Mesmo o sarampo podendo ser evitado através da vacinação, o país está apresentando incidência elevada de casos em pleno ano de 2020, trazendo dúvidas sobre o motivo dessa falha na prevenção e gerando preocupação, já que essa patologia, que é de etiologia viral, é altamente contagiosa e pode causar complicações graves e até fatais.
Transmissão
A transmissão ocorre por via aérea – quando o doente tosse, fala, espirra ou respira próximo de outras pessoas – e pode ocorrer desde cinco dias antes até cinco dias após o aparecimento das manchas vermelhas pelo corpo, sendo que o período de maior transmissibilidade ocorre 48 horas antes até 48 horas depois do início do exantema.
É uma doença extremamente contagiosa, sendo que uma pessoa infectada pode transmitir para 90% das pessoas próximas que não estejam imunes.
Importante: deve-se recomendar o isolamento social até 7 dias após o aparecimento do exantema.
Quadro clínico
Os sintomas iniciais apresentados pelo paciente são: febre acompanhada de tosse, conjuntivite, corrimento nasal e mal-estar intenso e, após 3 a 5 dias, podem aparecer outros sinais e sintomas, como exantema eritematoso maculopapular de progressão craniocaudal, começando atrás das orelhas e, em seguida, se espalhando pelo corpo, sem poupar região palmo-plantar.
Exantema do sarampo:

Durante o período prodrômico, um a dois dias antes do aparecimento do exantema, pode-se ter a presença das manchas de Koplik (enantema fugaz, caracterizado por pequenas manchas azul-esbranquiçadas no revestimento interno das bochechas, mais comumente na região oposta aos dentes molares) – sinal patognomônico do sarampo.
Manchas de Koplik:

Notificação compulsória
Será considerado um caso suspeito de sarampo todo indivíduo que, independentemente da idade e situação vacinal, apresentar febre e exantema maculopapular acompanhado de um ou mais dos seguintes sintomas: tosse e/ou coriza e/ou conjuntivite.
As autoridades sanitárias do Brasil recomendam que os casos devem ser notificados em até 24 horas e investigados em até 48 horas. Importante também que seja realizada a vacinação de bloqueio – aplicação nas pessoas de possível contato e proximidade com o doente.
Diagnóstico
Podem ser realizados:
- Sorologia, através de coleta de sangue venoso, para detecção de anticorpos IgM – específicos contra o sarampo;
- Aumento significativo do anticorpo IgG em amostras pareadas, colhidas na fase aguda e na fase de convalescença – com pelo menos 10 dias de intervalo;
- Isolamento viral/RT-PCR em amostras de urina, sangue ou swab de nasofaringe (2 amostras) e orofaringe (1 amostra).
Obs.: os anticorpos IgM costumam permanecer detectáveis por pelo menos 1 mês após o aparecimento do exantema e pode ocorrer falso negativo nos primeiros dias após o aparecimento do exantema e em pacientes previamente vacinados.
Tratamento
Não existe tratamento específico para eliminar o vírus, sendo que a conduta consiste apenas em reduzir o desconforto ocasionado pelos sintomas com hidratação venosa, antitérmicos, soro fisiológico para limpeza ocular e tratamento com antimicrobianos nos casos acompanhados de infecções secundárias, como otite média aguda, pneumonias e conjuntivite.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o uso de vitamina A em TODAS as crianças com sarampo devido ao efeito protetor que a vitamina mostrou por reduzir as taxas de morbidade e mortalidade. Administrar duas doses – imediatamente ao diagnóstico e repetida no dia seguinte.
Complicações
As complicações mais comuns em crianças são pneumonia, otite média aguda, encefalite aguda e morte.
Após o aparecimento das manchas, se houver persistência da febre, é um sinal de alerta – principalmente em crianças menores de 5 anos.
Quando devo indicar hospitalização?
Indicar a hospitalização do paciente nos seguintes casos: crianças menores do que 6 meses, desnutridos graves, gestantes, pacientes com imunodeficiência ou que apresentam um ou mais dos seguintes sinais de gravidade:
- Desidratação;
- Vômitos persistentes;
- Diarreia significativa;
- Incapacidade de ingerir líquidos e alimentos;
- Presença de grande quantidade de úlceras na cavidade oral;
- Desconforto respiratório, estridor ou pneumonia;
- Convulsão;
- Déficit motor e/ou alteração sensorial.
Sobre a vacinação
A primeira dose da vacina de sarampo (tríplice viral) deve ser tomada com um ano de idade e a segunda dose aos quinze meses (tetra viral).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os Estados-membros mantenham 95% da cobertura vacinal para as duas doses de rotina.
São considerados vacinados: pessoas de 12 meses a 29 anos que comprovem as duas doses com componente tríplice viral, pessoas de 30 a 49 anos que comprovem uma dose de tríplice viral e profissionais de saúde – independentemente da idade – devem apresentar duas doses de tríplice viral.
Conclusão
O sarampo voltou a preocupar nos últimos anos devido ao aumento de casos pelo Brasil. Sendo altamente contagioso e perigoso, sua prevenção é por meio da vacinação que parece estar apresentando falhas em sua cobertura. Além de ser uma doença que está passando por um problema de saúde pública, é também extremamente relevante para a carreira médica e para as provas de residência.
Autora: Bruna Ferraz
Instagram: @brunaaferraz
Referências:
- http://informe.ensp.fiocruz.br/assets/anexos/8766d7ed2c7aedc4ee80eaf4a26859b21e1580f8.PDF
- https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/sarampo-sintomas-transmissao-e-prevencao
- http://antigo.saude.gov.br/saude-de-a-z/sarampo
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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