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Relato de uma médica residente em Medicina de Família e Comunidade | Colunistas

O que o SUS faz por você e você não sabe

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Medicina de Família e Comunidade
no Fundo de Saúde Municipal de Cascavel – PR

A escolha da
especialidade é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo acadêmico de
medicina. Além disso, em muitos casos, o aluno entra com uma motivação inicial
e acaba passando toda a graduação voltado para aquele caminho. Felizmente, durante
o internato, todos os acadêmicos vivenciam um pouco de cada especialidade e
tem, de fato, o contato com a rotina do pediatra, do intensivista, do neurologista,
do cardiologista, entre outros.

Isso aconteceu com a médica Caroline Solana de Oliveira e, conforme
descreve em seu relato, ela entrou na universidade com o sonho de ser pediatra,
porém acabou optando por Medicina de Família e Comunidade por perceber que essa
era a rotina que mais condizia com o estilo de vida dela. Para quem está
indeciso, essa é uma dica valiosa: pensar em como você quer passar os próximos
anos da sua vida depois de formado. O que você se vê fazendo? Carol, como gosta
de ser chamada, também contou um pouquinho sobre a rotina no serviço que ela
escolheu e se mostrou apaixonada por sua especialidade.

“Sobre mim:

Meu nome é
Caroline, mas todo mundo me chama de Carol (menos minha mãe). Sou da segunda
turma de Medicina da Unioeste de Francisco Beltrão e vim de uma cidade
pequenininha chamada Iporã, no Paraná. Estou fazendo residência de Medicina de
Família e Comunidade no Fundo de Saúde Municipal de Cascavel.

Escolha da
especialização:

Escolhi essa
especialidade no último ano da faculdade. Na verdade, decidi fazer medicina
porque queria ser pediatra e mantive essa ideia ao longo de boa parte do curso,
só quando entrei no internato que percebi que a rotina de um pediatra talvez
não fosse para mim. Eu não gostava de ficar muitas horas dentro do hospital
(existe médico que não gosta de hospital, conheci alguns na residência), não
gosto de emergências ou de virar noites acordada. Também não curtia muito fazer
procedimentos, via meus colegas falando super empolgados de intubação, fazer
acesso central ou suturas, auxiliar em cirurgias e eu não tinha o mesmo
interesse, apesar de saber que são competências importantes.

Durante os
estágios do internato fui notando que gostava muito da parte clínica, que não havia
qualquer possibilidade de seguir na área cirúrgica, que gostava bastante da
rotina do posto de saúde por ser mais diurna e por ser um lugar em que posso
ter contato com todo tipo de paciente, inclusive as crianças. Juntando tudo
isso, decidi pela Medicina de Família.

Sobre a
prova:

Eu penso que
se a pessoa tem definida a área que quer e pode pagar a inscrição das provas e
a viagem até a cidade de prova, deveria tentar. Se passar, depois decide o que
fazer. Acho que a gente se vê de uma forma muito inferior por vir de um curso que
está começando, que ainda tem muitas dificuldades, mas dá para pensar que tudo
isso só nos fez ter o dobro de força e de garra. Eu não tinha dinheiro para
pagar cursinho preparatório, estudei com o que tinha acesso. Então não pensem
que se não fizerem um cursinho ou por terem estudado em lugar pequeno, não vão
conseguir passar na residência, acreditem em vocês. Mas não deixem de viver e,
principalmente, não prejudiquem os coleguinhas para conseguir isso, sempre
terão outras oportunidades.

Escolha do
local da residência:

Escolhi esse
lugar por fatores da residência e da cidade. Da residência porque conhecia como
era organizada devido a um amigo já ser residente aqui, então sabia, por
exemplo, que sempre teria um preceptor para me orientar sobre os casos e para
me ensinar, algo que considero essencial para a escolha do local de residência.
Também pelo valor da bolsa que é relativamente alto, então poderia viver de
forma confortável. Em relação a cidade, escolhi por ser de porte médio, então o
deslocamento dentro dela não é muito demorado, o custo de vida não é alto e também
por ser próximo a minha cidade de origem, assim conseguiria ver a família em
feriados (ou era o plano antes de uma certa pandemia).

Dificuldades
enfrentadas:

Como a carga
horária não é muito puxada e o valor da bolsa é bem maior do que de outras
residências, esses não problemas que não enfrento por aqui. Mas claro que isso
vai do estilo de vida de cada um.

Acredito que
as principais dificuldades são atuar de forma ética e dizer não para os
pacientes. Muita coisa vem com a prática e com a vivência da profissão, com a
experiência do contato com o Outro. Mas nossas decisões precisam ter um
embasamento e vejo que é extremamente difícil fazer o que é correto porque
fazer errado é muito menos estressante, gera menos conflitos e gasta menos tempo
de consulta explicando os motivos de fazer ou de não fazer algo…

Dia-a-dia:

No R1,
fazemos 6 meses de estágio em um local, depois 6 meses em outro, e no R2
ficamos o ano todo no mesmo posto, sendo 2 anos de residência.

Nosso horário
é de segunda a sexta e alguns finais de semana, fazemos cerca de 9 horas e meia
de trabalho por dia. Alguns períodos acompanhamos especialistas, como cardio,
pneumo, endócrino, vascular, psiquiatra, entre outros, para também podermos nos
aprofundar um pouco mais dentro de cada área, além de conhecermos casos mais
diferentes e aprendermos quais casos devem ser encaminhados ao especialista e o
que precisamos manejar no posto. Também temos estágio na UPA, então ainda temos
contato com pacientes que estão em observação num serviço de emergência
(infelizmente para mim). Além disso, temos aulas teóricas algumas vezes na
semana. Porém, a rotina da residência está um pouco diferente esse ano devido
ao Covid.

Mas de vez em
quando aparece emergência no posto também, já atendi paciente com crise
hipertensiva umas 3 vezes e 1 gestante em pré-eclâmpsia. Então a emergência não
vai embora totalmente (socorro).

Eu amo muito
a especialidade, sinto que fiz a escolha certa. Meu preceptor atual é uma
pessoa sensacional, que tem muito conhecimento e gosta de dividi-lo com os
outros. Então aprendo um pouquinho mais a cada dia e vou melhorando como
médica, tentando seguir o conselho de um amigo que é “fazer por amor”.

Espero que
ajude vocês, talvez a pelo menos saber que essa especialidade existe. Qualquer
dúvida, podem me mandar mensagem.”

Relato da médica Caroline Solana de Oliveira, formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, campus de Francisco Beltrão e atualmente residente em Medicina de Família e Comunidade no Fundo de Saúde Municipal de Cascavel, no Paraná.

Autora: Letícia Madureira Pacholak

Biomédica, mestre em Ciências Aplicadas à Saúde e estudante de
Medicina da Unioeste.

Redes
sociais: @leticiapacholak

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