O
envelhecimento da população é uma realidade em diversos países, incluindo o
Brasil. Com a tendência de uma população idosa crescente, é necessário que
você, estudante de medicina, médico ou outro profissional da saúde esteja por
dentro de todas as particularidades que envolvem esse tipo de paciente.
O
paciente idoso tem suas peculiaridades, com características do envelhecimento
associadas a apresentações atípicas de doenças, assim como quadros e síndromes
mais típicos da idade avançada. Dentre as condições clínicas que mais afetam a
vida do idoso, a ocorrência de quedas com lesões está entre as mais importantes,
e é importante que você saiba identificar os fatores de risco que podem levar
um idoso a cair, bem como ter uma noção do que fazer para prevenir esses
eventos.
1.Fatores
de Risco
É
difícil identificar uma causa única que explique a maior incidência de quedas
em idosos, a maioria dos estudos da área indicam que múltiplos fatores ocorrem
em conjunto. Conhecer esses fatores e sua prevalência no idoso é extremamente
importante para um bom manejo desse paciente. Esses fatores podem ser divididos
em fatores “internos” (associados a doenças e consequências do envelhecimento)
e fatores externos (como riscos ambientais).
1.1Fatores
Internos
Um dos
pontos mais relevantes para discussão dentro da geriatria está na
funcionalidade do indivíduo idoso, isto é, a capacidade de o mesmo realizar
tarefas do seu dia a dia, desde as mais básicas como se transferir de uma cama
para uma cadeira, até mais avançadas, como usar um telefone ou pagar suas
contas. Justamente por isso o declínio
funcional e cognitivo presente em certos idosos está altamente relacionado
com altos riscos de quedas.
Idosos
que por condição de doença ou outras limitações não conseguem realizar suas
atividades diárias de maneira independente estão mais propensos a cair e sofrer
severas lesões quando comparados a idosos com maior capacidade funcional e
estado de saúde geral. É importante entender o nível de funcionalidade do idoso
que você estará atendendo, pois é preciso saber se ele corre risco de cair
realizando tarefas comuns do dia a dia, como se locomover dentro de casa ou alcançar
objetos.
Outro elemento importante presente em muitos idosos é a alta prevalência de doenças crônicas como Hipertensão Arterial Sistêmica, Diabetes Mellitus e demências. A presença de doenças crônicas está relacionada a uma alta prevalência de quedas em idosos, por contribuir para o comprometimento de sua funcionalidade, afetar seus órgãos de sentidos e até mesmo contribuir para um prejuízo cognitivo. Desse modo, conhecer a epidemiologia dessas doenças e sua alta prevalência em idosos é extremamente importante para a abordagem desse paciente.
Em
consequência da presença de muitas doenças crônicas em pacientes idosos, muitas
vezes concomitantes, é muito comum que alguns idosos sejam submetidos ao uso indiscriminado de múltiplas medicações
por indicações de médicos diferentes, o que também contribui para o aumento da
incidência de quedas. É preciso ter uma boa compreensão da fisiologia do
envelhecimento para saber que as características de farmacodinâmica e farmacocinética
dos medicamentos usados por esses pacientes são diferentes dos adultos de
outras faixas etárias devido a alterações fisiológicas do organismo dos idosos,
como alterações no nível de gordura corporal. Esse fator contribui para alterar
a biodisponibilidade de medicamentos, tornando os idosos mais susceptíveis a
interações farmacológicas indesejáveis e a efeitos adversos dos fármacos. Uma
atenção especial deve ser voltada para o uso de fármacos psicotrópicos, como benzodiazepínicos,
hipnóticos e anticonvulsivantes, pois esses estão mais associados a eventos de
quedas, embora qualquer medicamento possa aumentar esse risco por conta dos
fatores já citados.
1.2Fatores
Externos
Os
fatores externos a uma queda também devem ser compreendidos para saber a que
riscos situacionais os idosos se submetem que podem levar a um evento de queda.
Esses fatores incluem riscos ambientais,
como pisos escorregadios, tapetes, escadas e outros elementos de propensão a
queda, assim como as atividades diárias
ao qual o idoso estava se submetendo no momento que precedeu a queda e os
movimentos que levaram um idoso a cair, como se levantar, virar de um lado para
o outro rapidamente, esticar-se para alcançar objetos e outros. É extremamente
importante conhecer esses elementos para se pensar numa melhor maneira de
prevenir a ocorrência de novas quedas.
2.Doenças
Associadas
Como
supracitado, a ocorrência de múltiplas doenças em pacientes idosos é um
elemento crucial para ocorrência de quedas e existem doenças específicas que
costumam estar mais associadas a um maior risco de o paciente cair. Saber
identificar quais são as doenças que mais propiciam ao risco de quedas é algo
que você precisa saber para ter em mente quais pacientesnecessitam de uma
possível intervenção para preveni-las, mesmo que ele não o procure por esse
motivo.
As demências em geral são doenças que cursam
com comprometimento progressivo das funções cognitivas do paciente,
comprometendo severamente sua capacidade de julgamento de raciocínio e o deixando
mais propenso a cair. Já adoença de
Parkinson também está relacionada a um aumento da incidência de quedas, por
conta da sua história natural que evolui com grave comprometimento da marcha
dos pacientes, contribuindo para eventuais quedas em decorrência dessas
dificuldades.
Outras
doenças que aumentam o risco de quedas sãoasneuropatias periféricas e outros déficits motores e sensoriais que
podem propiciar um evento de queda, assim como a epilepsia, que tem prevalência aumentada com a idade,que pode gerar
quadros agudos de perda de consciência. A espondilose
cervical, que cursa com degeneração dos ossos do pescoço e compressão dos
discos vertebrais, também pode causar alterações sensoriais que aumentam o
risco do idoso cair.
3.Manejo
do Paciente
Para
saber como melhor abordar o paciente idoso que sofreu uma queda ou está em
situação de risco é preciso saber que o elemento mais importante da sua
avaliação será a história clínica, e
que ela o ajudara a identificar os riscos desse paciente irá servir como base
para medidas de prevenção. Mesmo em
contextos mais urgentes, como em uma admissão em serviço de emergência,é preciso
ter em mente que além do manejo e abordagem das eventuais lesões que levaram o
paciente a procurar o serviço também é necessário fazer uma abordagem completa
do seu passado clínico. Isso contribui para que se possa interpretar a sua história
anterior à queda, assim como entender os riscos desse paciente sofrer novos
eventos. É extremamente importante que você médico, outro profissional da saúde
ou estudante de medicina, saiba reconhecer esses elementos. Idosos que sofrem
um evento de queda possuem um risco muito elevado de cair novamente, assim como
um risco maior de desenvolver complicações, como medo de novas quedas, lesões
potencialmente fatais e até mesmo o óbito.
3.1História
Clínica
Um
elemento muito importante na construção da história clínica de qualquer
paciente idoso é saber se ele possui histórico
de queda recente, mais especificamente, histórico de queda no último ano
anterior a consulta. Fazer essa pergunta é importante, pois quedas possuem uma
alta taxa de recorrência, e o fato do seu paciente já ter caído antes é um
forte sinal de alerta, que ressalta a necessidade de que ele seja abordado de
maneira mais completa e conduzido para medidas de prevenção. Da mesma maneira,
é importante que seja investigado o histórico
de lesões desse paciente, em específico uma atenção especial para fraturas
ósseas, visto que essa é a lesão mais prevalente em idosos que caem. Pacientes
com histórico de fratura tem uma tendência de cair novamente e se envolver em
eventos de queda potencialmente mais graves.
Outro
ponto crucial na sua avaliação do paciente deve ser observar todos os possíveis
elementos que comprometem sua
funcionalidade no seu dia a dia. Procure observar se o paciente possui
alguma deformidade física nos pés, se ele possui alguma doença crônica que
limite sua mobilidade, esteja atento a sua marcha e pergunte por eventos, como
síncopes, quedas anteriores e internações, esteja especialmente atento ao uso
de múltiplas medicações e procure avaliar se o seu paciente consegue realizar
suas atividades cotidianas. A dificuldade de execução de tarefas simples, como
deambular pela própria casa é outro sinal de alerta importante na história
clínica desse paciente.
3.2Medidas
de Prevenção
Já
existe embasamento científico que comprova a eficácia da prática de exercícios físicos na terceira idade,
mesmo para aqueles que possuem quadro de fraqueza física e fragilidade. A
prática regular de exercícios físicos direcionados para os idosos ajuda a
fortalecer sua musculatura e a prevenir o risco de novas quedas, assim como
diminui as chances de ocorrerem lesões mais graves caso o idoso passe por um
evento de queda. É importante frisar que a abordagem do paciente idoso que cai,
ou está com risco de queda, deve ser multiprofissional, de forma que
modalidades como a fisioterapia ou a
terapia ocupacional também se mostraram benéficas na prevenção de quedas em
pacientes idosos.
A correção dos riscos ambientais,
quando possível, possui resultados benéficos para os idosos em risco. A
instalação de elementos, como barras de apoio e piso antiderrapante ajuda a
corrigir esses riscos ambientais e favorece a movimentação do idoso em seu
ambiente domiciliar.
Outra
intervenção extremamente importante é a otimização dos medicamentos do seu
paciente. Como já foi explicado, muitos idosos possuem múltiplas patologias e
muitas vezes estão em uso de muitas medicações simultaneamente, gerando um
quadro de “polifarmácia” que aumenta o risco de queda desses pacientes. Uma
maneira eficaz de intervir positivamente nesses casos é otimizar a receita do seu paciente, realizando ajustes de doses
inadequadas de medicamentos, em especial fármacos psicotrópicos, sendo também
necessário estar atento para possíveis interações medicamentosas indesejadas.
Seguindo essas orientações e estando atento a esses fatores de risco na avaliação do seu paciente, você será capaz de intervir de maneira benéfica, contribuindo para a prevenção de quedas e para a manutenção da saúde do idoso.