Gestação de alto risco: tudo que você precisa saber desde o diagnóstico as orientações de seguimento!
A gestação é um fenômeno fisiológico, no qual deve ser vista por todos como parte de uma experiência de vida saudável envolvendo mudanças dinâmicas do ponto de vista físico, social e emocional.
Trata-se de uma situação limítrofe que pode implicar riscos tanto para a mãe quanto para o feto e existe um determinado número de gestantes que, por características particulares, apresentam um risco elevado de evolução desfavorável, são as chamadas “gestantes de alto risco”.
Como avaliar o risco de uma gestação?
Embora apesar dos esforços dos cientistas para criar um sistema de pontuação e tabelas para discriminar gestação de alto risco das de baixo risco não tenham gerado nenhuma classificação capaz de predizer problemas de forma eficaz.
Existem fatores de risco conhecidos mais comuns na população em geral que devem ser identificados nas gestantes. Afinal, podem alertar a equipe de saúde no sentido de uma vigilância maior com relação ao eventual surgimento de fator complicador.
É ressaltar que uma gestação que está transcorrendo bem pode se tornar de risco a qualquer momento, durante a evolução da gestação ou durante o trabalho de parto.
Com isso, se faz necessário reclassificar o risco a cada consulta pré-natal e durante o trabalho de parto. A intervenção precisa e precoce evita os retardos assistenciais capazes de gerar morbidade grave, morte materna ou perinatal.
Possíveis sintomas de gravidez de risco
Durante o quadro da gravidez, é frequente surgir sintomas que provocam desconforto na mulher grávida, como:
- náuseas,
- enjoo,
- dificuldade em digerir os alimentos,
- prisão de ventre,
- dores nas costas,
- câimbras ou
- necessidade de ir muitas vezes ao banheiro.
Outros sintomas
Porém, existem outros sintomas que podem indicar uma gravidez de risco como:
- Sangramento pela vagina,
- Contrações uterinas antes do tempo ou de forma regulares,
- Liberação de fluído amniótico antes do tempo,
- Não sentir o bebê se mexendo mais de um dia ou diminuição da movimentação fetal,
- Vômitos e náuseas frequentes,
- Tonturas e desmaios frequentes,
- Dores ao urinar,
- Inchaço repentino do corpo ou edema excessivo,
- Aceleração repentina dos batimentos cardíacos,
- Dificuldade para caminhar,
- Cefaleia,
- Escotomas visuais,
- Epigastralgia,
- Febre.
Quando existir algum desses sintomas é recomendado a procura do médico o mais rápido possível. É preciso identificar a causa e, assim, iniciar o tratamento mais adequado para prevenir complicações para a mulher e para o bebê.
Principais causas de gestação de alto risco
A probabilidade de gravidez de risco é maior quando a mulher tem menos de 17 anos ou idade superior a 35 anos, podendo o risco também ser influenciado por doenças e hábitos.
Assim, as principais causas de gravidez de risco são:
- Pressão alta e pré-eclâmpsia;
- Diabetes;
- Gravidez de gémeos;
- Consumo de álcool, cigarro e drogas;
- Uso de remédios perigosos durante a gravidez (como: fenitoína, triantereno, trimetoprim, lítio, estreptomicina, as tetraciclinas e a varfarina, morfina, anfetaminas, barbitúricos, codeína e fenotiazinas);
- Sistema imune fraco;
- Gravidez na adolescência ou depois dos 35 anos;
- grávida com baixo peso ou obesidade;
Marcadores e fatores de risco gestacionais
História reprodutiva anterior:
- Abortamento habitual;
- Morte perinatal explicada e inexplicada;
- História de recém-nascido com crescimento restrito ou malformado;
- Parto pré-termo anterior;
- Esterilidade/infertilidade;
- Intervalo interparto menor que dois anos ou maior que cinco anos;
- Nuliparidade e grande multiparidade;
- Síndrome hemorrágica ou hipertensiva;
- Diabetes gestacional;
- Cirurgia uterina anterior (incluindo duas ou mais cesáreas anteriores).
Condições clínicas preexistentes:
- Hipertensão arterial; Cardiopatias;
- Pneumopatias;
- Nefropatias;
- Endocrinopatias (principalmente diabetes e tireoidopatias);
- Hemopatias;
- Epilepsia;
- Doenças infecciosas (considerar a situação epidemiológica local);
- Doenças autoimunes;
- Ginecopatias;
- Neoplasias.
Características individuais e condições sociodemográficas desfavoráveis:
- Idade maior que 35 anos;
- Idade menor que 15 anos ou menarca há menos de 2 anos*;
- Altura menor que 1,45m;
- Peso pré-gestacional menor que 45kg e maior que 75kg (IMC<19 e IMC>30);
- Anormalidades estruturais nos órgãos reprodutivos;
- Situação conjugal insegura;
- Conflitos familiares;
- Baixa escolaridade;
- Condições ambientais desfavoráveis;
- Dependência de drogas lícitas ou ilícitas;
- Hábitos de vida – fumo e álcool;
- Exposição a riscos ocupacionais: esforço físico, carga horária, rotatividade de horário, exposição a agentes físicos, químicos e biológicos nocivos, estresse.
Orientações para gestação de alto risco
Os profissionais que prestam assistência a gestantes devem estar sempre alertas à existência desses fatores de riscos. Devem ser capazes de avaliá-los dinamicamente, de maneira a determinar o momento em que a gestante necessitará de assistência especializada ou de interconsultas com outros profissionais.
As equipes de saúde que maneja pré-natal de baixo risco deve estar preparadas para receber as gestantes com fatores de risco identificados e prestar um primeiro atendimento e orientações no caso de dúvidas ou situações imprevistas.
Uma vez encaminhada para acompanhamento em um serviço especializado em pré-natal de alto risco é importante que a gestante seja orientada a não perder o vínculo com a equipe de atenção básica ou Saúde da Família que iniciou o acompanhamento.
Por sua vez esta equipe deve ser mantida informada a respeito da evolução da gravidez e tratamentos administrados à gestante por meio de contrarreferência e de busca ativa das gestantes em seu território de atuação, por meio da visita domiciliar.
Seguimento das gestações de alto risco
O Seguimento das gestações de alto risco tem o intuito de uma assistência pré-natal que interfira no curso de uma gestação que possui maior chance de ter um resultado desfavorável, de maneira a diminuir o risco ao qual estão expostos a gestante e o feto, ou reduzir suas possíveis consequências adversas.
Na qual a equipe de saúde deve estar preparada para quaisquer fatores que possam afetar adversamente a gravidez, sejam eles clínicos, obstétricos, socioeconômico ou emocional.
Para tanto, a gestante deverá ser sempre informada do andamento de sua gestação e instruída quanto aos comportamentos e atitudes que deve tomar para melhorar sua saúde, assim como sua família, companheiro(a) e pessoas de convivência próxima, que devem ser preparados para prover um suporte adequado a esta gestante.
O que a equipe de saúde deve levar em consideração em um seguimento de gestação?
a) Avaliação clínica: história clínica detalha e avaliação de parâmetros clínicos/ laboratoriais.
b) Avaliação obstétrica: idade gestacional, evolução da gravidez (por meio: ganho ponderal, pressão arterial e crescimento uterino); avaliação do crescimento e as condições de vitalidade e maturidade fetais.
c) Repercussões mútuas entre as condições clínicas da gestante e a gravidez: fisiologia da gravidez e suas alterações previstas.
d) Parto: via de parto e o momento ideal (a decisão deve ser tomada de acordo com cada caso e é fundamental o esclarecimento da gestante e sua família, com informações completas e de uma maneira que lhes seja compreensível culturalmente, quanto às opções presentes e os riscos a elas inerentes, sendo que deve ser garantida a sua participação no processo decisório).
- Obs.: Cabe ressaltar, que gravidez de risco não é sinônimo de cesariana, pois em muitas situações é possível a indução do parto visando o seu término por via vaginal, ou mesmo aguardar o seu início espontâneo. A indicação da via de parto deve ser feita pelo profissional que for assistir ao parto.
e) Aspectos emocionais e psicossociais: equipe multidisciplinar. Pois a gravidez representa desafio para condições maternas no contexto emocional, fatores psíquicos pré-existentes e atuais, e os componentes da gravidez e ambientais.
Conclusão
Ao estratificar e classificar uma gestação de alto risco, permite-se que se organize a assistência pré-natal de modo que as gestantes sejam atendidas no local mais apropriado, por equipe de saúde qualificada.
De acordo com seu risco, objetivando atendimento coordenado, multidisciplinar, de forma que se possa otimizar os custos e se dê agilidade no atendimento e ao encaminhamento das pacientes quando a situação exigir.
Se faz extremamente importante a qualificação dos profissionais da saúde e em particular do obstetra, para um atendimento de qualidade desde o início da gestação até o parto e puerpério.
A prevenção e detecção e controle precoces de intercorrências na gestação são ações fundamentais na redução dos riscos maternos e fetais.
Autora: Leidiaine Neris Arêdes – @leidineris
Referências:
FEBRASGO. Femina: Gestação de alto risco. Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia Volume 47, Número 6, 2019. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/media/k2/attachments/Vol.Z47ZnZ6Z-Z 2019.pdf
Sheila Sediciais. Gravidez de risco: o que é, sintomas, causas e como evitar complicações. Portal Tua Saúde, 2021.Disponivel em: https://www.tuasaude.com/gravidez-de-risco/
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Gestação de alto risco: manual técnico / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – 5. ed. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2012. 302 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_tecnico_gestacao_alto_risco.pdf
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres / Ministério da Saúde, Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa – Brasília: Ministério
da Saúde, 2016. 230 p. : il. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf
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