A cor pulmonale é uma expressão latina que significa “coração pulmonar”, representando uma complicação da hipertensão pulmonar. Refere-se a alterações estruturais, como hipertrofia ou dilatação, e/ou função prejudicada no ventrículo direito (VD) do coração.
É importante salientar que para ser classificada como cor pulmonale, as alterações do ventrículo direito tem que ser causado por um distúrbio primário do sistema respiratório. Visto que, quando há alteração da função no ventrículo esquerdo, este pode afetar o pulmão, que por sua vez afeta o ventrículo direito. Mas, neste caso, não é classificado como cor pulmonale.
Epidemiologia da cor pulmonale
Estima-se que o cor pulmonale seja responsável por 6% a 7% de todos os tipos de doenças cardíacas em adultos nos Estados Unidos. A incidência é amplamente variada entre os países. Depende da poluição do ar, da prevalência do tabagismo e de outros fatores de risco para várias doenças pulmonares.
A sobrevida estimada na doença pulmonar quando há presença de cor pulmonale é de 45% em dois anos, contra 69% na sua ausência.
Etiologia e fisiopatologia
O cor pulmonale pode ser agudo ou crônico. A causa mais comum de cor pulmonale agudo é o tromboembolismo pulmonar maciço e a DPOC é a principal responsável pelo cor pulmonale crônico.
A fisiopatologia da cor pulmonale é o resultado do aumento da pressão de enchimento do lado direito do coração devido à hipertensão pulmonar associada a doenças pulmonares.
A hipoxemia crônica leva à vasoconstrição crônica e produz proliferação de músculo liso em pequenas artérias pulmonares. O evento fisiopatológico inicial na produção de cor pulmonale é uma elevação da resistência vascular pulmonar.
À medida que a resistência aumenta, a pressão arterial pulmonar aumenta e há elevação da pós-carga do coração direito. Para manter o débito, o VD hipertrofia e dilata.
Nas fases iniciais do processo, o ventrículo direito pode ser capaz de manter o débito cardíaco normal em repouso, embora possa ser incapaz de aumentar o débito cardíaco com o exercício, conduzindo assim à dispneia de esforço. Conforme evolui a doença, a disfunção ventricular direita pode progredir até o ponto em que o débito cardíaco em repouso é comprometido.
Quadro clínico da cor pulmonale
A dispneia, que é o sintoma mais comum da hipertensão pulmonar, inicialmente, pode ser atribuída aos distúrbios subjacentes, tais como insuficiência cardíaca ou doença pulmonar obstrutiva. Outros sintomas comuns incluem dor torácica, taquicardia e síncope, geralmente relacionados ao exercício.
A síncope é um achado que significa risco, frequentemente ao esforço. Significa a inabilidade do ventrículo direito em aumentar o débito cardíaco, conforme necessário para a atividade física.
Em casos mais graves, com falência ventricular direita e congestão hepática, podem-se apresentar edema, ascite, plenitude gástrica e desconforto abdominal. A tosse, hemoptise e rouquidão são sintomas menos frequentes.
A distensão das veias jugulares pode significar falência do ventrículo direito, e as ondas v proeminentes podem ser um resultado de regurgitação tricúspide. A amplitude do pulso carotídeo pode dar alguma ideia do débito cardíaco.
O achado do exame físico clássico na hipertensão pulmonar é um componente pulmonar hiperfonético da segunda bulha cardíaca, o que reflete elevadas pressões pulmonares, que, por sua vez, aumentam a força do fechamento da válvula pulmonar.
Ao exame físico, em casos mais graves, apresentam-se galope (S3), que aumenta com a inspiração, e sinais de insuficiência tricúspide e pulmonar. A quarta bulha (S4) também pode estar presente, representando um aumento da pressão de enchimento das câmaras cardíacas direitas.
A presença de cianose pode indicar um comprometimento importante do débito cardíaco ou a presença de shunt entre coração direito e esquerdo.
Diagnóstico da cor pulmonale
O diagnóstico clínico de cor pulmonale nem sempre é simples, pois, muitas vezes, os próprios sinais e sintomas da doença de base podem dificultar ou mascarar a avaliação da presença de hipertensão pulmonar e o consequente comprometimento funcional ou estrutural do ventrículo direito.
As avaliações iniciais incluem um eletrocardiograma (ECG) e radiografia de tórax. O ECG pode mostrar desvio do eixo para a direita, aumento do ventrículo direito, aumento do átrio direito e alterações do segmento ST e da onda T na parede anterior, que reflete sobrecarga de pressão do ventrículo direito.
A radiografia de tórax pode demonstrar aumento da área cardíaca, dilatação das artérias pulmonares proximais, com amputação ou conização da vasculatura pulmonar. A tomografia computadorizada de alta resolução, demonstrando artérias pulmonares aumentadas, atenuação da vasculatura pulmonar periférica ou aumento do ventrículo direito é sugestiva de hipertensão pulmonar.
O ecocardiograma pode auxiliar na investigação, dando subsídios não só sobre a presença de hipertensão pulmonar, como também para a presença de doenças comuns do coração esquerdo, que podem resultar em hipertensão pulmonar.
Tratamento da cor pulmonale
O tratamento da cor pulmonale visa principalmente a reversão da condição pulmonar primária, como DPOC ou hipertensão pulmonar. O manejo geral da cor pulmonale inclui a manutenção do fornecimento de oxigênio aos tecidos, o monitoramento do estado de otimização do volume e o suporte hemodinâmico.
O oxigênio suplementar é usado conforme necessário para tratar a hipoxemia ( Sp0 2 <90 %) com ventilação assistida, se necessário. Além de apoiar a administração de 02 ao corpo, essa intervenção também pode ajudar a reduzir a vasoconstrição hipóxica nos pulmões que contribui para a hipertensão pulmonar.
A sobrecarga de volume geralmente é tratada com terapia diurética, mas a depleção de volume deve ser evitada devido ao risco de descompensação hemodinâmica.
O prognóstico do cor pulmonale depende da patologia subjacente. O desenvolvimento de cor pulmonale como resultado de uma doença pulmonar primária geralmente anuncia um pior prognóstico.
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Referências:
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