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Resumo: Metabolismo do álcool | Ligas

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Acredita-se que a bebida alcoólica surgiu na Pré-História, durante o período Neolítico com o florescer da agricultura e a invenção da cerâmica. A partir de um processo de fermentação natural ocorrido há aproximadamente 10.000 anos o ser humano passou a consumir e a atribuir diferentes significados ao uso do álcool.

A ingestão de etanol em quantidades moderadas geralmente não é prejudicial mas em quantidades excessivas, o álcool causa sérios danos físicos e psicológicos. Neste resumo, veremos as principais etapas do metabolismo do álcool e as consequências na saúde associadas ao abuso de álcool.

Dados epidemiológicos

De acordo com o primeiro levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na População brasileira, 52% dos brasileiros acima de 18 anos bebem (pelo menos 1 vez ao ano). Entre os homens são 65% e entre as mulheres 41%. No grupo dos Adultos que bebem, 60% dos homens e 33% das mulheres consumiram 5 doses ou mais na vez em que mais beberam no último ano. Do conjunto dos homens adultos, 11% bebem todos os dias e 28% consomem bebida alcoólica de 1 a 4 vezes por semana.

Vale destacar ainda, uma pesquisa realizada pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas com jovens dos ensinos médio e fundamental a qual demonstrou o uso de álcool pelo menos uma vez na vida por 65,2% dos entrevistados e com média de idade de 12,5 anos para o primeiro consumo.

Ingestão do álcool

Após o consumo, o etanol é absorvido sem alteração pelo estômago (30%) e pelo intestino delgado (cerca de 65% no duodeno imediatamente após a sua passagem pelo piloro, e o restante no cólon ).

A velocidade de absorção no estômago vai depender do tipo de bebida, da concentração de etanol, do pH do meio e do estado de repleção do estômago. Já no intestino delgado a absorção é extremamente rápida, completa e independe da concentração de etanol ou da presença de alimentos.

Nos indivíduos em jejum a absorção faz-se em 15-20 minutos. E essa velocidade ainda pode aumentar se a bebida tiver uma alta concentração etílica ou se é gaseificada ou quente, pois esses fatores contribuem para a maior dilatação dos capilares gástricos favorecendo assim a absorção.

Menos de 10% do volume ingerido é eliminado sem alteração pela urina, suor e na respiração. Uma ralação importante é sobre a quantidade de álcool expirada é proporcional ao nível sanguíneo, sendo assim a base do teste do “bafômetro”. Os 90% restantes são metabolizados a nível do fígado, quase na sua totalidade, no hepatócito  

Metabolismo do álcool

O álcool (etanol) é uma pequena molécula, solúvel em água e em lipídios sendo desintoxicado e eliminado através de uma série de reações oxidativas em que a primeira é catalisada por uma enzima, a Álcooldesidrogenase (ADH). Quando o indivíduo já é um alcoólico crônico ou bebe excessivamente a atividade do ADH é suprimida, esse bloqueio trás a tona duas outras vias, “vias de recurso”: a via do Sistema Mitocondrial de oxidação do etanol (MEOS) e a da catalase.

  • Reação oxidativa mediada pelo ADH:

Pode ser dividida em duas fases. A primeira fase ocorre ainda no citoplasma, iniciada pela enzima alcooldesidrogenase (ADH) que converte o etanol em acetaldeído. Em uma segunda fase, agora na mitocôndria, a enzima aldeído desidrogenase (ALDH) converte o aldeído em ácido acético (acetato), que é finalmente convertido em dióxido de carbono e água, liberando energia.

É importante observar que, o consumo de etanol leva ao acúmulo de NADH. Essa alta concentração de NADH, inibe a gliconeogênese, pois impede a oxidação do lactato a piruvato. Com efeito, as altas concentrações de NADH determinarão o predomínio da reação inversa, com acúmulo de lactato.  As consequências podem ser hipoglicemia e acidose láctica.

A fartura de NADH também inibe a oxidação de ácidos graxos. O propósito metabólico da oxidação de ácidos graxos é gerar NADH para a produção de ATP pela fosforilação oxidativa, porém as necessidades de NADH do indivíduo que consome álcool são supridas pelo metabolismo do etanol.

Dessa forma, o excesso de NADH sinaliza que as condições estão corretas para a síntese de ácidos graxos. Como consequência, há acúmulo de triacilgliceróis no fígado, o que causa uma condição conhecida como “fígado gorduroso” ou esteatose hepática, que é exacerbada nos indivíduos obesos.

Importante lembrar que os efeitos bioquímicos do consumo de etanol podem ser muito rápidos. Por exemplo, a gordura acumula-se no fígado dentro de poucos dias de consumo moderado de álcool. Esse acúmulo é reversível com a diminuição do consumo de álcool.

  • Sistema Mitocondrial de Oxidação do Etanol (MEOS)

Nesse mecanismo oxidativo, a hemeproteína citocromo P-450 que atua no reticulo endoplasmático liso é quem irá converter o etanol em acetaldeído.

Vale destacar que há consumo de NADPH e O2 (podendo levar o indivíduo alcoolista crônico à hipóxia) e produção de H2O e radicais livres (devido ao grande uso de NADPH, envolvido na retenção de radicais livres no organismo).

Relembrando que essa vai atua no alcoolismo crônico sendo responsável pelo aumento da degradação do etanol nestas condições o que irá provocar o aumento da concentração de acetaldeído e acetato na corrente sanguínea.

As mitocôndrias hepáticas podem converter o acetato em acetil-CoA, em uma reação que necessita de ATP.

Acetato + coenzima A + ATP → acetil-CoA + AMP + PPi

PPi → 2 Pi

Entretanto, o processamento posterior da acetil-CoA pelo ciclo do ácido cítrico é bloqueado, visto que o NADH inibe duas enzimas reguladoras importantes do ciclo do ácido cítrico.

Esse acúmulo de acetil-CoA tem várias consequências:

  • Primeiro, haverá formação de corpos cetônicos, que são liberados no sangue, agravando a acidose já decorrente das altas concentrações de lactato.
    • O processamento do acetato no fígado torna-se ineficiente, acumulando assim acetaldeído. Esse composto muito reativo forma ligações covalentes com muitos grupos funcionais importantes nas proteínas, comprometendo a suas funções
    • Se o etanol for consistentemente consumido em altos níveis, o acetaldeído pode lesionar o fígado de modo significativo, provocando morte celular.

Importante destacar que, além de oxidar o etanol, a citocromo P-450 inativa também uma série de medicamentos como analgésicos (paracetamol), barbitúricos, etc. O consumo de etanol aumenta a concentração da citocromo P-450 que é responsável pela metabolização no fígado de diversos antibióticos. Isso aumenta a resistência de alcoólatras a alguns medicamentos em abstinência.

No entanto, os efeitos tóxicos são maiores para os usuários crônicos de álcool. Certos medicamentos como: metronidazol (antiprotozoário), penicilina (ampicilina) e vários antibióticos algumas cefalosporinas, entre elas a cefalexina, a cefadroxila e a cefradina são capazes de promover efeito “antabuse” (desconforto abdominal, rubor, vômitos e cefaléia).

  • Catalase

A catalase, nos peroxissomos utiliza o peróxido de hidrogênio como um substrato, é de menor importância, metabolizando não mais do que 5% do etanol no fígado.

Problemas decorrentes do uso do álcool

Os efeitos adversos do etanol podem ser classificados em agudos e crônicos:

  • O alcoolismo agudo exerce seus efeitos principalmente no SNC. No SNC, o álcool é depressivo, afetando primeiro as estruturas subcorticais que modulam a atividade cortical cerebral. Consequentemente, há estimulação cortical promovendo atividade motora e comportamento intelectual desordenados. Com níveis sanguíneos progressivamente mais altos, os neurônios corticais e depois os centros medulares inferiores são deprimidos, incluindo os que regulam a respiração. Pode ocorrer parada respiratória.
  • O alcoolismo crônico afeta não somente o fígado e o estômago, mas virtualmente todos os outros órgãos e tecidos também. Os alcoólatras crônicos sofrem de morbidade significativa e têm uma duração de vida mais curta, relacionada principalmente ao dano no fígado, trato gastrointestinal, SNC, sistema cardiovascular e pâncreas.

No fígado, frutos diretos do próprio metabolismo do álcool existem as lesões hepáticas causada pelo consumo excessivo de etanol. Esses danos hepáticos ocorrem em três estágios:

  • Primeiro estágio – Esteatose hepática: Dentro de poucos dias após a administração de álcool a gordura aparece dentro das células hepáticas, representa principalmente aumento na síntese de triglicerídios em virtude do maior fornecimento de ácidos graxos ao fígado, menor oxidação dos ácidos graxos, e menor formação e liberação de lipoproteínas. Ela pode surgir sem evidências clínicas ou bioquímicas de doença hepática.
    • Sintomas: anorexia, náuseas, distenção abdominal, hepatomegalia hipersensível, às vezes icterícia e níveis elevados de aminotransferase.
  • Segundo estágio – Hepatite alcoólica: Caracteriza-se principalmente por necrose aguda das células hepáticas. Em alguns pacientes, apesar da abstinência , a hepatite persiste e progride para cirrose. Ela representa a perda relativamente brusca de reserva hepática e pode desencadear um quadro de insuficiência hepática.
  • Terceiro estágio – Cirrose: são produzidas estruturas fibrosas e tecido cicatricial ao redor das células mortas. A cirrose compromete muitas das funções bioquímicas do fígado. O fígado cirrótico é capaz de converter a amônia em ureia, e ocorre elevação dos níveis sanguíneos de amônia, a qual é tóxica para o sistema nervoso e pode causar coma e morte. A cirrose hepática surge em cerca de 25% dos alcoólicos, e cerca de 75% de todos os casos de cirrose hepática resultam do alcoolismo.

Os efeitos adversos do etanol não se limitam a seu próprio metabolismo. A vitamina A (retinol) é convertida em ácido retinoico, uma importante molécula sinalizadora para o crescimento e o desenvolvimento dos vertebrados, pelas mesmas desidrogenases que metabolizam o etanol. Em consequência, essa ativação não ocorre na presença de etanol, que atua como inibidor competitivo.

Acredita-se que essas perturbações na via de sinalização do ácido retinoico sejam responsáveis, pelo menos em parte, pela síndrome alcoólica fetal – a qual é marcada por microcefalia, retardo no crescimento, anormalidades faciais no recém-nascido, e redução das funções mentais à medida que acriança cresce – bem como pelo desenvolvimento de uma variedade de tipos de câncer.

Recordando…

A oxidação do etanol resulta em uma superprodução desregulada de NADH, que tem várias consequências. A elevação nos níveis de ácido láctico e de corpos cetônicos provoca queda do pH sanguíneo ou acidose. Ocorre lesão hepática, visto que o excesso de NADH causa a formação de lipídios em excesso, bem como a geração de acetaldeído, uma molécula reativa. Como consequência, pode ocorrer lesão hepática grave.

Autores, revisores e orientadores:

Autor(a) : Brenno Laerth Neves Santana

Revisor(a): Amanda Valuá da Silva Araújo

Orientador(a): Bruna Mirelly Simões Vieira – @brunamirellysimoes

O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

STRYER, L.; TYMOCZKO, J. L.; BERG, J. M. Bioquímica. 7° Edição – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. Acesso em 28 de Fevereiro 2021. https://drive.google.com/file/d/1GohWJUh8NFXYmzZZx5nmhDgdrNAcOw05/view?usp=drivesdk

ABBAS, A.K.; KUMAR, V.; MITCHELL, R.N. Fundamentos de Patologia – Robbins & Cotran – 8ª ed., Elsevier/Medicina Nacionais, Rio de Janeiro, 2012. Acesso em 28 de Fevereiro 2021.

GUSSO, Gustavo D. F., LOPES, Jose M. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Princípios, Formação e Pratica. Porto Alegre: ARTMED, 2012, 2222p. Acesso em 28 de Fevereiro 2021.

VIERA, J. Metabolismo do etanol. Tese (Mestre em Ciências Farmacêuticas) – Universidade Fernando Pessoa, Faculdade Ciências da Saúde. Porto, p. 70. 2012. Acesso em 28 de Fevereiro 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional Antidrogas. I Levantamento Nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. 200. 7Acesso em 28 de Fevereiro 2021.


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