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Reflexos primitivos do recém-nascido

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A análise do desenvolvimento dos reflexos primitivos do recém-nascido é essencial para que o pediatra avalie a integridade do sistema nervoso central, considerando a idade cronológica da criança.

O desenvolvimento neuropsicossensorial e motor da criança depende do processo de maturação do sistema nervoso central, que ocorre intensamente no primeiro ano de vida. À medida que a mielinização e a formação das sinapses nervosas progridem, inibe-se os reflexos primitivos, permitindo que a criança adquira controle sobre seus movimentos.

Em bebês a termo, esses reflexos estão sempre presentes e são considerados normais nos primeiros meses de vida. No entanto, sua ausência ao nascimento ou sua persistência além do tempo esperado pode indicar possíveis alterações patológicas que necessitam de investigação.

No caso de bebês prematuros, entretanto, realiza-se o acompanhamento considerando a idade gestacional corrigida até os dois anos de idade, garantindo uma avaliação mais precisa do desenvolvimento neuromotor.

Reflexos e condições patológicas

Alguns reflexos desaparecem nos primeiros seis anos de vida, enquanto outros se extinguem mais precocemente.

Em condições como paralisia cerebral e alterações visuais ou auditivas, muitas vezes há alteração da resposta reflexa. Já o reaparecimento desses reflexos na idade adulta pode indicar perda neuronal cortical, sendo associado ao envelhecimento normal ou a quadros de demência.

Avaliação neurológica do recém-nascido

Ao iniciar o exame físico geral do recém-nascido (RN), a avaliação neurológica ocorre simultaneamente, pois aspectos como postura, movimentação espontânea, resposta ao manuseio e choro são indicadores essenciais dessa análise.

Para evitar que o estresse do parto interfira nos resultados, recomenda-se postergar a avaliação neurológica para depois das primeiras 12 horas de vida, prevenindo interpretações equivocadas sobre possíveis comprometimentos.

Além disso, durante o exame, é fundamental observar o nível de alerta do recém-nascido, pois isso reflete a integridade de diferentes áreas do sistema nervoso central. Como esse exame pode ser influenciado pelo ciclo sono-vigília, deve-se realizar o mesmo quando o bebê estiver acordado para garantir uma avaliação mais precisa.

O tônus muscular do RN está associado à idade gestacional. Bebês nascidos a termo apresentam hipertonia em flexão dos membros, adotando uma postura semelhante à fetal. Ademais, conseguem manter a cabeça no mesmo nível do corpo por alguns segundos quando suspensos pelos braços e demonstram movimentação ativa ao serem manipulados.

Por sua vez, a verificação dos reflexos primitivos é essencial, pois fornece informações relevantes sobre o estado de saúde do bebê. Esses reflexos, que são respostas motoras involuntárias a estímulos, surgem ainda antes do nascimento e permanecem presentes até aproximadamente o sexto mês de vida.

Eles são mediados por mecanismos neuromusculares subcorticais que já estão desenvolvidos no período pré-natal. Com o avanço do desenvolvimento neuromuscular nos primeiros meses, ocorre a supressão progressiva desses reflexos devido ao aumento do controle cortical inibitório.

Embora existam diversos reflexos primitivos nos recém-nascidos, nem todos precisam ser avaliados no exame físico de rotina de um bebê a termo.

Os principais reflexos a serem observados incluem aqueles mais relevantes para a identificação do desenvolvimento neurológico adequado. A seguir, serão descritos os principais reflexos primitivos do recém-nascido.

Reflexos primitivos do recém-nascido

Reflexo de sucção

No reflexo de sucção, quando o céu da boca do RN é tocado, o bebê começa a sugar.

Esse reflexo aparece a partir da 32ª semana de gestação (caso prematuridade) e desenvolve completamente até a 36ª semana. Por sua vez, a sincronização entre respiração, sucção e deglutição no bebê ocorre apenas entre 32 e 34 semanas de gestação, o que torna a alimentação oral desafiadora em recém-nascidos pré-termo.

Ademais, o reflexo de sucção desaparece por volta dos 3 meses de idade.

Reflexo de sucção. Fonte: UNICAMP.

Reflexo de busca/voracidade

O reflexo de busca ocorre quando o canto da boca do RN é tocado ou acariciado. A partir disso, bebê vira a cabeça em direção ao estímulo e abre a boca para seguir e enraizar na direção do toque. Isso ajuda o bebê a encontrar o peito ou a mamadeira para começar a mamar.

Todavia, não avalia-se esse reflexo imediatamente após a amamentação, pois a resposta ao estímulo pode ser fraca ou até ausente.

Ademais, a duração desse reflexo é de cerca de 4 meses.

Reflexo de Moro (do abraço)

O reflexo de Moro, por sua vez, ocorre ao fazer um barulho alto ou após mudança repentina da posição do bebê. Em resposta, o bebê joga a cabeça para trás, estende os braços e as pernas, chora e depois puxa os braços e as pernas para dentro. Ou seja, observa-se a realização de movimentos de extensão e abdução dos membros superiores, com a abertura das mãos, seguidos por um movimento de adução e flexão dos mesmos.

Esse reflexo deve estar presente em recém-nascidos com, pelo menos, 37 semanas de gestação. Para testá-lo, posiciona-se a criança em decúbito dorsal sobre uma superfície plana e acolchoada. A partir disso, eleva-se a cabeça suavemente, sustentando o suficiente para erguer levemente o corpo do bebê do colchão. Em seguida, libera-se a cabeça abruptamente, provocando um movimento rápido de queda, sendo logo após novamente sustentada pelo examinador.

Alterações nesse reflexo podem indicar distúrbios do sistema nervoso central. Além disso, a presença de assimetria pode sugerir condições como paralisia do plexo braquial, traumas na clavícula e ombro ou lesões motoras assimétricas do trato piramidal superior.

O reflexo de Moro normalmente desaparece até o quinto mês de vida.

Reflexo de Moro. Fonte: UNICAMP.

Reflexo de preensão palmar

O reflexo de preensão palmar ocorre quando, ao acariciar a palma da mão do RN, os dedos fecham-se ao redor do estímulo, ou seja, observa-se a flexão dos dedos.

Esse reflexo aparece a partir da 32ª semana de gestação e deixa de ocorrer em torno dos 3 meses de vida. Além disso, é substituído pela preensão voluntária aos 4-5 meses de vida.

Reflexo de preensão palmar. Fonte: UNICAMP.

Reflexo de preensão plantar

No reflexo de preensão plantar, ao colocar um objeto ou um dedo entre os dedos dos pés, os dedos fecham-se ao redor do estímulo, ou seja, observa-se flexão dos dedos.

Este reflexo está presente a partir da 32ª semana de gestação e desaparece por volta dos 9-12 meses de idade.

Reflexo de preensão plantar. Fonte: UNICAMP.

Reflexo cutâneo plantar

O reflexo cutâneo plantar é ativado ao estimular a lateral do pé do recém-nascido, resultando na extensão do hálux. Esse reflexo permanece presente até aproximadamente 18 meses de idade.

Marcha reflexa

Na marcha reflexa, ao segurar o bebê ereto com os pés em uma superfície plana, as pernas da criança movimentam-se como se estivessem andando.

Esse reflexo aparece ao nascimento e desaparece aproximadamente aos 2-4 meses.

Marcha reflexa. Fonte: UNICAMP.

Reflexo de fuga à asfixia

Avalia-se o reflexo de fuga à asfixia colocando o recém-nascido em posição prona, com o rosto voltado para o colchão.

Após alguns segundos, o bebê deve virar a cabeça, permitindo que o nariz fique livre para uma respiração adequada.

Reflexo do esgrimista ou tônico-cervical de Magnus e de Kleijn

O reflexo do esgrimista é desencadeado por rotação de 90 graus da cabeça enquanto a outra mão do examinador estabiliza o tronco do RN.

Observa-se extensão do membro superior ipsilateral à rotação e flexão do membro superior contralateral. A resposta dos membros inferiores obedece ao mesmo padrão, mas é mais sutil.

Esse reflexo está presente ao nascimento e dura até os 2-4 meses de idade, aproximadamente.

Por fim, a persistência do reflexo além do terceiro mês de vida ou sua manifestação exagerada pode indicar comprometimento cerebral.

Reflexo do esgrimista. Fonte: UNICAMP.

Reflexo de Galant ou de encurvamento do tronco

O reflexo de Galant é desencadeado por estímulo tátil na região dorso lateral. Portanto, observa-se encurvamento do tronco ipsilateral ao estímulo.

Esse reflexo está presente intraútero e dura até os 2-3 meses de idade.

Reflexo de Galant. Fonte: UNICAMP.

Reflexo de Landau

O reflexo de Landau, por sua vez, é desencadeado quando o bebê é suspenso na posição prona e flexiona-se sua cabeça contra o tronco. Esse estímulo faz com que as pernas da criança se flexionem contra o tronco. Além disso, observa-se elevação da cabeça acima do tronco.

Está presente a partir dos 3 meses de idade e desaparece por volta dos 12-24 meses.

Ademais, é um reflexo muito útil para diferenciar a hipotonia fisiológica (6 a 8 meses) da hipotonia patológica.

Reflexo de Landau. Fonte: UNICAMP.

Reflexo do paraquedista

Por fim, o reflexo do paraquedista é desencadeado colocando-se a criança de ponta cabeça. Observa-se, portanto, a extensão dos braços para frente, como se fosse para amparar a queda.

É o último reflexo postural a aparecer e, portanto, está presente a partir de 8 a 9 meses de idade e deve estar obrigatoriamente presente aos 12 meses. Além disso, esse reflexo não desaparece.

Reflexo do paraquedista. Fonte: UNICAMP.

Conclusão

Reflexos primitivos são necessários para a sobrevivência do recém-nascido. Os reflexos anormais podem ser um sinal de disfunção do sistema nervoso central. Portanto, é importante saber reconhecer os reflexos primitivos, além de saber a idade aproximada de seu desaparecimento.

A monitorização do desenvolvimento neuropsicossensorial e motor do recém-nascido é essencial para identificar precocemente possíveis alterações no sistema nervoso central e, a partir disso, realizar intervenções precoces.

Os reflexos primitivos, por exemplo, desempenham um papel fundamental nessa avaliação, pois refletem o grau de maturação do sistema nervoso do bebê nos primeiros meses de vida.

Autora: Giovanna Bittencourt – @gih.bittencourt


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


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