As doenças infecciosas e parasitárias têm grande importância para a saúde pública no Brasil, por estarem diretamente associadas aos determinantes de risco como pobreza e falta de saneamento básico.
Nas últimas décadas, houve uma mudanças nos padrões de morbimortalidade em todo o globo, graças a ampliação da cobertura do saneamento, a melhoria das condições habitacionais e a introdução de novas tecnologias de saúde, particularmente vacinas e antibióticos, foram decisivas para o rápido declínio da magnitude das doenças infecciosa.
No entanto, algumas doenças infecciosas se comportam como endêmicas no Brasil, sendo importantes causas de morbimortalidade no país. Aqui falaremos sobre 5 doenças infecciosas com importância epidemiológica no Brasil: tuberculose, Doença de Chagas, HIV, arboviroses e pneumonias.
Doenças infecciosas: Tuberculose
A tuberculose (TB) é uma doença infecto-contagiosa, crônica, granulomatosa e necrosante causada principalmente pelo bacilo álcool-ácido-resistente (BAAR), o Mycobacterium tuberculosis.
Os pulmões são o principal local de manifestação da tuberculose (TB). As complicações pulmonares da TB podem incluir hemoptise, pneumotórax, bronquiectasia, destruição pulmonar extensa, malignidade e aspergilose pulmonar crônica.
A OMS relatou que o Brasil se encontra entre os 22 países onde a carga de tuberculose é alta, e, portanto, o foco é reduzir a incidência de tuberculose no país. Pessoas vivendo com HIV, em situações de rua e privadas de liberdade, população indígena, pessoas vivendo em aglomerados ou em situação de pobreza são as mais acometidas pela doença no país.
Doença de Chagas
A Doença de Chagas é uma antropozoonose causada pelo Trypanosoma cruzi, protozoário flagelado que pode causar doença aguda ou crônica com reativação em função de condições de imunodepressão.
Na sua forma clássica, a infecção chagásica é adquirida pelo homem por meio de triatomíneos hematófagos (transmissão vetorial), dos quais se conhecem até hoje mais de 140 espécies. A espécie mais importante na transmissão no Brasil, o Triatoma infestans. O ciclo biológico desse protozoário é descrito na imagem abaixo:
A evolução natural na maioria das vezes ocorre na forma indeterminada, onde a fase aguda é assintomática e 10 a 20 anos após evolui para para as formas crônicas cardíaca, digestiva ou mista ocorre, em geral, de maneira insidiosa.
A forma cardíaca é a mais importante da DC do ponto de vista clínico, pois o comprometimento do coração pode levar a alterações do ritmo, a fenômenos tromboembólicos, a insuficiência cardíaca congestiva ou a morte súbita.
Outras complicações crônicas da doença de chagas inclui alterações gastrointestinais. No esôfago, há hipercontratilidade e aumento do tônus muscular e, frequentemente, ocorre falha no relaxamento do esfíncter com a deglutição. No intestino grosso, há motilidade colônica basal anormal e relaxamento prejudicado do esfíncter anal causam o conhecido megacólon chagásico.
Doenças infecciosas: Arboviroses
As arboviroses são transmitidas aos seres humanos pela picada de artrópodes hematófagos. São mantidos em ciclo de transmissão entre artrópodes (vetores) e reservatórios vertebrados como principais hospedeiros amplificadores. Os principais vírus dessa classe são os causadores da dengue, febre amarela, zika e chikungunya.
As arboviroses têm se tornado importantes e constantes ameaças em regiões tropicais, por isso o Brasil tem elevada prevalência de casos.
As manifestações clínicas das arboviroses em seres humanos podem variar desde doença febril (DF) indiferenciada, moderada ou grave, erupções cutâneas e artralgia. Formas graves das doenças geralmente há envolvimento neurológico, como mielite, meningite e/ou encefalite, e síndrome hemorrágica, evidenciada pelas petéquias, hemorragia e choque. A DF geralmente se apresenta com sintomas de gripe, como febre, cefaleia, dor retro-orbital e mialgia.
HIV
O Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) é um retrovírus do gênero Lentivírus e possui muitas das características físico-químicas da família Retroviridae. Este vírus é transmitido pelas vias sexual, parenteral ou vertical. Possui várias proteínas de adesão e invasão a células humanas, com tropismo por células do sistema imune, incluindo células dendríticas, macrófagos e células T CD4 +.
Desde o início da década de 80, no século XX, a identificação do HIV/Aids, constitui um desafio para a comunidade científica global, pois é considerado um problema de saúde pública. No mundo, o número de casos de AIDS registrados até 2007 foi de 33,2 milhões(5) e a projeção para 2030 é de que a AIDS seja a terceira causa de mortes. No Brasil, no período de 1980 a junho de 2007, foram notificados 474.273 casos de AIDS.
O HIV-2 é endêmico na África Ocidental, já o HIV-1 possui ampla distribuição mundial, sendo responsável pela pandemia hoje registrada.
A infecção aguda pelo HIV pode se apresentar como um tipo de síndrome de mononucleose com uma constelação de sintomas inespecíficos. Mas a grande preocupação em relação a essa doença está na manifestação clínica avançada, conhecida como síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS – acquired immunodeficiency syndrome).
A AIDS representa um dos maiores problemas de saúde da atualidade em virtude de seu caráter pandêmico e grave. A sua principal característica é a supressão profunda da imunidade mediada por células T, que torna o indivíduo suscetível às infecções oportunistas, neoplasias secundárias e doenças neurológicas que, se não forem combatidas, levam inevitavelmente ao óbito.
O uso da terapia antirretroviral combinada (TARV – também denominada de terapia antirretroviral potente), a partir da introdução dos inibidores de protease (IP) em 1996, tem proporcionado a supressão sustentada da carga viral e a reconstituição imunológica, diminuindo a morbidade e a mortalidade e, como consequência, o aumento da expectativa de vida dos indivíduos infectados pelo HIV.
No Brasil, cerca de 170 mil pessoas utilizam a TARV, que é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS); no período de 1996 a 2005, houve a redução da mortalidade (40 a 70%) e morbidade (60 a 80%), evitando-se 90 mil óbitos no país.
Esquistossomose
A esquistossomose mansônica é uma enfermidade parasitária ocasionada por um trematódeo (Schistossoma mansoni) que vive na corrente sanguínea do hospedeiro definitivo, o homem. As suas formas variam quanto à evolução clínica de maneira assintomática até agudamente grave.
Em todo o mundo, estima-se que mais de 200 milhões de pessoas estejam infectadas com considerável morbimortalidade. A S. mansoni ocorre na parte ocidental da América do Sul (principalmente no Brasil), na maior parte da África subsaariana, e em algumas ilhas do sul do Caribe.
A esquistossomose é classificada pela OMS como doença negligenciada pelas autoridades, àquelas ligadas à ausência de políticas como tratamento de água e saneamento básico e a falta de educação da população. As regiões norte e nordeste do Brasil são as que mais sofrem, guardando relação direta com o índice de desenvolvimento humano (IDH) muito baixo que apresentam.
A infecção aguda pode se manifestar com “coceira de nadador” e/ou síndrome da esquistossomose aguda (síndrome de Katayama), uma reação de hipersensibilidade sistêmica a antígenos de esquistossomose e complexos imunes circulantes.
As manifestações de infecção crônica são geralmente observadas em indivíduos com exposição contínua em regiões endêmicas. A doença é causada pela resposta imune do hospedeiro à migração de ovos.
No intestino, a inflamação pode resultar em ulceração, perda de sangue e cicatrizes. No fígado, a fibrose periportal pode causar hipertensão portal e subsequentes varizes esofágicas. Na bexiga, a inflamação granulomatosa pode resultar no desenvolvimento de pseudopólipos e / ou obstrução do trato urinário levando à insuficiência renal.
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Referências:
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- Waldman EA e Sato APS. Trajetória das doenças infecciosas no Brasil. Rev Saúde Pública 2016;50:68.