Definição
A Doença de Lyme é uma zoonose infecciosa causada por bactérias espiroquetas do complexo Borrelia burgdorferi que é transmitida via mordedura de carrapatos do gênero Ixodes e espécie Amblyomma cajennense (carrapato estrela) no Brasil. Pode acometer o homem, animais silvestres e domésticos.
No país, a doença
apresenta algumas diferenças na apresentação clínica e laboratorial daquela
encontrada nos Estados Unidos e Europa, e também pode ser denominada doença de
Lyme símile, Borreliose Humana Brasileira ou Síndrome de Baggio-Yoshinari.
Manifesta-se inicialmente
com alterações dermatológicas e pode evoluir com o acometimento de sistemas
nervoso central, cardiovascular, ocular e articulações.
É uma doença rara no
Brasil, mas possui importância epidemiológica, sendo necessária a notificação
compulsória e a investigação.
Epidemiologia
É uma zoonose frequente no hemisfério norte, sendo endêmica
nos Estados Unidos, Europa e Ásia. No Brasil, estados de São Paulo, Santa
Catarina, Rio Grande do Norte e Amazonas foram identificados casos isolados.
Fisiopatologia da doença de Lyme
As espiroquetas do complexo Borrelia
burgdorferi entram na pele
através da ferida causada pela mordida de carrapato. Ficando incubado de 3 a
32 dias, em média 7-14 dias, os microrganismos migram localmente na pele ao redor da mordida,
disseminam-se por todo o organismo por meio da linfa e do sangue. Com isso,
produzem adenopatia regional (ao atingir gânglios linfáticos) e as
demais manifestações que serão descritas, ao atingir os órgãos. Também podem atingir
outros locais de pele. Inicialmente, ocorre uma reação inflamatória (eritema
migratório) antes de uma resposta de anticorpos significativa à infecção
(conversão sorológica).
Quadro clínico da doença de Lyme
A manifestação clínica é caracterizada inicialmente pela presença de
eritema crônico migratório, lesão cutânea pequena, do tipo mácula ou pápula,
expansiva, podendo ser única ou múltipla e possuindo coloração avermelhada no
local em que o carrapato ficou aderido. Posteriormente, evolui com a expansão
do rubor, com característica anelar e quente. Também podem aparecer sintomas
compatíveis à uma gripe, como febre baixa, calafrios, mialgia, artralgia,
cefaleia, adenomegalia e elevação transitória de enzimas hepáticas. Os sinais e
sintomas podem durar várias semanas caso o tratamento não for instituído.
Em um estágio secundário, que ocorre
de dias ou meses após o contágio, podem surgir complicações neurológicas,
articulares e cardíacas. Entre as principais manifestações neurológicas estão
meningite, encefalite, coreia e neurite de pares cranianos, principalmente o
nervo facial. As complicações articulares apresentam-se com artrite de grandes
articulações, com crises intermitentes de edema e dor articular, assimétricos,
sendo mono ou oligoarticular. E as manifestações cardíacas, que ocorrem com
menor frequência, apresentam-se com bloqueio atrioventricular, miopericardite
aguda e disfunção ventricular esquerda.
Há alguns pacientes que após o
tratamento com antibióticos, podem apresentar a síndrome pós-doença de Lyme,
que é uma entidade um pouco controvertida, em que o paciente desenvolve
sintomas persistentes, com duração superior a seis meses, como mialgia,
artralgia, dor radicular, disestesias, sintomas neurocognitivos e intensa
fadiga.
Diagnóstico da doença de Lyme
A confirmação do diagnóstico da
Doença de Lyme é baseada em 3 fatores: (1) identificação de aspectos clínicos,
(2) epidemiológicos, com o relato de possível exposição ao carrapato e (3)
testes laboratoriais,
As técnicas sorológicas mais utilizadas para diagnóstico da
doença é o método Elisa e a imunofluorescência indireta. Títulos de
anticorpos na fase aguda (IgM) e na convalescença (IgG) com um intervalo de 2
semanas podem ser úteis, mas em geral, necessitam de confirmação por Western
blot. A reação em cadeia da polimerase (PCR) é empregada para detecção do DNA
da espiroqueta. O anticorpo possui reação cruzada com outras espiroquetas, como
Treponema pallidum. Entretanto, os pacientes com a Doença de Lyme não
apresentam resultado positivo no VDRL.
É importante salientar que os pacientes que recebem
tratamento precoce podem apresentar sorologia negativa. Dessa forma, a
interpretação dos testes deve ser realizada com cautela.
Deve-se lembrar de fazer
diagnóstico diferencial da Doença de Lyme com outras doenças como a meningite
asséptica, a mononucleose infecciosa, a febre reumática, a artrite reumatóide e
o lúpus eritematoso sistêmico.
Tratamento da doença de Lyme
O
tratamento de escolha para crianças é realizado com Amoxicilina, 50 mg/kg/dia,
em 3 doses diárias, durante 3 semanas; ou a Doxiciclina 4-8 mg/kg/dia em 2
doses diárias, em maiores de 8 anos; ou a Axetilcefuroxima 30mg/kg/dia em 2
doses diárias.
Recomenda-se nas manifestações neurológicas o uso da Penicilina, 20 milhões UI/dia, fracionadas em 6 doses endovenosas diárias, ou Ceftriaxona, 2g/dia, por 3 a 4 semanas. Para pacientes alérgicos à Penicilina, está indicado o uso de Eritromicina, 30mg/kg/dia, durante 3 semanas.
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Autores, revisores e orientadores:
- Autora: Anna Luisa Lupi Ventura de Assis
- Coautora: Maria Eduarda Lima Dias
- Revisora: Letícia Machado Couto
- Orientador: Júlio César Veloso
- Liga: Liga Acadêmica de Pediatria UFSJ CCO (LIPED) – @lipedufsj