Queimaduras são lesões traumáticas na pele ou outros órgãos causada por trauma térmico, químico, elétrico, radioativo e atrito. Causa desnaturação de proteínas dos tecidos e leva a uma alteração do tegumento até a destruição total dos tecidos envolvidos.
Causas das queimaduras
● Térmicas: causadas por gases, líquidos ou sólidos quentes, revelam-se as queimaduras mais comuns.
● Químicas: causadas por ácidos ou álcalis, podem ser graves; necessitam de um correto atendimento pré-hospitalar, pois o manejo inadequado pode agravar as lesões.
● Por eletricidade: geralmente as lesões internas, no trajeto da corrente elétrica através do organismo, são extensas, enquanto as lesões das áreas de entrada e saída da corrente elétrica na superfície cutânea, pequenas. Essa particularidade pode levar a erros na avaliação da queimadura, que costuma ser grave.
Epidemiologia
- A maior incidência de acidentes ocorrem em domicílio;
- Gênero masculino mais acometido;
- Membros superiores mais afetados.
Fisiopatologia das queimaduras
Alterações Locais
A pele, que é o maior órgão do corpo humano, fornece uma forte barreira à transferência de energia para os tecidos mais profundos, mantendo, assim, grande parte da lesão nessa camada. Uma vez removido o foco causador da queimadura, no entanto, a resposta dos tecidos locais pode levar à lesão nas camadas mais profundas. A área de lesão cutânea ou superficial foi dividida em três zonas – zona de coagulação, zona de estase e zona de hiperemia.
● Zona de coagulação: Esse tecido é danificado irreversivelmente no momento em que ocorre a lesão. É onde as células foram destruídas.
● Zona de estase: adjacente à zona necrótica, tem um grau de lesão moderado, com perfusão tissular reduzida. Dependendo das condições da ferida, pode sobreviver ou evoluir para necrose de coagulação. A zona de estase está associada a dano vascular com extravasamento de fluidos.
● Zona de hiperemia: caracterizada pela vasodilatação em razão da inflamação circunjacente à queimadura. Essa região contém o tecido claramente viável do qual se inicia o processo de cicatrização e, geralmente, não tem risco de necrose adicional.
Alterações Sistêmicas
Queimaduras graves normalmente são seguidas por um período de estresse, inflamação e hipermetabolismo, caracterizados por uma resposta circulatória hiperdinâmica com aumento da temperatura corporal, glicólise, proteólise, lipólise e ciclo de substrato.
Resposta Hipermetabólica
Acredita-se que os acentuados e sustentados aumentos na secreção de catecolaminas, glicocorticóides, glucagon e dopamina iniciam a cascata de eventos que levam à resposta hipermetabólica aguda, com seu consequente estado catabólico. A causa dessa resposta complexa não é bem compreendida.
No entanto, interleucina-1 e 6, fator de ativação plaquetária, fator de necrose tumoral, endotoxinas, complexos de adesão de neutrófilos, radicais livres, óxido nítrico, coagulação e cascata do complemento foram também implicados na regulação da resposta metabólica à queimadura. Uma vez que as cascatas são iniciadas, seus mediadores e subprodutos parecem estimular a taxa metabólica aumentada e persistente associada ao metabolismo alterado de glicose visto após a queimadura grave.
Classificação e tratamento de queimaduras
Quanto à Profundidade
Primeiro grau (espessura superficial)
Queimaduras que atingem apenas a epiderme. Causas mais comuns: exposição à luz solar e rápida exposição à água quente. Apresenta vermelhidão, dor, edema e descama em 4 a 6 dias (5 a 10 dias) não deixando cicatrizes residuais. A dor se resolve em 48 – 72 horas
- Tratamento:
- Colocar em água corrente em temperatura ambiente – Se a queimadura for imersa em água fria nos primeiros um a dois minutos é possível que a área e a profundidade da lesão sejam reduzidas. Isto ocorre devido a mecanismos como redução da liberação de histamina e supressão da produção de tromboxano. O uso de água gelada ou gelo não é recomendado uma vez que podem causar vasoconstrição e contribuir para a evolução da queimadura.
- Remédio para alívio da dor: paracetamol, ibuprofeno e ácido acetilsalicílico.
- Lidocaína ou gel com aloe vera para acalmar a pele.
- Hidratação
Segundo grau (espessura parcial)
Queimaduras que atingem a epiderme e a derme, produzindo dor severa. A pele se apresenta avermelhada e com bolhas; as lesões que atingem a derme mais profunda revelam-se úmidas.
- Tratamento:
- Água corrente por 30 min
- Parte queimada se possível colocar pra cima
- Polimixina, sulfadiazina de prata a 1% ou bacitracina associada a neomicina podem ser aplicadas no local da queimadura com uma camada de gaze vaselinada não aderente estéril. Acima é aplicada uma gaze absorvente que serve para reter o exsudato.
- Evitar contato com o sol
- As gazes geralmente são trocadas uma ou duas vezes ao dia e a ferida deve ser lavada suavemente com sabonete antibacteriano.
- Analgesia para dor – ibuprofeno.
Terceiro grau (espessura total)
Atingem toda a espessura da pele e chegam ao tecido subcutâneo. As lesões são secas, de cor esbranquiçada, com aspecto de couro, ou então pretas, de aspecto carbonizado. Geralmente não são dolorosas, porque destroem as terminações nervosas; as áreas nos bordos das lesões de terceiro grau podem apresentar queimaduras menos profundas, de segundo grau, portanto bastante dolorosas.
Quarto grau
Podem envolver danos no tecido muscular sob o tecido subcutâneo.
- Tratamento 3º e 4º grau:
- Administração de profilaxia de tétano, úlcera do estresse e de heparina
- Limpeza com água e sabão ou clorexidina
- Sulfadiazina de prata
- Desbridamento
- Escarotomia (quando há comprometimento do retorno venoso)

Classificação da lesão pela extensão:


Atendimento ao queimado
Sempre considerar o grande queimado como politraumatizado. O atendimento à vítima deve seguir a sequência:
- Extinguir as chamas sobre a vítima ou suas roupas;
- Remover a vítima do ambiente hostil;
- Remover roupas que não estejam aderidas a seu corpo;
- Promover o resfriamento da lesão e de fragmentos de roupas ou substâncias, como asfalto, aderidos ao corpo do queimado.
Após interromper o processo de queimadura, proceder ao atendimento segundo o A-B-C-D-E.
Etapa A
A extensão e gravidade da queimadura das vias aéreas podem ser subestimadas na avaliação inicial, porque a obstrução das vias aéreas não se manifesta no momento, mas se desenvolve gradualmente à medida que aumenta o edema dos tecidos lesados. As vítimas podem necessitar de intubação orotraqueal
Sinais de alerta:
- Queimaduras faciais;
- Queimadura das sobrancelhas e vibrissas nasais;
- Depósito de fuligem na orofaringe;
- Faringe avermelhada e edemaciada
Etapa b
Outras lesões potencialmente graves são as causadas por inalação de fumaça e a intoxicação por monóxido de carbono. O tratamento consiste na administração de oxigênio na maior concentração possível.
Etapa C
O grande queimado perde fluidos através das áreas queimadas, devido à formação de edema. Isso pode levar a choque hipovolêmico (não-hemorrágico), que se desenvolve gradualmente. Os queimados graves necessitam de reposição de fluidos intravenosos, feita de acordo com o cálculo da extensão da queimadura.
Cálculo da Hidratação
Fórmula de Parkland = 2 a 4 (ml) x % SCQ x peso (kg)
SCQ = Superfície corporal queimada – 50% nas primeiras 8 horas
E os 50% restante nas próximas 16 horas
Etapa D
Não se esquecer de que alterações da consciência podem ser devidas à hipóxia ou à intoxicação por monóxido de carbono, além, é claro, de lesões associadas.
Etapa E
Retirar anéis, pulseiras, relógios ou quaisquer outros objetos da região atingida, porque o desenvolvimento do edema traz risco de estrangulamento do membro e consequente isquemia.
Internação
- Queimaduras de 2º grau em áreas > 20% SCQ em adultos Queimaduras de 2º grau >10% SCQ, em crianças ou maiores de 50 anos.
- Espessura parcial >10% SQC
- Face, mãos, pés, genitália, períneo, articulações
- Qualquer queimadura de espessura total (3 grau)
- Queimaduras elétricas/químicas
- Lesão inalatória
- Pacientes com comorbidades/crianças
- Trauma associado
- Intervenção social e reabilitação de longo prazo
Autores, revisores e orientadores
Autor: Ana Beatriz Zorek Soster
Co-autor: Lauren Gotze Correa Lopes
Revisor: Luiz Carlos Leite Júnior
Orientadores: Chiara Kerolaine Beletato e Sarah Beatriz Obadovski Alves
Instagram: @latemintegrado
O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
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Referência
SABISTON. Tratado de cirurgia: A base biológica da prática cirúrgica moderna. 19.ed. Saunders. Elsevier, 2015.
PHTLS Atendimento Pré-hospitalizado ao Traumatizado. 8ª ed. Jones & Bartlett Learning, 2017.