Definição
A varíola é uma doença viral exantemática, causada pelo Poxvirus variolae, exclusiva de humanos. Durante a Idade Média, juntamente com a Peste Negra, foi responsável por várias epidemias e por milhares de mortes. Ela causa uma doença inicialmente muito parecida com a varicela (catapora), mas que tinha repercussões clínicas muito mais graves.
A imunização, descoberta pelo médico inglês Edward Jenner no século XVIII, foi um dos mais importantes avanços da medicina. Só a partir da vacinação em massa da população em nível mundial, proposto no Programa Global de Erradicação da Varíola, criado em 1966, foi possível controlar a doença definitivamente. O último caso registrado ocorreu em 26 de outubro de 1977, na Somália.
Epidemiologia da varíola
No passado, a varíola era endêmica em épocas de inverno e primavera, acometendo principalmente crianças e adultos. A varíola teria surgido na Índia, sendo descrita na Ásia e na África desde antes da era cristã. Em 1967, 33 países ainda eram considerados endêmicos, com cerca de 10-15 milhões de casos notificados por ano. Como a mortalidade média atingia a casa dos 30% em pessoas não vacinadas, cerca de 3 milhões de mortes ocorriam anualmente.
No hemisfério norte a varíola endêmica ocorria no inverno e na primavera e era principalmente uma doença de crianças e adultos jovens. No hemisfério sul, onde no mesmo período ocorria com o verão e outono, também aumentavam a incidência da varíola, quando esta era endêmica.
A introdução da varíola no território brasileiro ocorreu em 1953, com a primeira epidemia nacional, na ilha de Itaparica na Bahia, disseminando-se para o resto do país. O vírus chegou ao Brasil a partir do transporte de escravos no século XVI.
A imunização, descoberta pelo médico inglês Edward Jenner no século XVIII, e a utilização da imunização em larga escala, permitiu a diminuição drástica da incidência da doença entre os séculos XVIII e XX.
A varíola maior endêmica foi erradicada dos Estados Unidos em 1926, e a varíola menor durante a década de 1940. A erradicação foi mais lenta na Ásia, África e em partes das Américas. No Brasil, foi instituída a Campanha de Erradicação da Varíola em agosto de 1966, e só durante a fase de ataque, encerrada em 16 de outubro de 1971, cerca de 88% da população brasileira havia sido vacinada. A última notificação da doença foi em abril daquele ano e desde então não há registro de casos de varíola no Brasil.
A última infecção natural por varíola no mundo na ocorreu Somália em outubro de 1977. O último caso conhecido no mundo, em setembro de 1978, resultou de um acidente de laboratório em Birmingham, na Inglaterra. No entanto, atualmente, há o medo de um possível ataque com o vírus da varíola como arma biológica, por se saber que este agente é de alta transmissibilidade e letalidade.
Virologia e fisiopatologia
O vírus varíola é do gênero Orthopoxvirus, da subfamília Chordopoxvirinae da família Poxviridae. O vírus tem uma estrutura complexa com uma membrana externa, dois corpos laterais e um núcleo em formato de haltere que contém uma única molécula de DNA de fita dupla. É um dos vírus mais resistentes, em particular, aos agentes físicos.
A transmissão ocorre a partir de secreções das vias aéreas superiores de pessoa a pessoa. Os vírus se multiplicam no trato respiratório localmente e então se espalham para os linfonodos regionais por meio de macrófagos circulantes. A multiplicação dentro dos gânglios linfáticos leva a uma viremia primária com disseminação do vírus para órgãos linfóides, como o baço. A amplificação viral dentro dos órgãos linfóides leva a uma viremia secundária, que está associada ao início dos sintomas e à erupção cutânea característica da varíola. O vírus pode ser encontrado a partir de amostras da orofaringe, lesões cutâneas, medula óssea, baço, fígado e rins.
As vesículas da pele características da varíola ocorrem devido à presença do vírus dentro de pequenos vasos sanguíneos dérmicos, produzindo edema endotelial e infecção das células epidérmicas. A partir do corte histológicos das lesões, pode-se encontrar os chamadas corpos de Guarnieri, que são levemente basofílicos ou acidofílicos.

A infecção pelo vírus varíola estimula respostas específicas de células T citotóxicas, anticorpos neutralizantes e a produção de interferons. Essas respostas imunes restringem a replicação viral e induzem imunidade prolongada nos pacientes que se recuperam.
Quadro clínico da varíola
O paciente que apresenta a doença sistêmica, apresenta uma fase pré-eruptiva, com duração de dois a quatro dias, que pode ocorrer com febre alta, mal estar intenso, cefaleia, mialgia, náuseas e prostração, podendo apresentar dores abdominais intensas e delírio. Posteriormente, doença progride para a fase exantemática, com o aparecimento de lesões cutâneas, que comumente seguem uma sequência cronológica de mácula ou pápula, vesícula, pústula e formação de crostas, em surto único, de duração média entre 1 e 2 dias, distribuição centrífuga no corpo, atingindo mais face e membros. Observa-se o mesmo estágio evolutivo das lesões, em uma determinada área, o que ajuda a diferenciar da varicela, que apresenta estágios diferentes de evolução em um mesmo segmento do corpo.

Diagnóstico da varíola
Desde que a varíola foi erradicada em 1977, então dificilmente um médico em atuação presenciou um caso de varíola e, portanto, pode não reconhecer as lesões características.
O diagnóstico pode feito a partir de um exame direto de material de lesões da pele ou mucosas, utilizando microscopia clássica ou técnicas de imunofluorescência direta ou indireta. Pode-se, também, realizar busca pelo antígeno nas lesões da pele e soro ou isolamento e identificação do vírus.
Tratamento da varíola
O tratamento da varíola historicamente foi de suporte, mantendo-se o balanço hidroeletrolítico e promovendo cuidados intensivos quando necessário. No entanto, em julho de 2018, mesmo com a doença erradicada, o agente antiviral tecovirimat foi aprovado para o tratamento da varíola nos Estados Unidos. A antibioticoterapia é indicada, para o tratamento de infecções bacterianas secundárias, que são frequentes.
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