História
A proteína de Bence-Jones (BJP) foi descrita pela primeira vez em um paciente internado no hospital de St. George, Londres. O paciente sob os cuidados do Dr. Whatson e MacIntyre apresentava uma dor continua e vaga na região do peito, nas costas e sua pélvis, isso no ano de 1845. Dr. Henry Bence Jones testou a urina e encontrou uma substância que foi precipitada pela adição de HNO3, o qual passou a chamar de “deutoxida hidratada de albumen” no século XIX toda proteinúria de urina era referida como Albuminuria. No exame cadavérico do paciente, o osso esterno e suas vértebras foram referenciados como macios e frágeis e múltiplas cavidades hemorrágicas estavam presente no osso, foi chamada a morte do paciente como atrofia da Albuminuria e somente em 1880 o termo Bence Jones Proteins foi usado pelo Dr. Fleischer. As características peculiares no aquecimento caracterizavam pela primeira vez BJP, precipitação da urina entre 40-60 °C e re-dissolução do precipitado a 100°C.
Embora tenha sido uma observação que levou uma descrição simples do mieloma múltiplo no século XIX, porém, em 1965 Norbert Hilschmann e Lyman C. Craig nos Estados Unidos sequenciaram as cadeias de Bence Jones (cadeias leves de imunoglobulinas) e encontraram que o extremo amino terminal era variável e o grupo carbóxilo terminal era constante. Por ser quantificado com precisão por técnicas eletroforéticas, incluso de imunofixação, a presença de proteinúria de Bence Jones levanta uma suspeita de mieloma múltiplo e garante o encaminhamento para uma clínica especializada.
Classes de imunoglobulinas

Existem cinco classes de gerais de anticorpos, chamados respectivamente de IgG, IgM, IgA, IgE, IgD. O Ig se refere a imunoglobulina e as outras cincos letras designam as suas respectivas classes. Exemplo, as imunoglobulinas pertencentes a classe IgG é um anticorpo bivalente que constitui aproximadamente 75% dos anticorpos de uma pessoa normal e a IgE constitui uma pequena parte, porém participa fortemente nas alergias.

As ideias principais de como se formam as estruturas dos anticorpos se postularam antes do desenvolvimento de tecnologias modernas que pudessem gerar artificialmente anticorpos monoclonais, assim, grande parte da investigação básica de determinação de sua estrutura se completou ante que houvesse técnicas para o sequenciamento rápido de ADN, os imunologistas dos séculos anteriores recorreram aos produtos proteicos de tumores secretores de anticorpos.
Cadeias leves livres e suas associações
As cadeias leves livres são pequenas o suficiente para que sejam excretadas na urina, ondem recebem o nome de proteínas de Bence Jones.

Mieloma múltiplo: a mais importante gamopatia monoclona, geralmente se manifesta-se como massas tumorais espalhadas pelo sistema esquelético, o mieoloma solitário (plasmocitoma) é uma variante rara que se forma uma massa única nos tecidos moles ou nos ossos e o mieloma indolente é o que se refere uma forma incomum definida pela ausência de sintomas e os níveis altos de concentração séricas dos componentes M. É uma neoplasia de plasmócitos comumente associado a lesões líticas ósseas, hipercalcemia, insuficiência renal e alterações imunológicas adquiridas.
Macroglobulinemia de Waldenström: é uma síndrome em que os níveis de IgM resultam em sintomas relacionados à hiperviscosidade do tecido sanguíneo. Geralmente ocorrem em pessoas adultas de mais idade e geralmente associado ao linfoma linfoplasmocítico.
Amiloidose primária: resulta da proliferação monoclonal de plasmócitos secretores de cadeias leves (λ) que são depositados como amiloide nos tecidos, alguns pacientes têm manifestação presente de mieloma múltiplo enquanto outros apresenta apenas uma população clonal de plasmócitos na medula óssea.
Disfunção renal (rim do mieloma): a insuficiência renal evidente ocorre em metade daqueles pacientes com mieloma múltiplo e distúrbios linfoplasmocíticos relacionados. Diversos fatores contribuem para os danos renais – lesões tubulointersticiais. BJP e a principal causa de disfunção renal está relacionado a proteinúria de cadeia leve e correlaciona com o grau desta, dois mecanismos parecem responsáveis pela toxicidade renal de BJP, primeiro algumas cadeias leves de Ig são diretamente toxicas para as células epiteliais, aparentemente por suas propriedades físico-químicas intrínsecas. Segundo as BJP se combinam com as glicoproteínas urinarias (Tamm-Horsfall) em meio ácido para formar cilindros tubulares grandes, evidentes que obstruem as luzes tubulares e induzem a uma característica reação inflamatória (nefropatia por cilindros de cadeia leve).
Os plasmacitomas são tumores das células plasmáticas em sua etapa final de diferenciação de células B, as células deste tumor normalmente estão situadas na medula óssea, quando a célula plasmática se faz cancerosa e permanece em um único sítio, chama-se plasmacitoma, uma vez que acontece metástases em vários sítios da medula óssea, passa a chamar mieloma múltiplo, estes tipos de tumores secretam grandes quantidades de anticorpos monoclonais ao soro plasmático e aos líquidos tissulares. Estes tumores no lugar de secretar os anticorpos completo secretam somente as cadeias ligeiras ou as vezes ambas, as cadeias ligeiras homogêneas secretadas por estes tumores mieloma se chamam proteínas de Bence-Jones.
A importância clínica
A importância clínica da proteinúria de BJP é muito importante, pois são indicativos de alguma alteração das células plasmáticas por decorrência de alguma alteração fisco-bioquímico das células. Os pacientes podem ter sintomas de anemia, hipercalcemia e comprometimento renal, as manifestações clínicas podem se darem em vários sítios, incluso no tecido celular ósseo com lesões dolorosas, esmagamento das vertebras, fraturas ósseas. Ao menos 60% dos pacientes com mieloma clássico tem BJP na urina.
Conclusão
É extrema importância para paciente, que o médico ao atender conheça bem os sinais na clínica, são todos eles de extrema importância que conduz a tomada de decisões que resultará na melhor tomada de decisão para o seu caso em específico, o qual poderá levar o paciente a um bom diagnóstico e um tratamento eficiente. Para salvar a vida ou maximizar ao máximo o tempo de vida de um paciente. Diante de sinais que possam sugerir o médico deverá tomar a melhor decisão, seja o encaminhamento para uma clínica de alta especialidade ou o tratamento local do paciente se for o caso.
Autor: Plínio dos Anjos Ramalho
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Referências
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Kumar, V., Abbas, A. K., & Aster, J. C. (2016). Robbins & Cotran Patologia – Bases Patológicas das Doenças 9. Edição. Elsevier Editora Ltda.: Rio de Janeiro.
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