Já dizia Augustus
Waters, personagem da produção cinematográfica de A culpa é das estrelas: “o ruim da dor é que ela tem que ser
sentida”. É evidente que sentir dor é algo indesejável para a maioria das
pessoas e praticamente não se encontra nada de bom nela, ainda que exista
aquela pequena parcela que tenta, mesmo que mentalmente, encará-la como algo
prazeroso, não à toa a dor é entendida como algo particular, exclusiva de quem
a sente. Tecnicamente falando, segundo a International Association for the
Study of Pain (IASP) a dor é uma sensação ou experiência emocional
desagradável, associada com dano tecidual real ou potencial¹. É um achado
semiológico muito relevante na prática clínica e também o ponto de partida para
que se realize uma busca mais profunda de acometimentos patológicos no
individuo, pois trata-se de uma manifestação sintomática, subjetiva, um sinal de
alerta que indica que algo não está normal e que possivelmente há alguma
agressão sobre o organismo do paciente. Talvez nesse sentido possamos extrair o
lado positivo da dor, se é que existe, o de sinalização.
Durante a anamnese não se deve deixar de dar importância a ela, o ideal é identificar características como seu início, tipo, intensidade, localização, irradiação, manifestações associadas e tempo de evolução. Nesse ultimo caso, podemos utilizar esse dado para classificar o quadro álgico em agudo ou crônico. A dor aguda é aquela que dura por no máximo 30 dias, diferente da dor crônica que, mesmo sem um consenso médico, considera-se aquela que persiste por mais de um mês, para alguns por mais de três ou até seis meses¹,²,³. O processo de envelhecimento é apontado como um dos principais responsáveis pela dor crônica, entretanto ela tem também grande representatividade em pacientes oncológicos e íntima relação com algumas enfermidades de base e imunológicas.
VEJA: Mapa mental – Dor e torpor
A dor crônica
representa um impacto muito grande na sociedade, pois acarreta em incapacidade
total ou parcial do indivíduo, sem contar no comprometimento de seu bem-estar
pelo fato de que muitos evoluem com alterações que levam a depressão,
isolamento social e até suicídio. Muitas especialidades médicas tem se voltado
a essa realidade e se dedicado ao estudo e tratamento da dor como a
anestesiologia, neurologia, ortopedia, reumatologia, fisiatria, medicina física
e reabilitação, sem contar que a Associação Médica Brasileira (AMB) já confere
a esses profissionais título de especialista em medicina da dor mediante a
aprovação em um exame de suficiência.
Em casos como o que
abordamos no presente artigo, o tratamento está baseado em diferentes pilares
proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que vão desde os fármacos analgésicos como anti-inflamatórios
não esteroidais, corticóides e opióides, fármacos
adjuvantes como antidepressivos, anticonvulsivantes, relaxantes musculares
e terapias não farmacológicas, usados
de forma escalonada ou através do que se conhece por “Degraus da escada
analgésica”, conforme demonstrado na figura abaixo:
Degraus da escada , analgésica, segundo a OMS.

Ao observar o quadro
anterior4, nota-se que o tratamento da dor vai além da analgesia
medicamentosa, é algo muito mais multidisciplinar, passando por profissionais
fisioterapeutas, educadores físicos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e
outros, destacando também as diferentes práticas que apresentam bons resultados
no auxílio ao tratamento da dor crônica. Vendo esse cenário e a necessidade de
aprofundar-se em diferentes estratégias, inclusive para outras condições
patológicas, o Sistema Único de Saúde (SUS) no ano de 2006 criou a Política Nacional de Práticas Integrativas e
Complementares (PNPIC) com a oferta de diferentes práticas terapêuticas
baseadas em conhecimentos tradicionais, algo que inclusive já era adotado pela
rede privada de saúde havia algum tempo, por meio de Acupuntura, Osteopatia,
Quiropraxia, Homeopatia e mais outras 25 práticas terapêuticas, chegando a um
total de 29 delas na atenção básica, um recorde a nível mundial, na qual encontra-se
incluída também a Hipnose.
LEIA: Manejo da dor na anestesia moderna
Considerada como uma intervenção mente-corpo, a hipnose é uma prática que inclui o relaxamento, a meditação e a modificação de comportamento, contribuindo terapeuticamente (Hipnoterapia) para a resolução tanto de problemas emocionais, psicológicos e/ou físicos, sendo amplamente utilizado na medicina a fim de alcançar benefícios como a diminuição da dor crônica, de modo a bloquear, reduzir ou eliminá-la. Seu princípio baseia-se na crença de que as pessoas têm a capacidade de gerenciar alguns aspectos de sua dor à partir da mudança de atitudes, pensamentos, sentimentos ou, como já destacado, comportamentos, alterando seu estado de vigília, resultando em uma sensação aprimorada de bem-estar e alívio da dor.
Os mecanismos aos
efeitos antinociceptivos da hipnose ainda não estão devidamente esclarecidos, mas
acredita-se que durante a sessão ocorre uma indução de alteração do
funcionamento de determinadas áreas do cérebro, modulando a percepção sensorial
a dor5. Com o intuito de esclarecer essa hipótese, no ano de 2009 um
grupo de pesquisadores da Universidade de Liége na Bélgica, realizou um ensaio
na qual adquiria imagens do cérebro por ressonância magnética em treze
voluntários saudáveis, aplicando estímulos dolorosos em sua mão esquerda
durante a vigília normal e no estado hipnótico. A análise de interação
identificou que o tálamo contralateral, núcleo estriado bilateral e o córtex
cingulado anterior se ativavam mais na vigília normal em comparação ao estado
hipnótico durante a estimulação dolorosa. Isto é, a não ativação destas áreas
fazia com que os voluntários não experimentassem a sensação dolorosa mesmo com
o estímulo que lhe era provocado6.
Dentro da hipnoterapia
existem ainda vários métodos de hipnose, diferentes tipos de técnicas e de exercícios
que buscam como primeiro passo a eliminação da dor física, seguida pela necessidade
de controlar outras manifestações sobreagregadas como a ansiedade, por exemplo.
Apesar de serem
demonstrados resultados positivos no uso da hipnoterapia no combate a dor
crônica, essa modalidade ainda é encarada com ceticismo e resistência por parte
de alguns médicos, o que não impede seu crescimento e adesão de novos
profissionais interessados no assunto a cada dia. Ressaltando que não somente é
parte da política nacional de práticas integrativas e complementares do SUS, mas
também está organizada pela Sociedade Brasileira de Hipnose (SBH) e é
regulamentada por diversas categorias profissionais, inclusive pelo Conselho
Federal de Medicina (CFM) em seu parecer nº42/1999 que determina:
“A hipnose é
reconhecida como valiosa prática médica, subsidiária de diagnóstico ou
tratamento, devendo ser exercida por profissionais devidamente qualificados e
sob rigorosos critérios éticos.”
LEIA: Cuidados paliativos às crianças com câncer
Concluo destacando
novamente os pilares propostos pela OMS no manejo do paciente com dor crônica,
sendo a abordagem farmacológica sumamente importante para a resolução e/ou
controle dos casos, entretanto vejo a hipnose como um método complementar alternativo
válido, sobretudo em pacientes oncológicos ou que requerem cuidados paliativos,
buscando alcançar a máxima sensação de bem-estar possível ao paciente.
Outrossim, finalizo contrariando a frase do nosso amigo fictício Augustus
Waters, citado no início deste artigo pois “Bom mesmo é não ter que conviver
com dor”.