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Quando suspeitar do diagnóstico de hanseníase na prática clínica?

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Hanseníase: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!

A hanseníase é uma doença bacteriana crônica, infectocontagiosa, cujo agente etiológico é o Mycobacterium leprae, que afeta os nervos periféricos e, mais especificamente, as células de Schwann. A doença acomete principalmente os nervos superficiais da pele e troncos nervosos periféricos localizados na face, pescoço, terço médio do braço e abaixo do cotovelo e dos joelhos, mas também pode afetar os olhos e órgãos internos como testículos, ossos, baço, fígado, dentre outros.

Dessa forma, dentre as doenças infecciosas, considera-se a hanseníase como uma das principais causas de incapacidades físicas, em razão do seu potencial de causar lesões neurais. Em 2016, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 143 países reportaram 214.783 casos novos de hanseníase, o que representa uma taxa de detecção de 2,9 casos por 100 mil habitantes. No Brasil, no mesmo ano, notificou-se 25.218 casos novos, perfazendo uma taxa de detecção de 12,2/100 mil habitantes.

O homem é considerado a única fonte de infecção da hanseníase. Assim, o contágio dá-se através de uma pessoa doente, portadora do bacilo de Hansen, não tratada, que o elimina para o meio exterior, contagiando pessoas susceptíveis. Dessa forma, a principal via de eliminação do bacilo, pelo indivíduo doente de hanseníase, considera-se as vias aéreas superiores como a mais provável porta de entrada no organismo. No entanto, para que a transmissão do bacilo ocorra, é necessário um contato direto com a pessoa doente não tratada.

Quadro clínico da hanseníase

A hanseníase manifesta-se através de sinais e sintomas dermatológicos e neurológicos que podem levar à suspeição diagnóstica da doença. Asim, as alterações neurológicas, quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente, podem causar incapacidades físicas que podem evoluir para deformidades.

Sinais e sintomas dermatológicos da hanseníase

A hanseníase manifesta-se através de lesões de pele que se apresentam com diminuição ou ausência de sensibilidade.

As lesões mais comuns são:

  • Manchas pigmentares ou discrômicas: resultam da ausência, diminuição ou aumento de melanina ou depósito de outros pigmentos ou substâncias na pele.
  • Placa: é uma lesão que se estende em superfície por vários centímetros. Pode ser individual ou constituir aglomerado de placas.
  • Infiltração: aumento da espessura e consistência da pele, com menor evidência dos sulcos, limites imprecisos, acompanhando-se, às vezes, de eritema discreto. Pela vitropressão, surge fundo de cor café com leite. Resulta da presença na derme de infiltrado celular, às vezes com edema e vasodilatação.
  • Tubérculo: designação em desuso, significava pápula ou nódulo que evolui deixando cicatriz.
  • Nódulo: lesão sólida, circunscrita, elevada ou não, de 1 a 3 cm de tamanho. É processo patológico que localiza-se na epiderme, derme e/ou hipoderme. Pode ser uma lesão mais palpável que visível.

Essas lesões podem estar localizadas em qualquer região do corpo e podem, também, acometer a mucosa nasal e a cavidade oral. Ocorrem, porém, com maior frequência, na face, orelhas, nádegas, braços, pernas e costas. A sensibilidade nas lesões pode estar diminuída (hipoestesia) ou ausente (anestesia), podendo também haver aumento da sensibilidade (hiperestesia).

Sinais e sintomas neurológicos da hanseníase

A hanseníase manifesta-se, além de lesões na pele, através de lesões nos nervos periféricos. Dessa forma, essas lesões ocorrem devido a processos inflamatórios dos nervos periféricos (neurites), causados tanto pela ação do bacilo nos nervos como pela reação do organismo ao bacilo ou por ambas. Elas manifestam-se através de:

  • Dor e espessamento dos nervos periféricos;
  • Perda de sensibilidade nas áreas inervadas por esses nervos, principalmente nos olhos, mãos e pés;
  • Perda de força nos músculos inervados por esses nervos principalmente nas pálpebras e nos membros superiores e inferiores.

Assim, a neurite geralmente manifesta-se através de um processo agudo, acompanhado de dor intensa e edema. No início, não há evidência de comprometimento funcional do nervo, mas, frequentemente, a neurite torna-se crônica e passa a evidenciar esse comprometimento, através da perda da capacidade de suar, causando ressecamento na pele.

Há perda de sensibilidade, causando dormência e há perda da força muscular, causando

paralisia nas áreas inervadas pelos nervos comprometidos. Quando o acometimento neural não é tratado pode provocar incapacidades e deformidades pela alteração de sensibilidade nas áreas inervadas pelos nervos comprometidos.

Alguns casos, porém, apresentam alterações de sensibilidade e alterações motoras (perda de força muscular) sem sintomas agudos de neurite. Esses casos são conhecidos como neurite silenciosa.

O que não pode faltar na sua consulta?

Anamnese

Deve-se realizar a anamnese conversando com o paciente sobre os sinais e sintomas da doença e possíveis vínculos epidemiológicos.

  • Deve-se escutar o paciente com muita atenção, esclarecendo dúvidas e procurando reforçar a relação de confiança existente entre o indivíduo e os profissionais de saúde.
  • Deve-se registrar cuidadosamente no prontuário todas as informações obtidas, pois elas serão úteis para a conclusão do diagnóstico da doença, para o tratamento e para o acompanhamento do paciente.
  • É importante que seja detalhada a ocupação da pessoa e suas atividades diárias.
  • Além das questões rotineiras da anamnese, deve-se identificar as seguintes questões:
    • Alguma alteração na pele – manchas, placas, infiltrações, tubérculos, nódulos, e há quanto tempo eles apareceram;
    • Possíveis alterações de sensibilidade em alguma área do seu corpo; presença de dores nos nervos, bem como fraqueza nas mãos e nos pés e se usou algum medicamento para tais problemas e qual o resultado.

Avaliação dermatológica

A avaliação dermatológica visa identificar as lesões de pele próprias da hanseníase, pesquisando a sensibilidade nas mesmas. A alteração de sensibilidade nas lesões de pele é uma característica típica da hanseníase.

Deve ser feita uma inspeção de toda a superfície corporal, no sentido crânio-caudal, segmento por segmento, procurando identificar as áreas acometidas por lesões de pele. As áreas onde as lesões ocorrem com maior frequência são: face, orelhas, nádegas, braços, pernas e costas, mas elas podem ocorrer, também, na mucosa nasal.

Devem ser realizadas as seguintes pesquisas de sensibilidade nas lesões de pele: térmica, dolorosa, e tátil, que se complementam.

Avaliação neurológica

Hanseníase é uma doença infecciosa, sistêmica, com repercussão importante nos nervos periféricos. O processo inflamatório desses nervos (neurite) é um aspecto importante da hanseníase. Clinicamente, a neurite pode ser silenciosa, sem sinais ou sintomas, ou pode ser evidente, aguda, acompanhada de dor intensa, hipersensibilidade, edema, perda de sensibilidade e paralisia dos músculos. 

No estágio inicial da doença, a neurite hansênica não apresenta um dano neural demonstrável, contudo, sem tratamento adequado freqüentemente, a neurite torna-se crônica e evolui, passando a evidenciar o comprometimento dos nervos periféricos: a perda da capacidade de suar (anidrose), a perda de pelos (alopecia), a perda das sensibilidades térmica, dolorosa e tátil, e a paralisia muscular.

Os principais nervos periféricos acometidos na hanseníase são os que passam:

  • pela face – trigêmeo e facial, que podem causar alterações na face, nos olhos e no nariz;
  • pelos braços – radial, ulnar e mediano, que podem causar alterações nos braços e mãos;
  • pelas pernas – fibular comum e tibial posterior, que podem causar alterações nas pernas e pés.

Assim, a identificação das lesões neurológicas é feita através da avaliação neurológica e é constituída pela inspeção dos olhos, nariz, mãos e pés, palpação dos troncos nervosos periféricos, avaliação da força muscular e avaliação de sensibilidade nos olhos, membros superiores e membros inferiores.

Investigação e Profilaxia da hanseníase

A investigação epidemiológica de contatos consiste em:

  • Anamnese dirigida aos sinais e sintomas da hanseníase; Exame dermatoneurológico de todos os contatos dos casos novos, independente da classificação operacional;
  • Vacinação BCG para os contatos sem presença de sinais e sintomas de hanseníase no momento da avaliação

É importante ressaltar que a aplicação da vacina não previne o desenvolvimento da doença, mas é utilizada com o propósito de estimular a resposta imune celular:

  • < 1 ano de idade, já vacinados: não revacinar; 1 ano de idade, sem cicatriz ou com uma cicatriz de BCG: aplicar uma dose;
  • 2 cicatrizes de BCG: não revacinar;
  • Cicatriz vacinal incerta: aplicar uma dose independentemente da idade.

Diagnóstico diferencial da hanseníase

As principais doenças de pele que fazem diagnóstico diferencial com hanseníase, são:

  • Pitiríase Versicolor (pano branco) – micose superficial que acomete a pele, causada pelo fungo Ptirosporum ovale. Sua lesão muda de cor quando exposta ao sol ou calor (versicolor). Além disso, ao exame dermatológico há descamação furfurácea (lembrando farinha fina). Sensibilidade preservada.
  • Eczemátide – doença comum de causa desconhecida, ainda é associada à dermatite seborreica, parasitoses intestinais, falta de vitamina A, e alguns processos alérgicos (asma, rinite, etc). No local da lesão, a pele fica parecida com pele de pato (pele anserina: são as pápulas foliculares que acometem cada folículo piloso). Sensibilidade preservada.
  • Tinha do corpo – micose superficial, com lesão hipocrômica ou eritematosa, de bordos elevados. Pode acometer várias partes do tegumento e é pruriginosa. Sensibilidade preservada.
  • Vitiligo – doença de causa desconhecida, com lesões acrômicas. Sensibilidade preservada.

As lesões neurológicas da hanseníase podem ser confundidas, entre outras, com as de:

  • síndrome do túnel do carpo;
  • neuralgia parestésica;
  • neuropatia alcoólica;
  • neuropatia diabética;
  • lesões por esforços repetitivos (LER).

Diagnóstico da hanseníase

O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico e epidemiológico, realizado por meio da anamnese, exame geral e dermato-neurólogico para identificar lesões ou áreas da pele com alteração de sensibilidade e/ou comprometimento de nervos periféricos, com alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas.

De acordo com o 8° Comitê de Hanseníase da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2012, o diagnóstico de hanseníase deve ser suspeitado em indivíduos que apresentem os seguintes sinais ou sintomas:

  • Manchas pálidas (hipocrômicas) ou avermelhadas na pele;
  • Sensação de formigamento em mãos e pés;
  • Dor ou sensibilidade na topografia dos nervos periféricos;
  • Aumento do volume facial ou dos lóbulos da orelha;
  • Feridas indolores em mãos e pés.

O Ministério da Saúde do Brasil definiu como caso de hanseníase o indivíduo que apresente um ou mais dos seguintes sinais cardinais e que necessita de tratamento poliquimioterápico:

  • lesão(ões) e/ou área(s) da pele com alteração da sensibilidade térmica e/ ou dolorosa e/ou tátil; ou
  • espessamento de nervo periférico, associado a alterações sensitivas
  • e/ou motoras e/ou autonômicas; ou
  • presença de bacilos M. leprae, confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele.

Perguntas frequentes

  1. O que é?

Hanseníase é uma infecção crônica normalmente causada pelo bacilo álcool-ácido resistente Mycobacterium leprae, que apresenta um tropismo incomparável pelos nervos periféricos, pele e mucosas do trato respiratório superior. 

2. Como se caracteriza?

Os sintomas são múltiplos, inclusive lesões cutâneas, polimórficas anestésicas e neuropatia periférica.

3. Qual o tratamento?

O tratamento é feito com dapsona combinada a outros fármacos antimicobacterianos. Os pacientes tornam-se rapidamente não contagiosos após o início da terapia.

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Referência bibliográfica

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema de Informação de Agravos Notificáveis/SINAN. Registro ativo: número e percentual. Casos novos de hanseníase: número, coeficiente e percentual, faixa etária, classificação operacional, sexo, grau de incapacidade, contatos examinados, por estados e regiões. Brasília: SINAN; 2017. [acesso em 2024 Out. 26].

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