Segundo a OMS, mais de 8 milhões de pessoas morrem todos os anos devido ao tabagismo, sendo que no Brasil, a quantidade de mortes supera 160 mil por ano. O tabagismo sempre foi um problema sério de saúde pública, mas hoje se encontra em evidência ainda maior devido a pandemia da COVID-19 e da forma que interfere na transmissão e recuperação dos pacientes.
Epidemiologia
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada no ano de 2019, a prevalência do tabagismo na população brasileira é de 12,6%, sendo em sua maioria homens. Os dados apresentam uma queda constante na quantidade de usuários do tabaco, sendo hoje o menor valor encontrado nas pesquisas. Isso se deve muito às políticas adotadas para limitação do uso da droga que foram implementadas, sendo elas principalmente o aumento da tributação sobre os cigarros e restrições de publicidade, além da veiculação de imagens de advertências de grande impacto.
Tabaco e a pandemia
Os estudos mais recentes demonstraram o aumento do uso de substâncias psicoativas durante o período de isolamento, sendo principalmente os alucinógenos. Trouxe também aumento do consumo de tabaco, principalmente devido ao estresse causado pela situação atual em que o mundo se encontra.
Impacto imediato do uso do tabaco
Existem dois principais impactos pelo uso do tabaco a curto prazo. O primeiro é o aumento da transmissão do vírus. Isso pode acontecer de algumas formas, a primeira é devido a pessoa levar as mãos até a boca para realizar o ato de fumar, muitas vezes a mão não está devidamente higienizada, o que gera o contato do vírus com a grande porta de entrada para o corpo que é a boca. Outra forma é pelo compartilhamento de cigarros ou bocais de narguilés, que é extremamente comum na população jovem.
O segundo é justamente a hipóxia induzida pelo ato de fumar. O ato de fumar gera uma ligação estável do monóxido de carbono (CO) com a hemoglobina, criando a carboxiemoglobina. Considerando que a COVID-19 é uma doença que afeta diretamente os pulmões, a hipóxia induzida pelo tabagismo só dificulta ainda mais a recuperação.
Impactos tardios do tabagismo
O uso crônico do tabaco é o maior fator de risco para desenvolvimento da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). A DPOC por si só já é fator de risco para desenvolvimento das formas graves da COVID-19, devido à dificuldade das trocas gasosas e desenvolvimento de hipóxia crônica. Além disso, pacientes tabagistas, assim como os que sofrem de DPOC, tem aumento de expressão de ECA2, que funciona como receptor viral e aumenta o risco de evoluir para uma forma grave.
Além disso, esses pacientes apresentam ainda aumento da Proteína C reativa, D-dímero e citocinas pró-inflamatórias. Essas substâncias servem como marcadores de trombose, sendo que a elevação do D-dímero acima de 1μg/L na admissão aumenta o risco de óbito em 18 vezes.
Tabagismo como fator de risco para COVID-19
O uso do tabaco é configurado como fator de risco para a COVID-19. Isso se deve a diminuição das defesas do organismo, que aumenta a chance de contaminação e desenvolvimento de doenças causadas por fungos, bactérias e vírus. Além disso, o comprometimento pulmonar é um dos grandes fatores de risco para que a doença se desenvolva em formas mais graves, assim como um possível estado de hipercoagulabilidade que pode ser encontrado nesses pacientes. Estudos já mostraram a presença de coagulação intravascular disseminada (CIVD) em 71% das mortes por COVID.
Conclusão
O tabagismo é um problema grave de saúde pública que afeta tanto os usuários quanto os que vivem ao seu redor. Embora tenha sido fortemente combatido nos últimos 30 anos, o hábito ainda persiste em boa parte da população mundial. Durante a pandemia, a gravidade desse problema ficou ainda mais clara, sendo visível as dificuldades que os tabagistas e ex tabagistas têm para conseguir superar a doença. O importante é saber que esse hábito deve ser abordado em consultas, sempre incentivando a parada do uso do tabaco. O uso dessa droga afeta a transmissão e recuperação de diversas formas, ao modo que é posto como um grande fator de risco para que se desenvolva uma doença de alta gravidade e difícil recuperação. A possibilidade de doenças oportunistas também deve ser levada em conta, uma vez que o sistema imune dessas pessoas já se encontra debilitado.
Autor: Lucas Dias Brito Infante
Instagram: @lucasinfante
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
SILVA, Andre Luiz Oliveira da; MOREIRA, Josino Costa; MARTINS, Stella Regina. COVID-19 e tabagismo: uma relação de risco. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, 2020. Disponível em: <http://www.scielo.br/j/csp/a/gcwFHX3B4dH66p83QdzbqQN/?lang=pt>. Acesso em: 15 set. 2021.
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?edicao=29270&t=resultados>. Acesso em: 15 set. 2021.
INCA – Instituto Nacional de Câncer. Tabagismo. Disponível em: <https://www.inca.gov.br/tabagismo>. Acesso em: 15 set. 2021.
INCA – Instituto Nacional de Câncer. Tabagismo e coronavírus (Covid-19). Disponível em: <https://www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/tabagismo-e-coronavirus-covid-19>. Acesso em: 15 set. 2021.