INTRODUÇÃO
Após cerca de um ano e meio do início oficial da pandemia de Covid-19, a capacidade do vírus de gerar modificações na sua estrutura gerou diversas ondas de contaminação pelos mais diversos locais causando cerca de 4,4 milhões de mortos segundo dados da Universidade Johns Hopkins nos EUA. Apesar disso, boa parte dos países já flexibilizam as medidas de segurança, possibilitando a volta das atividades sob a continuação do uso de EPI’s.
VACINAS
No final do ano de 2020, sob o investimento de diversas nações foram ofertadas no mercado mundial, uma gama de vacinas contra o Sars-CoV-2. O objetivo dessa imunização ativa é reduzir a mortalidade do vírus e, em alguns casos, prevenir. Muitos esforços foram desenvolvidos, para barrar a pandemia, no entanto o patógeno continua entrando em mutação e criando novas cepas, as quais nem todas as vacinas conseguem ser eficazes contra.
Apesar de termos cerca de 5 bilhões de vacinados, uma parte da população não possui uma imunidade completa, uma vez que não tomou a dosagem completa da vacina, se essa for dividida em duas ou mais doses.
A DESCOBERTA
Em busca de um denominador comum, pesquisadores do mundo todo buscam soluções, dentre essas foi descoberto um superanticorpo que parece combater uma série de variantes do Sars-CoV-2 e de outros tipos de coronavírus.
A descoberta foi feita por uma equipe de pesquisadores da Fred Hutchinson Center, nos EUA, e apresenta um anticorpo chamado S2H97 que demonstrou ser eficaz não só contra as diversas cepas da Covid-19, mas também contra outros tipos de coronavírus.
A pesquisa, liderada pelo bioquímico Tyler N. Starr, investigou 12 anticorpos diferentes encontrados em infectados pelo vírus, com o objetivo de estudar a forma de atuação dessas variantes e seu encontro com os anticorpos. A maioria das mutações consegue proporcionar uma rota de fuga para o vírus, mas o anticorpo descoberto consegue manter uma forte união com o sarbecovírus, prevendo seu método de escape e gerando uma profilaxia no embate viral.
FORMA DE ATUAÇÃO
O exame da estrutura do S2H97 mostrou que ele possui como alvo uma área não descoberta do domínio de ligação com o receptor celular que o estudo chamou de “Sítio V”. Esse domínio, parece ser comum a múltiplos vírus, proporcionando à comunidade médica a esperança de uma vacina global.
Os anticorpos mais potentes já encontrados utilizam-se da conexão com um domínio receptor-obrigatório (RBD), as mutações nesse receptor reduzem, portanto, a taxa de sucesso da ligação para que ocorra o processo imune e isso é o que as novas cepas causam.
A CONEXÃO
Para obter sucesso na conexão com a célula os sarbecovírus (Sars) necessitam conectar sua glicoproteína no domínio S, ligado ao receptor de enzima conversor de angiotensina (ACE2) presente em diversos órgãos, em especial nos pulmões, no intestino e no cérebro. O domínio S é abundante no coronavírus, o que dá o aspecto de corona/coroa e é esse domínio que age como trava possibilitando a entrada do vírus.
A estratégia da vacina é justamente induzir o sistema imunológico a produzir anticorpos que neutralizem o RBD viral para que não se firme uma interação com a célula. A questão é que o vírus consegue proporcionar algumas mutações no RBD.
Cada domínio S é uma espécie de projeção de superfície que pode variar a depender dos diferentes coronavírus, mas não para por aí, esse domínio possui ainda um subdomínio curto ou S1, que contém dois locais do glycosylation que segregam fragmentos curtos do RBD conectando-se ao ACE2.
Cada local funcional do glycosylation é suficiente para gerar RBD que possibilite a conexão com a ACE2, obviamente a mutação nos resíduos ácidos aminados de RBD dificultam a conexão com a ACE2. A conexão do RBD em seu domínio S é fundamental para induzir o processo de adesão/união que possibilita o domínio S2 ancorar o vírus à membrana.
No Sars-CoV-2 o domínio S1 é bem mais eficaz que o Sars-Cov possibilitando uma conexão importante com as células epiteliais respiratórias e digestivas. Tomados em conjunto, esses experimentos sugerem que o mecanismo S2H97 de neutralização envolve a inibição do emparelhamento do RBD com o a célula mediada por ACE2.
Os estudos foram testados in vivo, em Hamsteres Sírios e demonstraram que o S2H97 pode ser um protetor in vivo.
CONCLUSÃO
Essa descoberta aprofundou a visão da comunidade médica sobre o vírus, mediante a revelação de novos fatores variantes que alteram a conformação dos domínios virais e podemos interpretar isso com uma visão bem otimista para o futuro próximo. É tempo de intensificar os estudos para esse novo anticorpo, com vistas à criação de uma vacina global contra as cepas do novo coronavírus.
Isso ainda não é uma realidade, mas tende a ser logo logo, peço ao caro leitor que continue com os protocolos de segurança pessoal e busque a imunização, na medida em que só há benefícios em seguir o que a ciência nos apresenta como medidas eficazes de segurança contra o vírus.
AUTOR: Rian Barreto Arrais Rodrigues de Morais
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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
- Mutações no SARS-CoV-2 não mudaram comportamento viral, disponível em: https://www.frontliner.com.br/mutacoes-no-sars-cov-2-nao-mudaram-comportamento-viral/
- SARS-CoV-2 RBD antibodies that maximize breadth and resistance to escape, disponível em: *SARS-CoV-2 RBD antibodies that maximize breadth and resistance to escape (nature.com)
- Este ‘superanticorpo’ para COVID combate vários coronavírus, disponível em:https://www.nature.com/articles/d41586-021-01917-9
- Uma visão geral das vacinas COVID-19, disponível em: Uma visão geral das vacinas COVID-19 (news-medical.net)