Asbestose é um termo surgido em 1924, criado por Cooke, para se referir a uma doença ocupacional, que cursa com fibrose pulmonar causada pelo asbesto.
Esta doença passou a ter grande importância clínica, com o amplo uso do asbesto a partir do início do século XX e é definida como pneumonite e fibrose pulmonar intersticial causada pela inalação e acúmulo tecidual de fibras de asbesto nos pulmões.
Asbesto
O asbesto é o nome dado a uma família de silicatos fibrosos hidratados de magnésio flexível presente na natureza, conhecido há milhares de anos. Tornou-se muito empregado industrialmente, a partir da Revolução Industrial (séc. XVIII) e, principalmente, no início do século passado.
A forma mais utilizada no mundo é a crisotila (mais de 95% do consumo), extraída de rocha serpentina e, em menor proporção, aquelas classificadas como anfibólios: crocidolita, amosita, antofilita e tremolita.
Inúmeros estudos do início do século XXI, demonstraram a elevada toxicidade do asbesto, tornando-a uma importante doença ocupacional. Além da fibrose pulmonar, a asbestose é a principal causa ocupacional de câncer de pulmão e de pleura (mesotelioma).
Devido a esse perfil nocivo, o uso do asbesto tem sido eliminado em muitos países. No Brasil, apenas os anfibólios estão proibidos por lei federal, mas existem movimentos e decisões em estados e municípios no sentido de proibir o uso de qualquer tipo de fibra.
Epidemiologia de asbestose
Acredita-se que o número de trabalhadores expostos ao asbesto no Brasil esteja em mais de 300 mil pessoas e a maioria está empregada na indústria do fibrocimento, tecelagens, mineração, autopeças, isolamento térmico e construção civil.
A asbestose é a terceira causa de óbito por pneumoconiose no mundo, com uma estimativa de 7 mil óbitos em 2000.
Por se tratar de uma doença negligenciada que afeta uma população em condições precárias de trabalho, são poucos os estudos e investimentos nessa área a fim de traçar um perfil epidemiológico atual sobre o panorama da doença no Brasil.
Fisiopatologia
Todos os tipos de fibras de asbesto são consideradas nocivas e tóxicas para o ser humano. Diversos estudos demonstram que os anfibólios estão associados a um maior risco para neoplasia de pleura (mesotelioma).
Importante estudo publicado sobre o tema encontrou maior associação de asbestose com a menor espessura (< 0,25 mm) do que com o comprimento das fibras (> 5 mm), enquanto para o câncer de pulmão tanto a espessura quanto o comprimento estiveram associados ao maior risco.
A ocorrência, a gravidade e a precocidade da asbestose dependem da intensidade e da duração da exposição, com o período de latência sendo inversamente proporcional à intensidade da exposição, isto é, quanto maior a intensidade da exposição menor a duração da exposição para gerar adoecimento.
Estudo brasileiro realizado com indivíduos expostos ao anfibólio amosita por 1 mês revelou prevalência de asbestose de 20% após 20 anos de latência. Atualmente, com exposições menos intensas, a asbestose tem sido detectada após 15 anos de contato, com gravidade variada.
A doença inicia-se na parede dos bronquíolos respiratórios e evolui para fibrose (um processo cicatricial), comprometendo tanto o interstício axial (peribroncovascular) como o periférico (septos interlobulares). Podem ocorrer áreas de confluência, que levam à redução da complacência e do volume pulmonar.
Quadro clínico
A asbestose é comumente difusa e bilateral, tendo início nos segmentos inferiores, dorsais e periféricos dos pulmões. Pode ocorrer com ou sem espessamento pleural associado.
As manifestações clínicas podem estar ausentes na fase inicial (a maioria dos pacientes é assintomática por 20 a 30 anos após exposição inicial), evoluindo para instalação insidiosa de dispneia progressiva aos esforços.
Com a progressão da doença, o paciente pode apresentar tosse seca, estertores crepitantes bibasais e alterações da função pulmonar, que podem ser restritivas, mistas ou, com menor frequência, iniciadas com obstrução isolada, e pode apresentar diminuição da capacidade de difusão.
Nas fases finais do adoecimento, observa-se hipoxemia, baqueteamento digital, malignidade e cor pulmonale, com evolução para o óbito.
Achados radiográficos
Na radiografia de tórax são visualizadas opacidades irregulares ou reticulares, principalmente, nas bases pulmonares, com variada profusão, além da presença de áreas císticas.
Já a tomografia computadorizada (TC) de tórax apresenta maior sensibilidade e especificidade para o diagnóstico, sendo indicada para auxiliar nos casos iniciais, naqueles em que há dúvida quanto à presença ou não de alterações e em indivíduos com enfisema.
Na TC de tórax, as alterações mais frequentes são: opacidades em vidro fosco, espessamento irregular de septos interlobulares, linhas subpleurais, espessamento do interstício intralobular, bandas parenquimatosas, bronquiolectasias de tração e faveolamento.
Diagnóstico de asbestose
O diagnóstico de asbestose varia em conformidade com os países, porém o maior consenso da estreita literatura sobre o tema considera:
- Evidências de exposição ao asbesto: história de exposição ao asbesto com latência plausível, e/ou marcadores de exposição (ex. placas pleurais), e/ou encontro de corpos de asbesto ou fibras no tecido ou lavado broncoalveolar.
- Evidências de alterações estruturais demonstradas por um dos métodos: imagem (radiografia de tórax ou TC de tórax) ou alterações histológicas.
- Ausência de outras causas de fibrose difusa: por exemplo, as colagenosas, pneumonite por hipersensibilidade crônica.
Para o diagnóstico, não são necessárias evidências de alteração funcional da capacidade pulmonar do paciente, todavia, fazem parte da avaliação dos expostos ao asbesto: sinais ou sintomas (estertores), e/ou alteração na função ventilatória (restrição, obstrução ou mista), e/ou redução da capacidade de difusão, e/ou inflamação (lavado broncoalveolar e/ou alteração no teste de exercício cardiopulmonar.
A TC de tórax só é recomendada quando há dúvida diagnóstica no exame radiográfico inicial.
Outras formas de investigar existentes, porém pouco usuais:
- Pesquisa de corpos de asbestos (CAbs): coletado em escarro induzido ou lavado broncoalveolar, em que o encontro de mais de 1 CAbs/mL sugere exposição elevada;
- Biópsia de pulmão: na qual o achado de fibrose e a visualização pela microscopia de fibras isoladas de asbesto por campo, contribuem ao diagnóstico.
Diagnóstico diferencial
A asbestose em um estágio evolutivo avançado é de difícil distinção da fibrose pulmonar idiopática, seu principal diagnóstico diferencial. Todavia, a presença de placas pleurais (em 80% dos casos de asbestose), linhas subpleurais, bandas parenquimatosas, pontilhado intralobular subpleural e perfusão em mosaico são mais prevalentes na asbestose.
As alterações patológicas visualizadas no exame histológico variam quanto ao grau de fibrose, podendo ser visualizados corpos de asbesto, formações na forma de halteres composto pela fibra de asbesto com agregados de ferro e proteínas concentrados em suas extremidades.
Este achado histopatológico facilita a diferenciação com o diagnóstico de outras fibroses.
Tratamento de asbestose
Não há tratamento específico para a asbestose, o que torna demasiadamente importante a detecção precoce dos casos para que se possa recomendar o manejo com médidas preventivas e de suporte, como:
- cessação ao tabagismo;
- evitar reexposição;
- oxigenoterapia, se necessário;
- tratamento adequado de infecções respiratórias;
- cartão vacinal atualizado: pneumococo e influenza (risco de descompensação da função pulmonar limítrofe).
Prognóstico
Indivíduos com asbestose ou aqueles com exposição relevante ao asbesto devem ser informados quanto à possibilidade de progressão ou manifestação da doença, sua interação com o tabagismo e o aumento do risco de câncer de pulmão e de mesotelioma.
Além disso, recomenda-se o acompanhamento com radiografia de tórax e provas de função respiratória a cada 3 a 5 anos ou antes, caso apareçam sintomas.
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Referências:
- MARTINS, Milton de Arruda FMUSP-HC ; CARRILHO, Flair José FMUSP-HC ; ALVES, Venâncio Avancini Ferreira FMUSP-HC ; CASTILHO, Euclides Ayres de. Clínica Médica Vol. 2 – Doenças cardiovasculares, Doenças respiratórias, Emergência e Terapia Intensiva. Editora Manole. Barueri – São Paulo, 2013.
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- LONG, Dan L. et al. Medicina Interna de Harrison. 18 ed. Porto Alegre, RS: AMGH Ed., 2013. 2v.
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