A escabiose é uma dermatozoonose contagiosa e comum, cujo agente etiológico é o ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis. Popularmente também é conhecida como sarna, embora o termo tenha caído em desuso dada sua característica pejorativa.
Epidemiologia da Escabiose
A escabiose é uma doença disseminada no mundo, ocorrendo cerca de 300 milhões de casos por ano. Em países de primeiro mundo, ocorre esporadicamente ou em epidemias com pacientes institucionalizados (como hospitais, prisões, escolas), mas nos países em desenvolvimento a doença é endêmica e a prevalência pode chegar a 29% da população em geral.
A incidência dessa infestação aumenta muito no inverno, acometendo ambos os sexos igualmente e sendo mais frequente em crianças. As diferenças étnicas na epidemiologia da escabiose estão provavelmente relacionadas a diferenças socioeconômicas e de comportamento, tendo como fatores de risco: pobreza, mau estado nutricional, estados demenciais, desabrigo e aglomeração populacional.
Fisiopatologia
Trata-se de uma infestação, causada por um artrópode comum, o ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis, que é parasita humano obrigatório (morre entre 5 a 6 dias fora do hospedeiro). Apenas a fêmea tem capacidade de parasitar o ser humano, uma vez que o macho morre após a cópula.
Após a fecundação, a fêmea escava pequenos túneis na camada córnea da epiderme, local onde deposita seus ovos. Em duas semanas, novos ácaros estarão prontos para seguir a infestação.
A principal via de transmissão é por contato pessoal, sendo mais comum entre membros da mesma família ou que pessoas que residem em instituições de longa permanência. A aquisição do parasita através de fômites (roupas, toalhas ou lençóis) é pouco frequente, assim como pela via sexual.
Na primeira infestação, o período de incubação para início dos sintomas é de 2 a 6 semanas, quando o indivíduo se sensibiliza ao agente ou a seus produtos (ovos, dejetos e secreção). Em uma segunda infestação, a sintomatologia se inicia em 1 a 2 dias.
Os ácaros que infestam animais domésticos ou silvestres causando escabiose também podem atingir o homem, mas causam apenas lesões papulosas com prurido nas regiões de contato, sendo um quadro autolimitado, já que as variantes animais não conseguem completar seu ciclo de vida tendo o ser humano como hospedeiro.
Quadro clínico da Escabiose
A principal queixa do paciente com escabiose é o prurido. Este sintoma resulta de uma reação de hipersensibilidade tardia tipo IV ao ácaro, sua saliva, ovos ou fezes. O prurido acomete também áreas da pele sem lesões visíveis.
O quadro clínico se caracteriza pela tríade:
- Prurido intenso, predominantemente noturno;
- Distribuição típica das lesões
- Epidemiologia (casos familiares e/ou contactantes).
As lesões não são características, apresentando-se como pápulas eritematosas, em geral escoriadas (pelo atrito da unha na pele pruriginosa). A eczematização e a infecção secundária são comuns.
A lesão clássica é o “túnel escabiótico”, uma lesão linear, peculiar e em sulco que representa o túnel escavado pela fêmea para depósito dos ovos. Este túnel consiste em uma saliência linear, de menos de 1 cm, com uma vesícula ou pápula em uma das extremidades, na qual se localiza a fêmea.
Muitas vezes a pápula ou vesícula é difícil de ser identificada, podendo se confundir com as escoriações. Além disso, cabe ressaltar que a intensidade da erupção cutânea não se correlaciona com o número de ácaros, mas sim, pela resposta do imune do hospedeiro.
A distribuição das lesões é característica, comprometendo pregas axilares, interdígitos das mãos e pés, cintura, nádegas, mamas, genitália masculina e punho, principalmente. Em crianças, as lesões podem também se localizar no couro cabeludo, na face, na área das fraldas, nas palmas e nas plantas, e se apresentar como vesículas, pústulas e nódulos.
Escabiose norueguesa (ou crostosa)
É uma forma de escabiose em que o número de parasitas no hospedeiro pode chegar a milhões, sendo, portanto, uma super-infestação muito contagiosa. Os indivíduos que entram em contato com doentes que apresentam escabiose crostosa desenvolvem a escabiose comum, mostrando que o aparecimento da forma crostosa ocorre devido a uma deficiência imune do hospedeiro (imunossupressão grave) e não pelo ácaro em si.
Clinicamente, as lesões são eritêmato-descamativas, de aspecto psoriasiforme, com distribuição acral. O diagnóstico é muitas vezes difícil, pois eventualmente se assemelha aos eczemas, psoríase ou eritrodermias. Em geral, acomete a região subungueal com hiperqueratose intensa, levando a distrofia e espessamento ungueal. O prurido varia de ausente a intenso.
Os exames laboratoriais podem evidenciar eosinofilia, aumento de IgE sérico e o exame físico pode mostrar linfadenopatia generalizada. Os pacientes podem apresentar bacteremias, inclusive fatais, como consequência de infecção secundária da pele escoriada e fissurada.
Diagnóstico da Escabiose
O diagnóstico da escabiose é essencialmente clínico, sendo o prurido, as características e distribuição das lesões dermatológicas e a epidemiologia suficiente para fecharem o raciocínio.
No entanto, pode ser realizado o raspado cutâneo (escarificação) de várias lesões, de preferência da pápula ou vesícula de uma das extremidades do túnel. O material obtido é colocado em lâmina e examinado ao microscópio para confirmar a presença de ácaros, ovos ou suas fezes, todavia o resultado do exame negativo não invalida o diagnóstico e deve ser repetido principalmente nos casos atípicos ou com manifestação leve.
A biópsia com exame histopatológico não é necessária, pois, além de ser um exame mais invasivo, somente confirma o diagnóstico quando o ácaro é encontrado no local examinado e nem todas as lesões de pele têm o ácaro presente.
Exames laboratoriais só devem ser solicitados diante de um paciente com escabiose norueguesa, uma vez que a principal suspeita é de imunodeficiência a esclarecer.
O diagnóstico diferencial compreende outras dermatoses que cursam com prurido e lesões disseminadas, eczematizadas ou impetiginizadas, como: dermatite atópica, estrófulo (prurigo agudo infantil), dermatite de contato, piodermites, tinea corporis…
Tratamento da Escabiose
O tratamento deve ser iniciado com fármacos com propriedades antiescabióticas e os contatos domiciliares também devem ser tratados, mesmo se assintomáticos, pela possibilidade de serem carreadores assintomático da infestação.
Orientações ao paciente:
A família deve ser informada sobre cuidados necessários para impedir o ciclo de reprodução do ácaro e evitar reinfecções:
- A roupa de cama e a roupa de uso pessoal devem ser constantemente trocadas, principalmente no dia do tratamento e nos dias anteriores;
- As roupas, após lavagem, devem ser expostas ao sol quente, complementando com ferro de passar, para eliminar o parasita;
- Os familiares (mesmo sem sintomas) devem ser tratados no mesmo dia que o paciente.
- As unhas devem ser mantidas curtas;
Tratamento de uso tópico:
A principal medicação é a Permetrina 5% (loção ou creme): deve ser aplicado no corpo todo (em adultos, poupar a região cefálica; em crianças, incluir couro cabeludo) de 1 a 3 noites seguidas, lavando o corpo na manhã seguinte. Repetir o esquema em 7 dias.
Antiescabióticos orais:
Como associação ao tratamento tópico, deve ser prescrito Ivermectina (6 mg/cp): 200 microgramas/kg/dia, VO, dose única. Repetir a dose em 7-14 dias.
Se o prurido for muito intenso, o médico pode associar um anti-histamínico, como a Loratadina (10mg/cp), 01 comprimido, VO, uma vez ao dia.
Profilaxia:
A profilaxia é destinada aos contactantes domiciliares ou moradores de instituições de longa permanência que não apresentam sintomas. O principal medicamento é a Ivermectina (6 mg/cp) 200 microgramas/kg, VO, dose única.
IMPORTANTE: Todas as medicações para o tratamento de escabiose são disponibilizadas pelo SUS, na rede de atenção básica, ou seja, sem custo algum para o paciente!
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Referências:
- MARTINS, Milton de Arruda FMUSP-HC ; CARRILHO, Flair José FMUSP-HC ; ALVES, Venâncio Avancini Ferreira FMUSP-HC ; CASTILHO, Euclides Ayres de. Clínica Médica Vol. 7 – Alergia e Imunologia Clínica, Doenças da Pele, Doenças Infecciosas. Editora Manole. Barueri – São Paulo, 2013.
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- LONG, Dan L. et al. Medicina Interna de Harrison. 18 ed. Porto Alegre, RS: AMGH Ed., 2013. 2v.
- http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/dermatologia_atencao_basica_p1.pdf