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Resumo: Anafilaxia | Ligas

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Definição e epidemiologia

A anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade generalizada ou sistêmica grave, com risco de morte. É uma emergência médica com uma das mais dramáticas condições clínicas, tanto pela imprevisibilidade de aparecimento, quanto pelo potencial de gravidade de sua evolução. Estudos indicam que o maior número de casos ocorre em crianças e adolescentes. A gravidade da reação varia individualmente e a morte, em geral, dá-se por asfixia secundária à obstrução das vias aéreas ou por choque.

Com incidência de 4-50 casos por 100.0000 pessoas/ano e uma prevalência de 0,05% a 2% no mundo, a anafilaxia permanece subdiagnosticada e subtratada. Os desencadeantes incluem alimentos, drogas e picadas de insetos, proteínas ou peptídeos, medicamentos, látex, contrastes radiológicos e agentes diagnósticos, porém, em até 20% dos casos a etiologia não é identificada. É importante ressaltar que o alérgeno envolvido difere conforme a idade, pois os alimentos são os principais fatores alérgicos nas crianças, enquanto nos adultos, os fármacos.

Fisiopatologia

A anafilaxia é resultado da ativação dos mastócitos e basófilos e liberação maciça dos mediadores biologicamente ativos contidos em seus grânulos e neoformados como histamina, triptase, prostaglandina, leucotrieno, citocina, entre outros. A manifestação clínica é decorrente dos mediadores liberados por estas células, por exemplo, a histamina com receptores (H1 e H2) presentes na musculatura lisa, endotélio, glândulas e terminações nervosas determina, respectivamente, a vasodilatação e broncoconstrição, aumento da permeabilidade vascular, hipersecreção mucosa e ativação do sistema nervoso autônomo.

Os mecanismos que provocam o processo de degranulação celular podem ser subdivididos em: imunológico, não imunológico e idiopático. As reações imunológicas, em geral, são mediadas pelos anticorpos imunoglobulina E (IgE), produzidos para alérgenos diversos. A IgE, sintetizada em resposta ao contato com o alérgeno reconhecido como antígeno em um indivíduo previamente sensibilizado, agrega-se aos receptores de alta afinidade de IgE (FcεRI) dos mastócitos e basófilos, resultando na ativação de quinases intracelulares. Uma complexa cascata de reações provoca o aumento da concentração de cálcio intracelular, determinando a liberação do conteúdo dos grânulos.

A fase efetora da resposta imune dependente do IgE ocorre em três padrões que diferem quanto ao alérgeno, ao intervalo entre a exposição e os sintomas e aos tipos celulares envolvidos.

A reação aguda ocorre de segundos a minutos após a exposição, decorrente da ação de mediadores pré-formados.

A reação tardia ou bifásica surge horas depois, mesmo sem reexposição. Neste caso, leucócitos são recrutados por substâncias quimiotáticas liberadas na fase aguda e influenciam novas reações.

Além do mecanismo clássico, mastócitos e basófilos podem sofrer ativação direta sem sensibilização prévia ou ainda por ação de complemento, moduladores de ácido araquidônico e por condições especiais como a associada a exercícios.

Quadro clínico

A anafilaxia afeta pelo menos dois sistemas, incluindo pele e mucosas e sistema respiratório, além do trato gastrintestinal e sistema cardiovascular. Sendo assim, encontra-se os seguintes achados clínicos:

  • Cutâneos/subcutâneos/mucosas

As manifestações são caracterizadas por urticária generalizada, rubor, prurido, exantema morbiliforme, eritema, prurido e edema periorbitário, eritema conjuntival, lacrimejamento, edema e prurido em lábios, língua, úvula, palato e canal auditivo externo. Também é possível ocorrer prurido ou edema em genitália e regiões palmares e plantares.

  • Sistema respiratório

Os sintomas incluem coriza e prurido nasal, espirros, disfonia, rouquidão , sensação de sufocação e aperto na garganta, disfagia, estridor, tosse, dispneia, desconforto torácico, hipoxemia, sibilos, broncoespasmo e redução do pico de fluxo expiratório.

  • Aparelho cardiovascular

Os pacientes podem apresentar diferentes graus de hipotensão, palidez, sudorese, cianose de extremidades, síncope, tontura, visão turva, sensação de morte iminente, fadiga extrema, palpitações, dor torácica, taquicardia ou bradicardia, parada cardíaca e choque.

  • Sistema gastrintestinal

Náusea, dor abdominal em cólica, vômitos, diarréia.

  • Outros

Contrações uterinas em mulheres, convulsões, perda de visão, zumbido, sensação de morte iminente, perda de controle de esfíncteres.

Diagnóstico

Muitos quadros de reação alérgica sistêmica podem mimetizar a anafilaxia, principalmente quando acompanhada de outras manifestações, por isso devem ser consideradas como diagnóstico diferencial. Um exemplo comum é a urticária generalizada na ausência de sintomas de vias aéreas, respiração ou circulação.

Portanto, o diagnóstico de anafilaxia é baseado em critérios clínicos específicos desenvolvidos pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) e posteriormente adotados pela Organização Mundial de Alergia. Podendo ser realizado quando pelo menos um dos três critérios encontra-se presente:

  • Início agudo de uma doença, de minutos a horas, com envolvimento da pele, tecido mucoso ou ambos (como por exemplo, a urticária generalizada) e pelo menos um dos seguintes fatores:
    • Comprometimento respiratório (por exemplo, dispneia, broncoespasmo sibilante, estridor, pico de fluxo reduzido, hipoxemia);
    • Pressão arterial reduzida ou sintomas associados de disfunção de órgão-alvo (por exemplo, hipotonia (colapso), síncope, incontinência) OU
  • Dois ou mais dos seguintes que ocorrem rapidamente após a exposição a um provável alérgeno para aquele paciente, em minutos a horas:
    • Envolvimento do tecido cutâneo-mucoso;
    • Comprometimento respiratório com dispneia, broncoespasmo, estridor e hipoxemia;
    • Pressão arterial sistêmica reduzida;
    • Sintomas gastrointestinais persistentes como cólica abdominal e vômitos OU
  • Hipotensão arterial após exposição a alérgeno conhecido para aquele paciente após minutos a horas:
    • Para lactentes e crianças maiores considerar a hipotensão quando a pressão arterial sistólica (PAS) estiver abaixo do esperado para a idade ou reduzir mais de 30% da PAS basal;
    • Para adultos: PAS <90 mmHg ou redução em 30% no valor basal do indivíduo.

Apesar do diagnóstico da anafilaxia ser clínico, alguns métodos complementares podem ser utilizados, como a dosagem plasmática de triptase e histamina. A triptase é um dos mediadores liberados por mastócitos e basófilos durante a anafilaxia, elevando-se a partir de 15 minutos do início do quadro e permanecendo elevados por horas, com tendência a se normalizar dentro de 24 horas. A triptase sérica total é o biomarcador mais amplamente usado para confirmar o diagnóstico de anafilaxia retrospectivamente.

Já os níveis plasmáticos de histamina, elevam-se após 5 a 15 minutos do início do quadro anafilático e declinam dentro de 60 minutos, tornando-os de pouca utilidade se o paciente for avaliado mais de 1 hora após o início dos sintomas. Os metabólitos da histamina urinária de 24 horas podem estar elevados por até 24 horas após o evento índice, podendo ser utilizada quando o paciente comparecer ao serviço de atendimento de urgência após o pico de nível sérico de histamina.

Uma vez que o diagnóstico da anafilaxia é realizado ou suspeitado, o início do tratamento não deve ser postergado para execução de exames laboratoriais.

O paciente deve ser encaminhado ao alergologista para investigação do agente etiológico e os testes cutâneos para avaliação de IgE específica podem ser realizados três a quatro semanas após a anafilaxia, devido ao período refratário posterior ao episódio agudo. Outros testes podem ser considerados para a investigação diagnóstica como: testes in vitro para a avaliação da IgE específica, testes diagnósticos resolvidos por componentes e teste de ativação de basófilos.

Tratamento

Os princípios do manejo inicial são os mesmos no ambulatório, pronto-socorro, sala de cirurgia ou hospital, porque a anafilaxia pode ocorrer em qualquer um desses locais. Pacientes com complicações cardiorrespiratórias mais graves são mais bem tratados em uma UTI.

O tratamento da anafilaxia deve começar com a rápida avaliação do nível de consciência do paciente, a manutenção de vias aéreas pérvias e de acesso venoso calibroso, além de monitoramento cardíaco. Inicialmente administra-se adrenalina aquosa 1:1.000 (1 mg/ml), via IM, preferencialmente no músculo vasto lateral da coxa, que proporciona absorção mais rápida e completa. A dose de 0,3 a 0,5 ml para adultos, ou 0,01 mg/kg de peso corporal para crianças, até no máximo 0,3 ml, pode ser repetida em intervalos de até 5 min, conforme a gravidade do caso.

Depois de realizado o manejo imediato, considera-se a administração dos fármacos de segunda linha, como os anti-histamínicos anti-H1, que não previnem os sintomas de obstrução das vias aéreas ou o choque, mas reduzem prurido, urticária e sintomas nasais, oferecendo maior conforto para os pacientes. Os broncodilatadores de curta ação por via inalatória (β2 agonistas: salbutamol, fenoterol ou terbutalina) também podem ser administrados nas doses habituais, como tratamento sintomático de broncoespasmo isolado ou quando sem resposta à dose inicial de adrenalina administrada.

O terceiro passo seria a utilização de corticosteróides. Apesar de atingirem seu efeito após quatro a seis horas, quando administrados por via endovenosa, possuem ação anti-inflamatória importante na prevenção dos sintomas tardios da anafilaxia. O corticosteróide escolhido deve ser administrado em dose equivalente a 1 a 2 mg/kg de metilprednisolona a cada seis horas (Hidrocortisona, 100 a 200 mg, via endovenosa). Nos casos mais leves a prednisona ou prednisolona na dose de 0,5-1,0 mg/kg/dia por via oral é suficiente.

Os pacientes com anafilaxia devem ser observados idealmente por no mínimo 6-12 horas. No entanto, o tempo de observação depende da gravidade do episódio, da possibilidade de adequada supervisão após a alta, da confiabilidade dos pais ou cuidadores e da facilidade de acesso ao cuidado médico. Nas reações graves de início lento e de causa idiopática ou em pacientes com asma ou história anterior de reação bifásica devem permanecer em observação por no mínimo 24 horas.

Autores e revisores

Autor(a): Thais da Silva Cardoso Fagundes

Co-autor (a): Paola Cristine Ferigolo

Revisor(a): Rafaella Oliveira Dias

Orientador(a): Jule Rouse de Oliveira Gonçalves Santos

Liga: Liga de Emergências Médicas do Distrito Federal – LEM-DF

Instagram: @lem_df

O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

ANAGNOSTOU, K. Myths, facts and controversies in the diagnosis and treatment of anaphylaxis. Archives of Disease in Childhood (ADC). 2018

BERND, L. A. G..Anafilaxia: guia prático para o manejo .Revista Brasileira de Alergia e Imunopatologia. 2006

LOVERDE, D. Anaphylaxis. ACCP. 2017

OROPEZA, A. R. Anaphylaxis in an emergency care setting: a one year prospective study in children and adults. Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine (SJTREM). 2017.

PITCHON, R. Manejo da anafilaxia e a importância dos autoinjetores de epinefrina. Revista Médica de Minas Gerais. 2016

RIBEIRO, M. L. K. K. Diagnóstico e tratamento da anafilaxia: há necessidade urgente de implementar o uso das diretrizes. Revista Einstein. 2017

REBER, L.L.The pathophysiology of anaphylaxis.The Journal of Allergy and Clinical Immunology. 2017.

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