INTRODUÇÃO
A síndrome metabólica (SM) pode ser definida como uma situação clínica complexa e de caráter multifatorial, que engloba alguns fatores de risco para desenvolvimento de doenças cardiovasculares e de Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), tais como, circunferência da cintura elevada, hipertensão arterial, dislipidemias, hiperglicemia, excesso de tecido adiposo visceral, resistência à insulina e disfunções do endotélio. A prevalência desta síndrome é responsável por duplicar o risco de morte e quintuplicar o risco para desenvolvimento de DM2, atingindo cerca de um quarto da população adulta mundial e corroborando para a queda da qualidade de vida dos indivíduos afetados.
Já o Diabetes Mellitus tipo II (DM2) é uma doença crônica não transmissível e também classificada como uma síndrome. Pode ser caracterizada como um conjunto de distúrbios metabólicos que acarretam a hiperglicemia, a qual se inicia com a resistência periférica à insulina, que a longo prazo progride para defeitos na atuação deste hormônio no organismo. Com isso, fatores como predisposição genética, sedentarismo, hábitos alimentares inadequados, obesidade, alterações hormonais e estados pró-inflamatórios, podem predispor o desenvolvimento desta doença, tornando ainda mais evidente a correlação desta com a presença da síndrome metabólica no paciente.
Neste contexto, vale lembrar que as doenças do aparelho cardiovascular representam a maior causa de mortalidade no Brasil, sendo que os pacientes portadores de SM representam fortes candidatos a eventos trombóticos e ateroscleróticos. Não obstante, um paciente com SM possui grandes chances de desenvolver a DM2, uma comorbidade que corrobora com mais um grande fator de risco para a maior causa de mortalidade no país. Desta forma, pode-se concluir que a clínica dos pacientes com síndrome metabólica, representa um importante pré-requisito não só para eventos cardiovasculares, como também para o surgimento de DM2 nos mesmos, ambas situações que geram notáveis impactos na saúde pública.
FISIOPATOLOGIA DA SÍNDROME METABÓLICA NO DESENVOLVIMENTO DA DM2
A síndrome metabólica está grandemente relacionada com o excesso de tecido adiposo visceral (TAV), juntamente com uma diminuição do tecido adiposo subcutâneo. Este fato culmina com um excesso de citocinas inflamatórias, especialmente TNF e IL-6, e ácidos graxos livres liberados na corrente sanguínea, o que resulta numa inflamação no tecido adiposo. Após um tempo, este fenômeno progride sistemicamente e, associado a condições clínicas como obesidade, resistência à insulina, estresse oxidativo e eventos ateroscleróticos, contribuem para o desenvolvimento de comorbidades.
O desenvolvimento do Diabetes Mellitus tipo 2 está entre as principais comorbidades desenvolvidas após o diagnóstico da síndrome metabólica. A resistência à insulina causada na SM, surge, aparentemente, pela inibição direta dos receptores de insulina nas células causada pelas citocinas inflamatórias liberadas pelo tecido adiposo. Com este fenômeno, há um déficit no transporte intracelular da glicose o que, a longo prazo, acarreta o surgimento do Diabetes Mellitus tipo 2 no indivíduo portador de SM.

https://crescendoinfantil.wordpress.com/2016/03/14/obesidade-descontrolada-e-estresse-mental-levam-a-ativacao-cronica-dos-sistemas-neuroendocrinos/
QUADRO CLÍNICO
Pode-se ressaltar que a presença da síndrome metabólica contribui para diversos eventos depreciativos no organismo, tais como, prejuízos na capacidade funcional, perda da resistência física, dores em membros ocasionados pelo estado pró-inflamatório da obesidade, além de transtornos emocionais e psiquiátricos, e dificuldades nas relações sociais. Entretanto, é importante salientar que o surgimento da SM advém de um conjunto de hábitos não saudáveis mantidos a longo prazo, que acabam por provocar o desenvolvimento da mesma. Dentre eles, pode-se destacar:
- Sedentarismo
- Depressão e ansiedade
- Tabagismo e Alcoolismo
- Alimentação inadequada
- Distúrbios hormonais
- Estresse
- Ganho Ponderal
- Predisposição genética e histórico familiar
- Sono prejudicado
- Condição socioeconômica e educacional desfavorável
Assim, pode-se afirmar que os pacientes com síndrome metabólica apresentam um fenótipo padrão, tanto homens quanto mulheres. Aos pacientes que chegam nos serviços de saúde, os médicos devem se atentar com alguns fatores, como elevada circunferência abdominal, obesidade, presença de acantose nigricans, idade acima de 60 anos, distúrbios osteomusculares e alterações cutâneas. Muitas vezes, o Diabetes Mellitus tipo 2 já está estabelecido ao procurarem assistência médica, já que o estado pró inflamatório da SM, juntamente com a persistência da hiperglicemia contribuem para a resistência à insulina e sua consequente falha na atuação.
Vários estudos comprovaram que a grande maioria dos pacientes diabéticos não possuem alimentação adequada ou hábitos de vida saudáveis, possuindo muitas vezes, uma obesidade já instituída atrelada a dislipidemias e sedentarismo, contribuindo, assim, para o diagnóstico da síndrome metabólica e tornando o DM2 uma complicação crônica dos pacientes com SM. Pesquisas brasileiras divulgaram que quanto maior o sedentarismo, maiores chances de desenvolvimento da síndrome metabólica, e por consequência, os indivíduos sedentários com um ou mais fatores da mesma, possuem doenças crônicas associadas, como a diabetes.
Obesidade; Hipertensão Arterial; Glicemia alterada ou Diabetes; Triglicerídeos 150mg/dl; Glicose elevada -110mg/dl ou mais; Colesterol HDL baixo.
ABORDAGEM DIAGNÓSTICA
Os pacientes com SM são multifatoriais de clínica geralmente complexa, assim, os profissionais de saúde devem ser extremamente criteriosos e minuciosos ao examiná-los, principalmente pelo alto risco para doenças cardiovasculares e outras comorbidades, como a Diabetes Mellitus tipo 2.
Não há consenso para um diagnóstico exato na identificação da SM na população, entretanto, segundo os critérios da NCEP/ATP III (National Cholesterol Education Program’s Adult Treatment Panel III), para diagnosticar a síndrome metabólica o paciente deve apresentar 3 ou mais dos seguintes critérios:

Penalva DQF. Síndrome metabólica: diagnóstico e tratamento. Rev Med (São Paulo). 2008 out.-dez.;87(4):245-50.
Desta forma, os principais objetivos dos exames clínicos e laboratoriais são confirmar o diagnóstico da SM de acordo com os critérios do NCEP-ATP III e constatar elementos de risco para doenças cardiovasculares associadas à síndrome. Deve-se realizar uma anamnese completa e bem detalhada do paciente, juntamente com um exame físico que contemple os principais requisitos: valores da circunferência abdominal medida pela metade da distância entre a crista ilíaca e o rebordo costal inferior; valor da glicemia; níveis da pressão arterial – no mínimo duas aferições num intervalo de 5 minutos; prescrições prévias de medicamentos e quais são utilizados diariamente; IMC; exame da pele, principalmente pescoço e dobras cutâneas; exame cardiovascular. Ademais deve-se solicitar os exames laboratoriais que elucidem os critérios do NCEP-ATP III.
Outros exames laboratoriais podem ser incluídos na avaliação para complementar o atendimento médico, tais como, colesterol total, LDL-colesterol, creatinina, ácido úrico, microalbuminúria, proteína C reativa, TOTG (glicemia de jejum após duas horas da ingestão de 75g de dextrosol), eletrocardiograma.
Por fim, caso seja identificada uma resistência à insulina, deve-se solicitar também os exames para rastreio de Diabetes Mellitus tipo 2. Para isto, os critérios necessários se encontram na tabela a seguir:

TRATAMENTO
No que tange a fatores não farmacológicos, ambas as síndromes podem ser controladas a partir de mudanças nos hábitos de vida e nos fatores de risco modificáveis, como obesidade e sedentarismo. As medidas intervencionistas promovidas pelos profissionais de saúde são benéficas pelo fato de automaticamente contemplarem tanto SM quanto DM2. Uma das principais medidas mais recomendadas é o planejamento alimentar, extremamente indicado para a redução de peso e gordura visceral, o que, consequentemente, induzirá uma redução da circunferência abdominal, aumento da sensibilidade à insulina, controle dos níveis de glicose e dos níveis da pressão arterial. Além disso, o controle da SM pode retardar o aparecimento de DM2 no paciente.
Por fim, conclui-se que exercícios físicos diários, alimentação saudável, cessação de tabagismo e etilismo, e acompanhamento médico regular são imprescindíveis para manter a saúde equilibrada. Dessa forma, pacientes com SM que seguem as recomendações aumentam sua qualidade de vida, além de diminuírem as taxas de mortalidade por eventos cardiovasculares e os riscos de desenvolver outras comorbidades.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
PICON, P. et. al. Análise dos Critérios de Definição da Síndrome Metabólica em Pacientes Com Diabetes Melito Tipo 2. Arq Bras Endocrinol Metab vol 50 nº 2 Abril 2006.
McLELLAN K. et. al. Diabetes mellitus do tipo 2, síndrome metabólica e modificação no estilo de vida. Rev. Nutr., Campinas, 20(5):515-524, set./out., 2007
NETO, J. et. al. PREVALÊNCIA DA SÍNDROME METABÓLICA E DE SEUS COMPONENTES EM PESSOAS COM DIABETES MELLITUS TIPO 2. Texto Contexto Enferm, 2018; 27(3):e3900016.
Félix NDC, Nóbrega MML. Metabolic Syndrome: conceptual analysis in the nursing context. Rev. Latino-Am. enfermagem. 2019;27:e3154.
Penalva DQF. Síndrome metabólica: diagnóstico e tratamento. Rev Med (São Paulo). 2008 out.-dez.;87(4):245-50.
Arquivos Brasileiros de Cardiologia – Volume 84, Suplemento I, Abril 2005.
