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Rabdomiossarcoma: subtipos, apresentação clínica e manejo atual

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O rabdomiossarcoma (RMS) compõe o grupo mais frequente de sarcomas de partes moles na infância e adolescência. Embora o tumor também acometa adultos, a incidência reduz drasticamente após a segunda década de vida, o que reforça seu caráter predominantemente pediátrico. Além disso, o RMS surge de células mesenquimais primitivas que mantêm potencial para diferenciação em músculo esquelético. Essa origem explica tanto a versatilidade fenotípica quanto a grande variedade de sítios anatômicos envolvidos.

Como o RMS apresenta comportamento agressivo e evolução rápida, o reconhecimento precoce dos subtipos, dos sinais clínicos e dos critérios diagnósticos se torna fundamental.

Subtipos histológicos do rabdomiossarcoma

A classificação moderna do RMS se baseia tanto em características morfológicas quanto em alterações moleculares. Essa distinção não serve apenas para organização acadêmica; ela influencia diretamente o prognóstico e, consequentemente, a estratégia terapêutica.

Rabdomiossarcoma embrionário (ERMS)

O subtipo embrionário representa a maior parte dos casos pediátricos. Ele surge com maior frequência em cabeça e pescoço, órbita e trato geniturinário. Além disso, o ERMS demonstra padrão histológico que remete a músculo esquelético imaturo em desenvolvimento.

Dentro desse subtipo, duas variantes merecem destaque:

  • Botrióide: costuma envolver superfícies mucosas, especialmente vagina, bexiga e trato biliar. A presença da chamada cambium layer contribui para um prognóstico comparativamente mais favorável. Na imagem observa-se uma lesão de aspecto tumoral em conduto auditivo externo, com mastoidite e fistulização:
Fonte: UpToDate, 2025.
  • Células fusiformes: ocorre mais em meninos e se desenvolve frequentemente em região paratesticular. Essa variante também apresenta desfecho mais positivo do que outras formas do ERMS.

Rabdomiossarcoma alveolar (ARMS)

O subtipo alveolar acomete principalmente adolescentes e adultos jovens. Seu comportamento clínico é mais agressivo e sua resposta às linhas convencionais de tratamento tende a ser menos previsível. Além disso, o ARMS costuma surgir em extremidades, tronco e região perineal.

Do ponto de vista molecular, duas fusões gênicas definem o ARMS clássico:

  • PAX3–FOXO1
  • PAX7–FOXO1

Essas fusões exercem forte impacto prognóstico, pois associam o tumor a maior risco de metástase e menor evolução favorável.

Spindle-cell / Sclerosing rhabdomyosarcoma

Esse subtipo aparece tanto em crianças quanto em adultos. Em crianças, entretanto, sua evolução tende a ser mais branda.

Em adultos, por outro lado, o padrão escleroso se relaciona a evolução mais agressiva. A identificação desse subtipo ajuda a definir abordagem cirúrgica e a necessidade de intensificação de quimioterapia.

Rabdomiossarcoma pleomórfico

O subtipo pleomórfico é raro em pediatria e ocorre quase exclusivamente em adultos. Ele demonstra alto grau de atipia celular e comportamento semelhante ao sarcoma pleomórfico indiferenciado. Portanto, o manejo costuma exigir esquemas terapêuticos mais intensos.

Apresentação clínica do rabdomiossarcoma

A manifestação do RMS varia amplamente conforme idade, localização primária e grau de invasão tumoral. Entretanto, alguns padrões clínicos se repetem e orientam a investigação inicial.

Sítios anatômicos frequentes

Considere os principais grupos anatômicos envolvidos:

  • Cabeça e pescoço: região parameníngea (seios paranasais, nasofaringe, orelha média), órbita e cavidade oral
  • Geniturinário: bexiga, próstata, vagina, vulva e região paratesticular
  • Extremidades: mais comum no subtipo alveolar, com alta taxa de metástase ganglionar
  • Tronco: parede torácica, região perineal e músculos paravertebrais.

A depender da localização, o tumor comprime estruturas adjacentes e gera sintomas específicos.

Sinais e sintomas

A apresentação clínica costuma incluir:

  • Massa de crescimento rápido: geralmente indolor nas fases iniciais
  • Sintomas compressivos: proptose, epífora, obstrução nasal, disfagia, disfonia, retenção urinária, constipação
  • Alterações neurológicas: quando o tumor invade base do crânio ou estruturas parameníngeas
  • Sangramentos: especialmente em tumores geniturinários ou de mucosas
  • Edema e eritema: menos frequentes, mas possíveis em tumores superficiais.

Além disso, o RMS em extremidades geralmente se manifesta como massa endurecida, sem sinais inflamatórios, e deve sempre levantar suspeita.

Disseminação e estadiamento clínico

O RMS metastatiza preferencialmente para:

  • Pulmões
  • Medula óssea
  • Linfonodos regionais
  • Fígado e ossos.

Como o padrão de disseminação varia entre subtipos, a avaliação inicial precisa ser completa.

Diagnóstico e avaliação inicial do rabdomiossarcoma

O diagnóstico adequado depende da integração entre imagem, biópsia e testes moleculares.

Métodos de imagem

A investigação inicial inclui:

  • Ressonância magnética (RM): ideal para tumores de cabeça, pescoço e extremidades
  • Tomografia computadorizada (TC): útil para avaliação de tórax e áreas profundas
  • PET-CT: importante para detecção de metástases e para acompanhamento de resposta terapêutica.

Assim, como o RMS pode infiltrar estruturas complexas, o exame precisa ser interpretado em conjunto com especialista em oncologia pediátrica ou sarcomas.

Confirmação histológica

A biópsia incisional ou core-biopsy confirma o diagnóstico. Além disso, a análise imuno-histoquímica geralmente identifica marcadores como:

  • Desmina
  • Myogenin
  • MyoD1.

Quando o patologista suspeita do subtipo alveolar, testes moleculares para fusões PAX-FOXO1 se tornam fundamentais. Isso porque essas fusões influenciam fortemente o prognóstico.

Estadiamento

Os protocolos internacionais usam três sistemas complementares:

  1. TNM modificado para RMS
  2. Sistema de grupos cirúrgicos do Intergroup Rhabdomyosarcoma Study (IRS)
  3. Estratificação de risco (baixo, intermediário, alto), usada para definir intensidade do tratamento

Essa classificação orienta a escolha de quimioterapia, radioterapia e estratégias cirúrgicas.

Manejo atual do rabdomiossarcoma

O tratamento moderno do RMS combina cirurgia, quimioterapia e radioterapia. A ordem de cada modalidade depende do subtipo, do sítio primário e da ressecabilidade do tumor.

Cirurgia

O objetivo inicial consiste em ressecar completamente o tumor, sempre que possível, sem comprometer função vital ou estética. Entretanto, tumores parameníngeos, orbitários ou pélvicos raramente permitem ressecção completa inicial. Portanto, nesses casos, o tratamento começa com quimioterapia, seguida de avaliação para cirurgia tardia ou radioterapia.

Sempre que o tumor compromete linfonodos regionais, a abordagem cirúrgica deve incluir linfadenectomia direcionada ou biópsia de linfonodo sentinela, especialmente em tumores de extremidades e paratesticulares.

Quimioterapia

A quimioterapia compõe o pilar terapêutico do RMS. Dessa forma, ela combate doença microscópica e reduz massa tumoral, permitindo ressecções mais seguras. Os esquemas mais utilizados incluem:

  • VAC (vincristina + actinomicina D + ciclofosfamida)
  • IVA (ifosfamida + vincristina + actinomicina D)

Além disso, pacientes com doença de alto risco podem receber regimes intensificados, inclusive com adição de doxorrubicina em contextos selecionados.

Radioterapia

A radioterapia complementa o tratamento quando a cirurgia não remove todo o tumor ou quando a biópsia é o único procedimento possível. Tumores parameníngeos, orbitários e de partes moles profundas se beneficiam particularmente dessa modalidade.

Além disso, a radioterapia melhora controle local e reduz risco de recidiva.

Manejo das metástases

A presença de metástase inicial define alto risco. Nesses pacientes, a estratégia terapêutica costuma envolver:

  • Esquemas quimioterápicos intensificados
  • Radioterapia para sítios metastáticos selecionados
  • Cirurgia em metástases pulmonares ou nodais, quando viável.

Dessa forma, ainda que a sobrevida tenha melhorado, pacientes com metástase continuam apresentando prognóstico reservado.

Seguimento, recidiva e novas perspectivas

O acompanhamento prolongado é essencial, porque recidivas podem ocorrer mesmo após tratamento multimodal completo. Além disso, a vigilância precisa considerar toxicidade tardia da quimioterapia e da radioterapia.

Vigilância

O seguimento inclui:

  • Exames físicos periódicos
  • TC ou RM conforme localização primária
  • Exames de tórax seriados
  • PET-CT em casos selecionados.

Como o risco de recidiva concentra-se nos primeiros três anos, o intervalo entre consultas tende a ser menor nesse período.

Recidiva

O manejo da recidiva depende da localização e da extensão. Em muitos casos, combinações de:

  • Resgate cirúrgico
  • Radioterapia adicional
  • Esquemas quimioterápicos de segunda linha.

Novas terapias

Pesquisas recentes exploram:

  • Inibidores de IGF-1R
  • Terapias direcionadas às fusões PAX-FOXO1
  • Imunoterapias
  • Abordagens com CAR-T em estudo precoce.

Assim, a tendência futura aponta para terapias mais individualizadas.

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Referências bibliográficas

  • ARNDt, C. A. Rhabdomyosarcoma in childhood, adolescence, and adulthood: Treatment. UpToDate. Seção atualizada em 2024.
  • WEIGEL, B.; ARNDt, C. A. Rhabdomyosarcoma in childhood and adolescence: Clinical presentation, diagnostic evaluation, and staging. UpToDate. Seção atualizada em 2024.

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