Tricuríase é uma infecção causada por um parasita chamado Trichuris trichiura, uma espécie de nematódeo do gênero Trichuris comumente encontrado no Intestino Grosso dos pacientes.
Epidemiologia de Tricuríase
A prevalência é muito alta, com cerca de 700 milhões de portadores no mundo, na grande maioria crianças.
Fisiopatologia
Para entender um pouco sobre a fisiopatologia é necessário falarmos sobre o Trichuris trichiuria, avaliando suas formas evolutivas e seu ciclo biológico, para conseguir raciocinar a patogênia.
Morfologia
Medem cerca de 3 a 5 cm de comprimento, sendo as fêmeas um pouco maiores que os machos. Outra característica importante é que a porção anterior é mais delgada que a posterior.
Formas evolutivas
Adultos: Parecem chicotes com uma extremidade anterior extremamente afilada e outra região mais alargada, considerada posterior, onde estão presentes os orgãos sexuais femininos e masculinos.
Ele possui esticócitos que são glândulas esofagianas importantes para degradar o tecido intestinal permitindo a alimentação desses adultos por sangue, anticorpos e líquidos intersticiais.
O macho tem uma extremidade posterior enrolada (encurvada) que serve para se fixar a fêmea (com extremidade posterior normal) durante a copula. Ambos vivem a nível de intestino grosso ou delgado
Ovo: Tem um formato elíptico com extremidade repleta de poros lipídicos onde vai ocorrer eclosão da larva. É revestido por uma membrana tripla, sendo não embrionando precisando do meio ambiente para se maturar e evoluir para a forma infectante. As condições favoráveis para esse desenvolvimento são: solo argiloso ou arenoso, com umidade elevada, temperatura de 25 – 30 mas sem exposição ao sol.

Fonte: Atlas de Patologia Clínica e Doenças Infecciosas Associadas ao Sistema Digestivo
Transmissão
Pode ser transmitido por via oral, água ou alimentos contaminados e fatores mecânicos.
Local de Infecção
Intestino grosso, principalmente no ceco.
Ciclo Biológico
Os ovos são eliminados com as fezes e demoram cerca de 13 a 20 dias para se tornar infectantes. O ovo larvado é ingerido pelo homem e então, quando entra em contanto com fatores favoráveis como pH, CO2, sais biliares, presentes nos sucos digestivos acaba liberando as larvas L1 que vão sofrer várias mudanças e dentro de 90 dias pós contaminação tornam-se vermes adultos que vão iniciar a oviposição.
Esse processo ocorre quando a larva L1 invade a mucosa das criptas cecais formando tuneis sinuoso para maturar. Quando se maturam, colocam a parte mais robusta na luz intestinal de forma a permitir a copulação. Com a copulação liberam ovos que saem com o bolo fecal. No meio ambiente ele se matura podendo infectar novos hospedeiros.

FONTE: Centers for Disease Control and Prevention Image Library
Patogenia e manifestações clínicas
O verme adulto insere sua porção anterior, mais delgada, na mucosa intestinal para se fixar. O problema é que diariamente ele muda de lugar, provocando erosões e ulcerações múltiplas. Como cada verme ingere cerca de 0,005 ml de sangue por dia, a intensidade do quadro clínico depende da carga parasitária.
A extremidade afunilada, por estar mergulhada na mucosa intestinal, vai causar uma ação irritativa principalmente nas terminações nervosas, gerando aumento da motilidade. Teremos ainda reações de hipersensibilidade representado pela produção de citocinas e anticorpos.
Quadro clínico de Tricuríase
Geralmente o Quadro Clinico se apresenta de forma assintomática ou com manifestações leves. Além disso, é comum observar quadros anêmicos que não está relacionado ao hábito hematófito do parasita e sim devido as perdas sanguíneas geradas pelas microlesões na mucosa. Além disso temos aumento do TNF-a que diminui o apetite do paciente, podendo resultar em um quadro de caquexia.
Como os níveis dos hormônios IGF-1 e precursor do colágenos podem causar prejuízos no crescimento e desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo. Por essa razão alguns locais fazem a quimioprofilazia em massa em regiões endêmicas que seria usar um comprimido dose única para diminuir os impactos no desenvolvimento corporal e cognitivo.
Em casos de desnutrição ou imunossupressão, principalmente em crianças pré-escolares, que vivem aglomeradas e com ausência de saneamento básico, pode se instalar uma trichiuríase maciça.
Nesses casos de infecção maciça, o intestino grosso inteiro, do ceco ao reto, pode estar infectado por vermes que chegam ao número de 2 a 5 mil. Em quase todos os casos ocorre distensão abdominal e cólicas, vômitos, disenteria crônica com fezes mucossanguinolentas, tenesmo, anemia hipocrômica e microcítica e desnutrição proteico-energética. Prolapso retal ocorre em alguns pacientes.
Diagnóstico de Tricuríase
É indicada o exame parasitológico de fezes (pelo método de concentração ou pelo método de quantificação). Em casos de trichiuríase maciça, o exame da mucosa retal por proctoscopia ou colonoscopia podem revelar os vermes adultos.
Tratamento de Tricuríase
Os medicamentos de primeira linha são:
- Albendazol 400 mg, VO, 1 x/dia por 3 a 7 dias OU Mebendazol 100 mg, 1x/dia por 3 a 7 dias.
Os de segunda linha são:
- Ivermectina 200 mcg/kg, VO, por 3 dias OU Nitazoxanida 7,5mg/kg/dose 2x/dia por 3 dias.
A combinação de Albendazol com Ivermectina é o esquema terapêutico mais utilizado atualmente. Além disso, um importante adendo a ser feito é que, na trichiuríase maciça o tratamento precisa ser realizado três vezes, com intervalos de 15 dias.
Posts relacionados:
- Doenças infecciosas virais e parasitárias
- O papel do exame protoparasitológico de fezes na atualidade
- Resumo de Ascaridíase
- Resumo de Filariose Linfática
- Resumo de Giardíase
- Resumo de Equinococose (Echinococcus granulosus)
- Resumo de Anti-helmínticos
- Resumo de teníase
Referências:
Neves, DP. Parasitologia Humana, 11ª ed, São Paulo, Atheneu, 2005.
Cimerman, B. Atlas de Parasitologia: Artrópodes, Protozoários e Helmintos, 10a. ed., São Paulo, Atheneu, 2002.