“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”
(Carl G. Jung)
1. HUMANIZAÇÃO
Em uma relação médico-paciente
é necessário, sobretudo, que tenha um atendimento humanizado, através de
princípios éticos e políticas de gestão em saúde. Conforme a Política Nacional
de Humanização (HumanizaSUS), a humanização é:
“a valorização dos usuários, trabalhadores
e gestores no processo de produção de saúde. Valorizar os sujeitos é
oportunizar uma maior autonomia, a ampliação da sua capacidade de transformar a
realidade em que vivem, através da responsabilidade compartilhada, da criação
de vínculos solidários, da participação coletiva nos processos de gestão e de
produção de saúde” ⁴.
2.
TRANSFERÊNCIA E CONTRATRANSFÊNCIA
Supostamente, a relação
médico-paciente começou na medicina hipocrática, com objetivo de beneficência
humana, com a visão da pessoa por completo e não somente patológica. Esta
relação é formada por processos psicossociais⁵, como, por exemplo, a transferência e contratransferência
– descobertas e estudadas pelo psicanalista Freud, trazendo um entendimento
para prática médica e a relação com seus pacientes².
A transferência é a relação do
paciente referente ao médico. Especificamente, é os sentimentos de uma relação
ou pessoa do passado que são transferidos para situações atuais ou para relação
com médico.
Existem dois tipos, a negativa
e a positiva. A negativa são sentimentos ruins, como ódio, ira, ressentimentos
e tristezas; por outro lado, a positiva são sentimentos bons, de amor, respeito
e confiança².
Outrossim, na
contratransferência ocorre o oposto da transferência, tendo a relação do médico
perante ao paciente. Mais afundo, são respostas emocionais do médico frente às
manifestações do paciente, que dependem da história de vida do médico².
A observação atenta do médico,
tanto das manifestações
transferenciais do paciente quanto das suas reações contratransferenciais, muito
ajudará no crescimento de ambos os participantes dessa relação, no atendimento
diário e também na vida profissional.
3.
EMPATIA
Decerto, outro fator
importante para a relação médico-paciente é a empatia. O
médico deve ser capaz de se colocar no lugar do paciente, olhando o que
acontece em seu corpo, mas também em sua vida e, tentar compreender, a partir
dessa análise, o que de fato as queixas e os relatos significam para o
paciente².
Para Barros et al (2011), a definição de empatia é
constituída por três componentes:
- Comportamental: transmite,
explicitamente, o reconhecimento que foi entendido, também sem julgamento,
dando à outra pessoa o pressentimento verdadeiro de ser compreendida¹. - Afetivo:
é apontado pela percepção de sentimentos de compaixão e de preocupação
fidedigna com bem-estar da pessoa¹. - Cognitivo: está associado à
eficácia de reconhecer e levar em consideração, sem julgamentos, o
entendimento e sentimentos de outrem ¹.
4. CASO CLÍNICO – RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE
Em um atendimento de Pronto
Socorro, se encontram o preceptor (um cardiologista), um residente de 1º ano e
um interno. A paciente chega ao Pronto Socorro e a atendente a direciona para a
Avaliação e Classificação de Risco aos cuidados da Enfermeira do plantão, a
qual a trata muito friamente, sem dar importância aos relatos da paciente e
imediatamente direciona ao consultório médico.
Chegando ao consultório, a
jovem mãe de 40 anos, acompanhada da filha de 15 anos, relata que procurou o
serviço porque vem apresentando cerca de um mês, uma rouquidão inexplicável.
Chega a perder quase totalmente a fala. O médico residente que faz a história
indaga sobre os vários aspectos do sintoma e outros problemas da garganta.
Faz o exame, encontra a região
hiperemiada. Diz para a paciente que ela tem uma faringite com comprometimento
da laringe e a medica com um anti-inflamatório.
A filha acompanhante fala para
o preceptor: “ela está assim desde que meu irmão morreu”. Antes de acabar a
consulta, o preceptor habilmente faz com que ela continue
e abre o problema: “sua filha falou que a senhora perdeu um filho
recentemente”. A paciente dispara em um choro inconsolável, e conta que o filho
foi assassinado por três bandidos próximos a casa e que uma coisa que não lhe
sai da cabeça: contaram-lhe que, na hora em que estava prestes a morrer, o
filho gritava desesperadamente por ela: “mãe me salve”.
Nessa hora, o interno se
emociona e silenciosamente abraça-a, permanecendo na sala. O médico residente
permanece impassível. O preceptor diz à mãe “Estamos aqui”. Depois, pede para o
residente encaminhá-la para ao ambulatório de psicologia e psiquiatria para uma
avaliação. A paciente emocionada menciona: Obrigada pelo cuidado comigo, eu só
não gostei do atendimento da enfermeira, foi péssimo, ela me faz mal, ainda bem
que vocês estavam aqui²’³.
Neste
caso é explicita a relação de médico-paciente, sendo demonstrados exemplos de
empatia, contratransferência e transferência realizadas tanto por parte da
equipe médica, quanto pela parte da paciente.