Dados epidemiológicos da população mundial e brasileira evidenciam um envelhecimento da população. Porém, o grupo dos idosos que, segundo a OMS, são os indivíduos com mais de 60 anos, são um grupo extremamente heterogêneo e diverso. Para isso, ao abordarmos um paciente idoso, especialmente em consultas de geriatria, gerontologia ou voltadas para a saúde do idoso, é preciso mensurar sua funcionalidade, sua vulnerabilidade clínico funcional. Diversos índices são utilizados, mas um índice vem ganhando destaque na área pela sua simplicidade, aplicabilidade, além de sua validação para a população brasileira. É o IVCF-20.
Embora sejam descritos na literatura vários instrumentos para triagem rápida de vulnerabilidade em idosos, aqueles que poderiam ser utilizados na atenção básica têm sua validação para uso prático ainda incipiente. Instrumentos de triagem disponíveis para o idoso carecem da acurácia necessária para identificação do idoso frágil. Tampouco foram encontrados trabalhos que avaliassem a inserção desses instrumentos na gestão integral do idoso a longo prazo, tanto pela atenção primária, quanto pela atenção secundária.
Identificação do Idoso Frágil
No Brasil, os profissionais de saúde na atenção primária tendem a considerar um idoso como frágil baseando-se em sua aparência geral, ou quando tal indivíduo apresenta múltiplas doenças ou comorbidades. Para esses profissionais, a identificação adequada de idosos frágeis ou em risco de fragilização necessita ser simples e rápida. Alguns estudos testaram a eficácia de alguns instrumentos na identificação de fragilidade em idosos na atenção primária de saúde, mas nenhum destes instrumentos foi especificamente concebido para identificação do idoso frágil, segundo a concepção de maior vulnerabilidade ao declínio funcional 10-12. Além disso, estudos em países em desenvolvimento, com o propósito de encontrar um instrumento para tal identificação, são escassos.
O IVCF-20
O IVCF-20 (Índice de Vulnerabilidade Clínico Funcional – 20) foi desenvolvido e validado no Brasil, a partir de outros instrumentos de triagem rápida amplamente citados na literatura. É um instrumento simples e de rápida aplicação (5 a 10 minutos), que avalia as principais dimensões consideradas preditoras de declínio funcional e/óbito em idosos: a idade, a auto-percepção da saúde, as atividades de vida diária, a cognição, o humor, a mobilidade, a comunicação e a presença de comorbidades múltiplas.
Portanto, O IVCF-20 pode ser considerado uma metodologia de Avaliação Geriátrica Ampla, que pode ser realizada por profissionais não especialistas em Geriatria e Gerontologia. Pode ser utilizado por qualquer profissional de saúde ou até mesmo pelo próprio idoso e seus familiares.
O IVCF-20 é um questionário que contempla aspectos multidimensionais da condição de saúde do idoso, sendo constituído por 20 questões distribuídas em oito seções: idade (1 questão), auto-percepção da saúde (1 questão), incapacidades funcionais (4 questões), cognição (3 questões), humor (2 questões), mobilidade (6 questões), comunicação (2 questões) e comorbidades múltiplas (1 questão). Cada seção tem pontuação específica que perfazem um valor máximo de 40 pontos. Quanto mais alto o valor obtido, maior é o risco de vulnerabilidade clínico-funcional do idoso.

Fonte: https://ivcf20.org/

Fonte: https://ivcf20.org/
A pontuação máxima obtida no IVCF-20 compõe o seu próprio nome: 20 pontos. Idosos que atingem até 6 pontos são classificados como idosos “robustos”. Aqueles com pontuação maior ou igual a 15 pontos são idosos frágeis ou de alta vulnerabilidade. Aqueles com pontuação intermediária, ou seja, que pontuam entre 7 e 14 pontos, são classificados como de “média vulnerabilidade” e necessitam de uma avaliação mais apurada se são ou não considerados como idosos frágeis.
Além do reconhecimento do idoso frágil, que pode ser feito por qualquer profissional de saúde e até mesmo pelos cuidadores e familiares, o IVCF-20 também sinaliza algumas intervenções que podem ser implementadas independentemente de uma avaliação geriátrica-gerontológica ampla, a partir da observação de quais grandes dimensões da saúde do idoso o mesmo pontuou mais. Dessa forma, o IVCF-20 pode ajudar tanto os familiares quanto os profissionais de saúde a identificar aqueles pontos de maior fragilidade do idoso, podendo indicar aquelas funções clínico-funcionais que merecem maior atenção.
Conclusão
O reconhecimento do idoso de risco é fundamental para o estabelecimento de uma linha de cuidado capaz de recuperar ou manter a autonomia e a independência do idoso, como recomendado pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. A Avaliação Geriátrica Ampla é uma metodologia de avaliação multidimensional do idoso que deve ser realizada por equipe geriátrico-gerontológica especializada e apresenta alto custo para o sistema de saúde. Sabe-se que nem todo idoso se beneficia dessa avaliação mais complexa. O IVCF-20 pode ser considerado uma AMI inicial, que determinará a necessidade ou não de encaminhamento para atenção secundária, conforme a necessidade do idoso e a disponibilidade local, de tempo e de equipes geriátrico-gerontológicas especializadas. Além disso, permite identificar os principais marcadores de fragilidade do idoso por profissionais de saúde e até mesmo pelos familiares e cuidadores.
Autor: Bruno Versiani
Instagram: @dr.brunoversiani
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Referências
- IVCF-20 – https://ivcf20.org/
- Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba – https://revistas.pucsp.br/index.php/RFCMS/article/view/43424