Quem já foi infectado precisa de duas doses da vacina para covid-19? À esta pergunta um estudo publicado na The Lancet buscou respostas, e pretendemos discuti-lo neste post.
Sabemos que a rápida imunização da população, por meio das vacinas, é ponto chave para o controle da pandemia. Nesse sentido, é preciso pensar em estratégias que acelerem e otimizem o processo.
Por que usar apenas uma dose em indivíduos previamente infectados?
A maioria das vacinas de covid-19 usa um esquema de duas doses, chamado prime-boost, para gerar uma resposta imune contra a proteína Spike do vírus SARS-CoV-2. Na tentativa de imunizar um maior número de pessoas, uma estratégia tem sido utilizada em alguns locais: atrasar a segunda dose da vacina.
Não se sabe ainda qual seria o impacto desta medida na proteção efetiva conferida pela vacina, já que na maioria dos estudos com estas foram analisadas respostas produzidas com a administração de duas doses.
Mas, se pensarmos bem, seria razoável imaginar que indivíduos previamente infectados, poderiam ser considerados equivalentes àqueles que receberam uma dose prime da vacina.
Se assim for, a administração da primeira dose da vacina, nestes indivíduos previamente infectados, agiria como a dose boost, ou de reforço, e a segunda dose não se faria mais necessária.
Mas, como tudo em ciência, a mera especulação não pode ser norteadora das ações, é por isso que analisaremos o estudo que buscou responder precisamente a este questionamento.
Estudo de caso-controle com profissionais da saúde
O estudo realizado foi do tipo caso-controle, onde foram analisados dados de 51 profissionais de saúde. Estes dados foram retirados de um estudo observacional longitudinal com profissionais de saúde já em andamento, o COVIDsortium.
Nele, profissionais da saúde de Londres foram submetidos a testes semanais de RT-PCR e dosagem quantitativa sorológica de anticorpos contra proteína Spike (anti-S) do novo coronavírus.
Resultados
Dos 51 profissionais participantes, 24 deles haviam sido já previamente infectados, e 27 permaneceram não expostos ao vírus. Todos os participantes receberam, então, a primeira dose da vacina BNT162b2, a vacina de RNAm da Pfizer.
Entre 19 a 29 dias após a primeira dose, os indivíduos foram novamente testados.
O resultado: as titulações de anticorpos anti-S nos indivíduos previamente não infectados, após a primeira dose da vacina, foram equiparados às titulações encontradas nos indivíduos previamente infectados, antes da vacinação.
E mais: dentre aqueles previamente infectados, a vacinação produziu um aumento de mais de 140 vezes a titulação pré-vacina de anticorpos anti-S. Este aumento é, pelo menos, uma ordem de grandeza maior que o produzido pelo esquema prime-boost de vacinação em indivíduos previamente não infectados.
Implicações dos resultados
Os resultados do estudo possuem implicações muito interessantes e vantajosas na melhor distribuição das vacinas. Uma alternativa ao adiamento da segunda dose seria implementar um sistema de testagem antes da administração da primeira dose da vacina.
Para aqueles indivíduos com evidência laboratorial de infecção prévia pelo SARS-CoV-2, a segunda dose da vacina poderia ser adiada, e indivíduos previamente não expostos ao vírus poderiam ser priorizados na administração da segunda dose.
Esta estratégia poderia acelerar muito a cobertura da vacinação, que é necessária principalemente naqueles locais onde há circulação da variante do vírus, como aqui no Brasil, África do Sul e Reino Unido.
De qualquer forma, ainda restará a seguinte pergunta: a duração da proteção conferida pela dose única em indivíduos previamente infectados será equiparada à duração da proteção conferida pelo esquema de vacinação com duas doses.
Mas os achados sugerem que, no atual momento, adotar a estratégia de dose única para previamente infectados pode ser uma boa solução para a situação emergencial da pandemia.
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Referências
Antibody response to first BNT162b2 dose in previously SARS-CoV-2-infected individuals – THE LANCET