O sistema imunológico é um dos mais complexos do corpo, seu trabalho depende de citocinas, marcadores químicos, formatos, encaixes dentre outros fatores celulares e moleculares, físicos e químicos. Portanto, não é incomum que erros ocorram por parte de um sistema tão vasto e complexo. Ao longo desse artigo discutiremos uma falha comum do sistema imune.
Como funciona a relação antígeno anticorpo?
O sistema imunológico é responsável por proteger o organismo de corpos estranhos ou agentes infecciosos que possam causar prejuízo à saúde. No momento em que você entrar em contato com o patógeno, os anticorpos se ligarão à estruturas específicas no corpo estranho, denominadas antígenos, por meio de um mecanismo “chave-fechadura” onde o formato, a composição e vários outros fatores farão com que o antígeno se encaixe no anticorpo e, assim, crie uma sinalização que incorrerá em uma resposta imunológica.[1]
Então, o que são as reações cruzadas?
Uma vez que já conhecemos a relação existente entre o antígeno e o anticorpo e também sabemos que essa relação depende do “encaixe” dessas duas estruturas, podemos nos perguntar: “o que ocorrerá se houver alguma falha no reconhecimento desse sistema?” Pois bem, o sistema de fato não é a prova de falhas, portanto, erros podem ocorrer.
Imaginemos um exemplo hipotético de um time de futebol. É comum que os times tenham mais de um modelo de uniforme, justamente para o caso de um ser muito parecido com o de algum time adversário. Se todos os jogadores jogassem com uniformes parecidos, seria possível que jogadores do mesmo time brigassem pela bola, se atacassem ou até mesmo passassem a bola para o time adversário, além de confundirem os espectadores que poderiam não saber de quem seria a vantagem no jogo. Isso geraria uma confusão generalizada, devido a um simples erro de reconhecimento.
Se revertermos essa análise simplista para a relação antígeno anticorpo, chegaremos à conclusão de que o anticorpo observa um antígeno que quer “atacar” e se encaixa nele, pois, os epítopos do antígeno são reconhecidos como imunizante. No entanto, se um outro antígeno tiver um epítopo muito similar em composição e formato ao antígeno imunizante, esse anticorpo também o “atacará”.
E o que essas reações podem causar?
São várias as comorbidades que podem ser causadas por esse tipo de acontecimento, desde alergias até doenças auto imunes.
Alergias à medicamentos
Profissionais acreditam que reações alérgicas em medicamentos ocorrem em 10 a 15% dos pacientes hospitalizados e que de 3 a 6% das admissões hospitalares são ocasionadas por essas mesmas reações. [2] Os medicamentos, muitas vezes, devem ser metabolizados para que possam se associar às proteínas carreadoras devido ao baixo peso molecular. Dessa forma, o medicamento passa por mudanças de forma ao longo do processo para cumprir sua função e a reatividade cruzada pode vir a se tornar um problema causando não só a inutilização do medicamento quanto iniciando um processo inflamatório que leva a quadros alérgicos leves ou severos. [1],[2]
Alergias à determinados alimentos
Alguns alimentos também estão associados a casos alérgicos devido à reatividade cruzada, como é o caso da síndrome da alergia oral (SAO) ou síndrome do pólen-alimento, que ocorre por uma alergia ao pólen de bétula que cria uma reação antigênica cruzada com as sementes de algumas frutas e alguns legumes, pois há semelhança entre determinadas proteínas. Então, se ao comer frutas ou legumes frescos você sentir coceira na boca, no lábio ou inchaço dentro da boca, procure um médico. [1],[3]
Doenças autoimunes:
Muitas vezes é observável que alguma infecções podem criar uma resposta imunizante e induzir uma resposta cruzada com antígenos do próprio corpo, ou seja, haverá destruição de estruturas do seu corpo pelos seus próprios anticorpos. Um exemplo disso é a doença de Crohn, que pode ser desencadeada por um vírus ou bactéria que leva à uma inflamação crônica do trato gastrointestinal. [1],[4]
Erros laboratoriais:
Algumas vezes uma reação cruzada pode ativar um anticorpo que é necessário em determinados casos, mas está ativo naquele momento devido a uma reação cruzada, dessa maneira, o teste pode ter um falso positivo ou falso negativo decorrente dessa reação cruzada. Como exemplo podemos usar o caso da sífilis, que é causada pelo treponema pallidum, dessa forma, são feitos os teste treponêmicos e não treponêmicos que são diferenciados, de maneira simplificada, da seguinte forma: o teste treponêmico identifica anticorpos específicos para o paciente em sífilis, enquanto o teste não treponêmico identifica anticorpos que estão presentes no paciente que tem sífilis, mas que também estão presentes em resposta a outros agentes, não apenas o treponema pallidum. Dessa maneira quando o teste não treponêmico é feito e mostra um resultado positivo, faz-se também o teste treponêmico, caso o segundo apresente um resultado negativo, entende-se que o resultado do primeiro teste se trata um falso-positivo decorrente de uma reação antigênica cruzada.[1],[5]
Conclusão:
As reações antigênicas cruzadas são de extrema importância para os diversos aspectos da saúde, desde a vigilância, em casos alérgicos, até o cuidado na administração de medicamentos e no controle de doenças autoimunes. As comorbidades decorrentes desse tipo de reação são tratáveis e controláveis, no entanto, trata-se de uma situação imprevisível e que carece de atenção.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências bibliográficas:
1-Imunologia Celular e Molecular, Capítulo 5: Anticorpos e Antígenos| Abul K. Abbas, MBBS, Andrew H. Lichtman, MD, PHD and Shiv Pillai, MBBS, PHD,https://www.evolution.com.br/epubreader/9788535283204 Evolution. Evolution.com.br. Disponível em:
2-NAGAO-DIAS, Aparecida T.; BARROS-NUNES, Patrícia; COELHO, Helena L. L.; et al. Reações alérgicas a medicamentos. Jornal de Pediatria, v. 80, n. 4, p. 259–266, 2004. Disponível em:
3-VIEIRA, Francisco M. Polinose com síndrome de alergia oral: uma raridade no Brasil? Vamos visitá-la! Brazilian Journal of Allergy and Immunology (BJAI), v. 1, n. 6, 2013. Disponível em:
4-Folhetos Informativos em Coloproctologia -SBCP DOENÇA DE CROHN DOENÇA DE CROHN. [s.l.]: , [s.d.]. Disponível em:
5-Interpretação dos resultados. [s.l.]: , [s.d.]. Disponível em: