1. Lombalgia
Na coluna lombar posiciona-se o centro de gravidade do corpo humano, consequentemente, é o local onde maior parte dos movimentos tem início, dessa forma, é uma fonte latente de dor. Em virtude desse alto potencial, a população acaba sendo fortemente afetada pela dor nessa região, entretanto, sua etiologia, geralmente, não é definida, sendo assim caracterizada como lombalgia inespecífica, ou sem sinais de alarme – 85% dos casos. Mesmo não tendo restrição de idade ou gênero, aflige principalmente mulheres, idosos, e pessoas com excesso de peso, seja por causas congênitas, degenerativas, inflamatórias, infecciosas ou posturais.
A dor lombar é uma condição que pode atingir até 65% da população por ano, podendo chegar em até 84% em algum momento da vida desses indivíduos, limitando a rotação do tronco e podendo irradiar para os membros inferiores. É a principal causa de incapacidade no trabalho em pessoas com menos de 45 anos, e um dos principais motivos de consulta médica. Ela surge muitas vezes como um diagnóstico, e não como um sintoma, baseando-se na história clínica e exame físico, dessa forma, sua caracterização, assim como a decisão terapêutica adequada, tornam-se difíceis. A causa da lombalgia é multifatorial, e o histórico é um ponto fundamental para a abordagem do paciente.
Dentre os diversos pontos do corpo humano que podem ser afetados para desencadear essa dor, as facetas articulares têm sido apontadas como uma das causas mais relevantes, que são as articulações presentes entre as vértebras da coluna, são articulações sinoviais verdadeiras, possuem um espaço articular capaz de armazenar cerca de 1 a 1,5ml de líquido sinovial, possuem duas superfícies de cartilagem hialina e uma cápsula fibrosa, a qual tem, geralmente, 1mm de espessura e é composta quase que totalmente por colágeno, é mais espessa posteriormente e anteriormente é substituída pelo ligamento amarelo. Além disso, essas articulações são ricamente inervadas, contendo tanto terminações encapsuladas (corpúsculos de Ruffini e Pacini) como não encapsuladas, além de terminações nervosas livres de neurônios mecano-sensíveis, o que além da função nociceptiva, acrescentaria também uma função proprioceptiva a estas articulações
Na década de 1940 foi descoberto que essas articulações poderiam ser uma causa de dor, através do estudo em cadáveres, quando foi constatado a existência de uma inervação neural para o complexo articular facetário.
A lombalgia crônica é caracterizada por dor persistente por mais de 3 meses, e acomete cerca de 10% dos pacientes com lombalgia, causando limitações posturais e de movimento, incapacitação e, consequentemente, afastamento de atividades laborais e do cotidiano em uma grande parcela da população portadora. O uso de tratamentos com analgésicos são os mais utilizados pelos pacientes – muitas vezes sem receita – e prescritos pelos médicos – principalmente paracetamol, diclofenaco e tramadol -, devido principalmente ao rápido e fácil acesso, além de outros tratamento clínicos e de reabilitação, todavia, quando há refratariedade, faz-se necessário a utilização de métodos cirúrgicos.
2. Rizotomia
A palavra rizotomia vem do grego Rhyzos – raiz – e Tomos – ressecção e foi proposta inicialmente em 1975 por Shealy. O procedimento ganhou significado na área médica como um método que visa interromper a função dos nervos, a partir de uma lesão nesses, com o objetivo de alívio da dor e do desconforto, de uma forma minimamente invasiva – por ser percutâneo, e não necessitar de corte -, com baixíssimos índices de complicações, extremamente segura e alta efetividade.
A cirurgia é rápida, com tempo estimado entre 30 a 75 minutos, onde o paciente recebe anestesia leve e local, recebendo alta hospitalar no mesmo dia, ou em até 24 horas. O meio pelo qual a rizotomia facetária é executada é a radiofrequência, na qual uma onda elétrica causa traumatismo nos nervos sensitivos através da introdução de um eletrodo em forma de agulha de 25 gauges e 90 mm pela pele do paciente até a topografia do ramo medial nos níveis L2, L3, L4 e L5 bilateralmente, que é colocado sobre os pequenos nervos que transmitem a dor das articulações facetárias. Estes eletrodos são ligados a um aparelho de rádio-frequência, que fornece uma quantidade controlada de energia, promovendo a lesão destes nervos. O procedimento é guiado por radioscopia, e feito em ambiente cirúrgico.
3. Conclusão
O método de rizotomia facetária para alívio da dor crônica lombar tem alta eficácia e, se feito por profissionais habilitados, os riscos são praticamente inexistentes. O procedimento vem sendo cada vez mais empregado no meio médico e, juntamente com sua eficiência, há uma rápida recuperação e uma queda do uso indiscriminado de analgésicos pelos pacientes portadores dessa algia. No entanto, mesmo com o curto tempo de reabilitação e a melhora significativa dos sintomas de dor, é imprescindível que o paciente continue fazendo acompanhamento com seu médico para conduzir sua evolução.
O alívio da dor pode ser total ou parcial, mas mesmo assim, tem grande importância devido ao fato de que os pacientes submetidos a esse procedimento são aqueles que já obtiveram outros tipos de tratamento sem a eficácia necessária ou refratários. A dor lombar pode também, em alguns casos, retornar depois de algum tempo, nesses casos, um novo procedimento pode ser indicado.
Autora: Sophia Benatti Proietti
Instagram: @_sophiabenatti
Referências
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