A cardioversão elétrica é uma modalidade de tratamento para algumas arritmias importantes, como fibrilação atrial e flutter atrial. Consiste na descarga elétrica que entrega de energia sincronizada com o complexo QRS, evitando que o choque seja liberado em porções do ciclo de relativa refratariedade, evitando gerar uma fibrilação ventricular.
Por outro lado, a desfibrilação é a descarga sem sincronização, em qualquer momento do ciclo cardíaco. Utilizado principalmente para ritmos de parada cardíaca, como fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso. Neste texto, discutiremos apenas a cardioversão elétrica sincronizada.
Princípios da cardioversão
A cardioversão elétrica consegue restabelecer o ritmo sinusal mais efetivamente nas taquicardias relacionadas à reentrada. A energia é liberada pelo aparelho frações de segundo após a detecção do pico da onda R (10 a 20 ms) durante o período refratário absoluto, quando os ventrículos não estão vulneráveis. O motivo de se efetuar a descarga sincronizada é evitar que o choque ocorra sobre a onda T, desencadeando a fibrilação ventricular.
O choque elétrico despolariza as fibras cardíacas excitáveis do miocárdio e possibilita o aumento de sua refratariedade, interrompendo os circuitos de reentrada e promovendo homogeneidade tissular.
Entretanto, tal procedimento torna-se ineficaz quando a taquicardia provém de desordens na formação do impulso. Em tais casos, mesmo havendo sucesso após a descarga elétrica, a taquiarritmia pode se estabelecer em poucos segundos.
Técnica da cardioversão
Há dois tipos de equipamentos desfibriladores disponíveis, os monofásicos e os bifásicos. Os desfibriladores monofásicos descarregam energia de uma polaridade e sua corrente elétrica é de apenas uma direção.
Já os desfibriladores mais modernos são bifásicos e conseguem reverter as arritmias com menor energia que os monofásicos, potencialmente causando menos complicações relacionadas à energia desferida no tórax do paciente.
A posição das pás anterolateral é a mais utilizada, no entando há outras posições como anteroposterior, antero infra escapular direita e antero infra escapular esquerda.
Em adultos, as pás devem possuir um diâmetro entre 8 e 12 centímetros. Para diminuir a impedância transtorácica, o operador deve utilizar um material condutivo, em geral o gel nas pás ou pás auto adesivas com gel.
Indicações
A cardioversão externa e a desfibrilação têm sido utilizadas no tratamento de uma variedade de arritmias, principalmente em fibrilação atrial, flutter atrial, taquicardia supraventricular paroxística e a taqucardia ventricular, com resultados variáveis dependendo da cronicidade da arritmia, dos gatilhos para a arritmia e do estado clínico geral do paciente.
Está indicada no tratamento de taquiarritmias cardíacas com frequência maior que 150/min, com instabilidade hemodinâmica, mas que apresentam pulso central.
A fibrilação atrial (FA) é a arritmia mais frequente tratada com cardioversão elétrica. A cardioversão faz parte da abordagem geral do tratamento da FA, que também inclui o controle da frequência e a anticoagulação. A carga elétrica recomendada é de 100 a 200 joules para equipamentos monofásicos e de 50 a 100 joules para equipamentos bifásicos.
A cardioversão elétrica também é muito bem-sucedida no tratamento do flutter atrial típico (tipo I), que surge de um único circuito de reentrada no átrio direito. Grande parte dos pacientes pode ser cardiovertida com energia de 50 a 100 joules ou menos, particularmente nos cardioversores bifásicos.
A cardioversão geralmente é bem-sucedida em casos refratários de de taquicardia supraventricular que não respondem às manobras vagais ou terapia antiarrítmica intravenosa com adenosina ou verapamil. Esses tipos de taquicardia geralmente são a reentrada nodal atrioventricular (AV), a taquicardia de reentrada AV e a taquicardia atrial. Raramente necessitam de cardioversão, porém, quando indicada, a energia aplicada pode ser maior do que a do flutter atrial.
A cardioversão elétrica geralmente é bem-sucedida no tratamento agudo da taquicardia ventricular (TV), que normalmente surge de um circuito de reentrada no ventrículo.
Se um QRS e uma onda T distintos forem identificados, permitindo que o fornecimento de energia seja sincronizado com o complexo QRS, a TV monomórfica pode muitas vezes ser encerrada com um choque de baixa energia. O choque sincronizado inicial nessas circunstâncias é recomendado como 100 joules com uma forma de onda bifásica ou monofásica.
Complicações da cardioversão
As complicações da cardioversão elétrica geralmente estão relacionadas a formação de novas arritmias, principalmente fibrilação ventricular. São ocasionadas por sincronização inadequada, ocorrendo principalmente durante o segmento ST ou onda T.
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Referências:
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- SEABRA, Maurício Krug. LEAL, Gabriel Azevedo. CASTRO, oão de Carvalho. Terapia elétrica: Desfibirlação e cardiversão de taquiarritmias.