos familiares diversos e com risco de morte na infância reduzido.
As mudanças continuam acontecendo e, certamente, no Censo de 2021, teremos a confirmação da projeção do IBGE, com uma pirâmide com a base mais estreita do que as demais e a expectativa de vida crescente.
Transição epidemiológica
As mudanças que ocorrem em uma sociedade normalmente ocorrem em conjunto, ou seja, não se muda as características econômicas de uma população sem mudar o seu modo de pensar e de se organizar.
Por isso, a transição demográfica, explicada acima, geralmente está associada a uma transição epidemiológica, ou seja, existem também nessa sociedade modificações nos padrões de morbidade, invalidez e morte.
Wood & Carvalho, em 1988, escreveram que “os modos de produção econômica e de reprodução humana interagem para determinar a estrutura econômica e demográfica (fertilidade, mortalidade e migração) de uma população. Além disso, fatores ambientais e sócio-culturais devem ser considerados, não sendo possível, portanto, separar o nível de mortalidade de sua estrutura e de sua relação com fatores históricos, sócio-econômicos, demográficos e ambientais”.
Nos últimos 60 anos, a população brasileira tem experimentado a transição epidemiológica, onde ela está saindo de um perfil de alta mortalidade por doenças infecciosas para um outro onde predominam os óbitos por doenças cardiovasculares, neoplasias, causas externas e outras doenças crônico-degenerativas.
No Brasil, a taxa geral de mortalidade decresceu de 18/1000, em 1940, para uma taxa de 6/1000 em 2015, segundo o IBGE. Já a expectativa de vida ao nascer, que era de apenas 45,5 anos em 1940, subiu para 76 anos em 2017.
A quantidade de crianças, a cada mil, que nasceram vivas mas morreram antes de completar um ano (taxa de mortalidade infantil), também mudou bastante de 1940 à 2017: 146,6 e 12,8 respectivamente.
Em 1930, as doenças infecciosas e parasitárias (DIP) representavam 45,7% do total de óbitos ocorridos no país, entretanto, em 1999, esse percentual caiu para apenas 5,9% dos óbitos com causas definidas. Enquanto isto, as Doenças Cardiovasculares (DCV), seguindo uma tendência inversa, aumentaram sua participação de 11,8% para 31,3% do total dos óbitos ocorridos no mesmo período, corroborando com a teoria da transição epidemiológica.
Mortalidade por causas
As estatísticas de mortalidade constituem instrumento fundamental em saúde pública, representando uma das principais fontes de informações para numerosos tipos de estudos epidemiológicos. Tendo em vista essa informação, o Ministério da Saúde desenvolveu em 1975 o Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM), produto da unificação de mais de 40 modelos de instrumentos utilizados, ao longo dos anos, para coletar dados sobre mortalidade no país.
Os óbitos podem ser analisados quanto ao número e em relação a algumas variáveis, dentre outras, sexo, idade, local, tempo, constituindo, entretanto, a sua causa o aspecto mais importante.
No Brasil, segundo o Departamento de Análise de Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis, da Secretaria de Vigilância em Saúde, as principais causas de óbito são a doença isquêmica do coração, seguida pela doença cerebrovascular e, em terceiro lugar, a doença de Alzheimer e outras demências (os dados mais atuais datam do ano de 2016).
Ao compararmos os dados de 2000 com os de 2016, percebemos uma variação grande no escore das causas, onde a doença de Alzheimer e outras demências, que ocupavam o 8º lugar, subiram para 3º. Já as complicações neonatais no parto pré-termo, que se encontravam na 9ª colocação, não se encontram mais entre as 10 causas que mais matam no Brasil.
As neoplasias vêm ocupando espaço no ranking geral de mortalidade do ano de 2016, com as neoplasias de traqueia, brônquios e pulmão em 10º lugar, que não apareciam em 2000. De acordo com o site do Instituto Nacional do Câncer (INCA), no ano de 2018, o câncer matou 117.477 homens e 107.235 mulheres.
A incidência estimada conforme localização primária do tumor, ainda segundo o INCA, segue o mesmo padrão da mortalidade, conforme o sexo, estando nas três posições, no sexo masculino, próstata, cólon e reto e traqueia, brônquios e pulmões, respectivamente. Já no sexo feminino, as três neoplasias mais incidentes são: mama, cólon e reto e colo do útero.
SE LIGA! Os gráficos e tabelas do INCA não levam em consideração o câncer de pele não melanoma, pois essa é a neoplasia mais incidente em ambos os sexos, mas apresenta uma baixa morbimortalidade.
Saúde Coletiva: Indicadores de saúde
Os indicadores de saúde são medidas-síntese que contêm informação relevante sobre determinados atributos e dimensões do estado de saúde, bem como do desempenho do sistema de saúde.
Quando analisados em conjunto, os indicadores devem refletir a situação sanitária de uma população e servir para a vigilância das condições de saúde, além de auxiliar a distribuição de renda entre os estados e municípios. A construção de um indicador é um processo cuja complexidade pode variar desde a simples contagem direta de casos de determinada doença, até o cálculo de proporções, razões, taxas ou índices mais sofisticados.
A capacidade de medir o que se pretende (validade) e a capacidade de se reproduzir os mesmos resultados quando aplicado em condições similares (confiabilidade) medem o grau de excelência de um indicador e a validade geralmente é determinada pela sensibilidade e especificidade.
SE LIGA NOS CONCEITOS:
Sensibilidade: capacidade de detectar o fenômeno analisado.
Especificidade: capacidade de detectar apenas o fenômeno analisado.
Ademais, espera-se que os indicadores possam ser analisados e interpretados com facilidade por qualquer usuário da informação.
Indicadores de morbimortalidade
Tendo em vista que os indicadores refletem as situações demográfica, social e sanitária de uma população, os indicadores de morbidade e mortalidade traduzem diretamente as condições de saúde (ou falta dela).
Coeficientes são as medidas do tipo proporção em que, em geral, os eventos do numerador representam um risco de ocorrência em relação ao denominador (numerador ≠ denominador).
SE LIGA! Os coeficientes de morbimortalidade expressam a probabilidade de adoecer ou morrer por determinada causa em uma determinada população em um espaço de tempo definido.
Esses eventos podem ser detectados em duas perspectivas diferentes: a primeira, em um momento e com base em uma única aferição: a prevalência. A segunda corresponde a detecção da ocorrência de eventos ou mudanças de status ao longo de períodos variáveis de tempo de observação ou acompanhamento, implicando, às vezes, mais de duas mensurações: a incidência.
Em ambos os casos, o resultado da divisão representa uma quantia adimensional que corresponde a fração de indivíduos com o atributo do numerador, que pode ser expressa de várias maneiras: em percentual, por mil, por cem mil, etc, dependendo da frequência do evento.
Em epidemiologia, podemos elaborar dois tipos de indicadores, utilizando coeficientes para mensuração de eventos de prevalência e de incidência.
SE LIGA! A incidência e a prevalência são diretamente proporcionais, ou seja, quanto mais casos novos de uma doença eu tenho, mais casos dessa doença eu tenho no total.
Fatores que alteram a prevalência
Entre os fatores que influenciam a prevalência de um agravo à saúde, excluída a migração, estão a incidência, as curas e os óbitos.
A incidência “alimenta” a prevalência, ou seja, quanto mais casos novos de um determinado agravo, mais casos se tem no total. Por outro lado, dependendo do agravo à saúde, as pessoas podem se curar ou morrer. Quanto maior e mais rápida a cura, ou quanto maior e mais rápida a mortalidade, mais se diminui a prevalência.
Agora, com relação a migração, a prevalência aumenta quando imigram mais pessoas com uma determinada doença, entretanto, a prevalência diminui quando emigram mais pessoas com determinada doença.
Coeficiente de letalidade
É a proporção entre o número de óbitos de uma determinada doença e o número total de doentes que sofrem dessa doença, ao longo de um determinado período de tempo. Esse coeficiente define o impacto que essa doença tem na sociedade.
Coeficiente de mortalidade
Diferente do coeficiente de letalidade, o de mortalidade não considera as pessoas doentes, mas sim a população em geral. É uma medida do número total de óbitos (geral ou por uma causa específica) em uma determinada população em um período de tempo.
Coeficiente de mortalidade materna
Morte materna, segundo o CID-10, é a “morte de uma mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término da gestação, independente da duração ou da localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas em relação a ela, porém não devido a causas acidentais ou incidentais”.
Este coeficiente estima a frequência de óbitos femininos em idade fértil atribuídos às causas ligadas a gravidez, parto e puerpério, em relação ao total de gestações. Ele reflete a qualidade da assistência a saúde da mulher.
Taxas elevadas deste coeficiente estão associadas a uma prestação de serviços insatisfatórios a este grupo populacional.
Morte materna tardia tem o mesmo conceito de morte materna, entretanto, ocorre após 42 dias e em menos de 1 ano do parto. A morte materna por sequela de causa obstétrica direta é aquela que ocorre em um ano ou mais após o parto.
Coeficiente de mortalidade infantil
Este coeficiente estima o risco de um indivíduo morrer em seu primeiro ano de vida e tem o potencial de subsidiar processos de planejamento, gestão e avaliação de políticas e ações da atenção ao pré-natal e ao parto, sendo um indicador utilizado para a avaliação dos níveis de saúde e de desenvolvimento sócio econômico da população.
Assim como a mortalidade materna, a mortalidade nos recém nascidos e bebês também é dividida em mortalidade neonatal precoce, neonatal tardia e pós neonatal.
SAIBA MAIS: Há consistente tendência de redução da mortalidade infantil em todas as regiões brasileiras, o que reflete a melhoria nas condições de vida, o declínio da fecundidade e o efeito de intervenções públicas nas áreas de saúde, saneamento e educação da mãe, entre outros aspectos. Os dados mais recentes de mortalidade infantil por causa no Brasil datam de 2015 e apontam que prematuridade é a principal causa de óbito em menores de cinco anos há, pelo menos, 15 anos. As anomalias congênitas correspondem a segunda causa de morte neste período, seguida por asfixia e traumas no nascimento.
Tabela: Ordenação segundo taxas das principais causas de mortalidade em menores de 5 anos por 1.000 nascidos vivos (NV). Brasil, 2015. Fonte: FRANÇA, Elisabeth Barboza et al. Principais causas da mortalidade na infância no Brasil, em 1990 e 2015: estimativas do estudo de Carga Global de Doença. Revista brasileira de epidemiologia, v. 20, p. 46-60, 2017.


Já as principais causas de mortalidade perinatal estão associadas a prematuridade, a asfixia, as infecções intra-uterinas, a toxemia gravídica e as malformações múltiplas. Essas causas diferem das referidas ao período neonatal, cujas principais são as infecções agudas intra-uterinas, os problemas respiratórios, as malformações, a prematuridade e a infecção pós-natal.
Índices da Saúde Coletiva
Os índices são medidas do tipo “proporção”, ou seja, todas as unidades do numerador estão contidas em um denominador mais amplo, isto é, o numerador é um subconjunto do denominador.
Ora o termo índice é usado como sinônimo de indicador, ora com uma conotação mais abrangente expondo situações multidimensionais do problema estudado e incorporando, em uma medida única, diferentes aspectos ou diferentes indicadores.
Índice de envelhecimento
Um forma de aferir quantitativamente o envelhecimento populacional é por meio do Índice de Envelhecimento (IE), que mede a relação entre o número de pessoas de 60 e mais anos de idade, para cada 100 pessoas menores de 15 anos de idade, na população residente em determinado espaço geográfico, no ano considerado. O processo de envelhecimento caminha a passos largos no Brasil e no mundo, conforme afirma a revisão de 2019 da Divisão de População da ONU.
Essa mesma revisão informa que, globalmente, o número de idosos, que atualmente é de 703 milhões, deverá mais do que dobrar nos próximos 30 anos, atingindo 1,5 bilhão de pessoas em 2050. Como parcela da população mundial, o número de pessoas com 65 anos ou mais e projetada para aumentar de 6% hoje para 16% até 2050. Regiões que se espera testemunhar o maior número relativo.
Posts relacionados
- Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva
- Saúde Coletiva e Educação Física
- Cientistas sociais da Saúde Coletiva
- Pós-Graduação em Saúde Coletiva
- Saúde Coletiva: Revisitando a sua História e os Cursos de Pós-Graduação
- Os Cursos de Saúde Coletiva no Brasil -Mestrado e Doutorado
- Desafios do Ensino da Saúde Coletiva na Graduação dos Profissionais de Saúde