Confira neste post as principais informações sobre o transtorno delirante orgânico – do conceito ao tratamento!
Transtorno Delirante Orgânico, também chamado de Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica Com Delírios (codificado pelo CID 10 como F06.2 e pelo DSM-V como 293.81) trata-se de um subtipo do Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica.
O qual pode ser um estado passageiro isolado ou pode ser recorrente, ciclando com as exacerbações e remissões da condição médica subjacente, e seu quadro clínico é caracterizado pela presença de delírios persistentes ou recorrentes que podem vir acompanhados de alucinações.
A associação temporal do início da doença base ou de sua exacerbação permite que o diagnóstico seja realizado com maior certeza, por isso a boa anamnese seguida de um bom exame psíquico são fundamentais.
Tanto o delírio quanto a alucinação são sintomas de transtorno psicótico e costumeiramente são confundidos ,sendo portanto importante ressaltar a diferença entre eles.
Os delírios são descritos como crenças errôneas as quais o paciente apresenta convicção extraordinária, ou seja, uma certeza subjetiva incomparável, que não é possível de ser mudada por nenhum tipo de prova de realidade. Já as alucinações são experiências que podem ocorrer em qualquer modalidade sensorial (ou seja, audição, tato, visão, paladar e olfato), sendo elas vívidas e claras. A alucinação auditiva é o tipo mais comum.
Transtorno delirante orgânico: etiologia e fisiopatologia
O Transtorno Delirante Orgânico foi encontrado em uma variedade de condições médicas, como:
- desordens neurológicas de causa tanto estrutural quanto tóxica-metabólica,
- endocrinopatias,
- distúrbios autoimunes e
- avitaminoses.
Apesar da fisiopatologia ainda não estar totalmente elucidada, foi encontrada relação entre transtorno delirante orgânico e lesões do lobo temporal ou sistema límbico.
Diagnóstico de transtorno delirante orgânico
Critérios Diagnósticos
Os critérios diagnósticos para Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica, de acordo com o DSM-V, são:
- Alucinações ou delírios proeminentes.
- Há evidências da história, do exame físico ou de achados laboratoriais de que a perturbação é a consequência fisiopatológica direta de outra condição médica.
- Perturbação não é mais bem explicada por outro transtorno mental.
- Não ocorre exclusivamente durante o curso de delirium.
- Perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
Para ser classificado como subtipo Delirante Orgânico, os delírios devem ser o sintoma predominante.
Transtorno delirante orgânico: diagnóstico diferencial
Os principais diagnósticos diferenciais são:
- esquizofrenia,
- transtorno Psicótico Induzido por Substância/Medicamento e
- Delirium.
Esquizofrenia
A esquizofrenia é um transtorno psicótico cujo critério diagnóstico é possuir dois ou mais dos sintomas principais (delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento amplamente desorganizado ou catatônico, sintomas negativos) por pelo menos um mês ou duração dos sintomas principais de, pelo menos, um mês, e do quadro deficitário (sintomas negativos, déficit funcional, etc.) por, pelo menos, seis meses.
Importante reiterar que em transtornos psicóticos como a esquizofrenia não podem ser demonstrados mecanismos fisiológicos causadores específicos e diretos associados a uma condição médica.
Transtorno Psicótico Induzido por Substância/Medicamento
O Transtorno Psicótico Induzido por Substância/Medicamento, tem como critérios diagnósticos a presença de delírios e/ou alucinações. Deve existir a evidência na história, no exame físico ou nos achados laboratoriais de os sintomas de delírio e alucinação terem se desenvolvido durante ou logo após intoxicação por uma substância ou abstinência.
Também pode acontecer após exposição a um medicamento ou s substância/medicamento envolvida é capaz de produzir esses sintomas e a perturbação não é mais bem explicada por um transtorno psicótico não induzido por substância/medicamento.
Delirium
O Delirium é um estado confusional agudo, de curso flutuante, com presença de distúrbios da consciência, de atenção, de orientação, de memória, de pensamento, de percepção e de comportamento.
Por mais que delírios costumam também ocorrer no delirium, o diagnóstico de Transtorno Delirante Orgânico não é dado nesse caso. Afinal, a perturbação ocorre exclusivamente durante o curso de delirium.
Tratamento para transtorno delirante orgânico
O tratamento da doença médica subjacente em alguns casos pode curar o transtorno, porém é comum que os sintomas psicóticos persistam mesmo após a doença base ter sido resolvida. No caso de doenças crônicas, não é incomum a psicose assumir um curso prolongado.
Nesses casos em que os sintomas psicóticos continuem, os pacientes devem receber tratamento específico com fármacos neurolépticos.
Esses medicamentos, que também podem ser chamados de antipsicóticos, são classificados em:
- típicos ( a exemplo o haloperidol, e clorpromazina, a pimozida, a trifluoperazina e a levomepromazina) e
- atípicos (como a tioridazina, a sulpirida, a clozapina, a risperidona, a olanzapina e o oripiprazol)
Esta divisão está relacionada com seu mecanismo de ação. Predominantemente bloqueio de receptores da dopamina (D) nos típicos, e bloqueio dos receptores dopaminérgicos e serotonérgicos (5HT) nos atípicos.
Antipsicóticos
Os antipsicóticos atípicos, costumam causar menos efeitos colaterais, sendo portanto mais tolerados. Por isso, são cada vez mais preferidos em lugar dos típicos como primeira escolha de tratamento:
Risperidona
A risperidona quando há delírios e alucinações proeminentes, hostilidade, agitação, obesidade, tabagismo, hiperglicemia ou diabetes;
Olanzapina
A olanzapina quando há tendência a ocorrerem sintomas extrapiramidais ou acatisia ou a clozapina quando ocorreu discinesia tardia.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
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