O SARS-CoV-2 pode afetar o cérebro e até causar sequelas neurológicas permanentes. Entenda os efeitos da Covid-19 no cérebro e quais são os achados típicos.
Introdução
Sabe-se que os indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2 geralmente desenvolvem sintomas respiratórios, principalmente. Entretanto, esses pacientes podem ter manifestações extrapulmonares, incluindo complicações neurológicas, tais como: delirium, anosmia, encefalopatia, convulsões, síndrome de Guillain-Barré, entre outras. Um estudo recente mostrou que aproximadamente 85% dos pacientes que tiveram sintomas prolongados da Covid-19 passaram a apresentar quatro ou mais sequelas neurológicas.
Fisiopatologia
As complicações cerebrais da Covid-19 ocorrem por mecanismos complexos, multifatoriais e ainda não totalmente elucidados. Todavia, sabe-se que a enzima conversora de angiotensina tipo 2 (ECA-2) – que pode ser encontrada em células endoteliais dos capilares cerebrais, em neurônios, astrócitos, bem como em outras células nervosas -, atua como uma porta de entrada para o SARS-CoV-2. Assim, quando a proteína spike (encontrada na superfície viral) acopla-se à ECA-2, ocorre um processo inflamatório mediado pelo vírus, desencadeando uma tempestade de citocinas. Com isso, são gerados edemas, aumento da permeabilidade vascular, cascatas de hipercoagulabilidade e danos a múltiplos órgãos.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32538857/#&gid=article-figures&pid=fig-1-uid-0
Quando as partículas virais infectam os astrócitos, elas começam a se replicar e danificar o cérebro, uma vez que essas células são responsáveis pela estabilidade sináptica, regulação da neurogênese, integração da barreira hematoencefálica e atuação no metabolismo de neuromediadores. Uma vez que os astrócitos são afetados, desencadeia-se um aumento de apoptose neuronal e, por conseguinte, ocorrem alterações na espessura do córtex cerebral.
Dessa maneira, alguns pacientes passam a manifestar sintomas neuropsiquiátricos, cefaleia, déficits nas memórias de curto prazo e operacional, sonolência diurna e perda de libido. Esses distúrbios ocorrem devido aos danos à substância cinzenta ocasionados pela inflamação e alterações hemodinâmicas secundárias ao processo infeccioso.
Outra possível manifestação neurológica é a síndrome de Guillain-Barré, que costuma ocorrer após processos infecciosos. Isso significa que, após a infecção pelo SARS-CoV-2, há um fenômeno de “mimetismo molecular” imunomediado, ou seja, uma reatividade cruzada de imunoglobulinas naturais – que pode lesionar nervos cranianos e periféricos, bem como os músculos do paciente, causando astenia, hiporreflexia, parestesia, entre outros sintomas decorrentes da polineuropatia inflamatória.
Achados cerebrais em autópsias
Em setembro de 2020, um estudo realizado em Massachusetts apresentou uma importante discussão sobre achados nas autópsias de casos fatais da COVID-19.
Quanto à macroscopia, as autópsias evidenciaram inúmeras descobertas, com destaque para hemorragias e edemas cerebrais, processos neurodegenerativos, doenças desmielinizantes, leptomeninges purulentas e ateroscleroses, principalmente. As hemorragias costumam ser as anormalidades mais predominantes, variando desde sangramentos petequiais multifocais e hemorragias subaracnóideas, até grandes hemorragias cerebrais e cerebelares.
Os achados microscópicos, por sua vez, indicaram arteriosclerose, neurodegeneração, microglioses e astrocitoses, AVEs crônicos e subagudos, encefalopatia, lesões hipóxico-isquêmicas, tampões neutrofílicos e infiltrados linfocitários.
É importante mencionar que considerável parte da população estudada já possuía comorbidades e que, com o processo infeccioso, possivelmente houve uma exacerbação de quadros clínicos já preexistentes em cada paciente.
Achados em exames de imagem
Outro estudo, este realizado na França, analisou exames de imagem de 69 pacientes com sintomas neurológicos. Onze desses pacientes (16%) apresentaram espessamentos de parede arterial típicos de quadros de vasculite cerebral. As artérias cerebrais médias, posteriores e basilar foram as mais acometidas e, em nove desses casos, foram visualizadas complicações hemorrágicas ou isquêmicas.
Logo, pode-se considerar que a vasculite cerebral é um dos mecanismos que originam os danos cerebrais relacionados à Covid-19, uma vez que a ECA-2 é expressa também pelas células endoteliais, conforme citado anteriormente.
Em decorrência dos processos inflamatórios e do risco aumentado de desenvolvimento de trombose – secundário a lesões endoteliais, estase e hipercoagulabilidade -, o achado mais comum verificado na literatura até então é o infarto agudo ou subagudo. A figura 2 ilustra um caso de infarto agudo com micro hemorragias.

http://www.ajnr.org/content/41/12/2199.long
Considerações finais
Os efeitos da Covid-19 no cérebro são complexos e podem ocorrer principalmente pela formação da tempestade de citocinas, de coágulos sanguíneos, por danos causados pelo próprio SARS-CoV-2 e também por mimetismo molecular, como explicado anteriormente. Ainda são necessários maiores estudos sobre os processos de deterioração cerebral promovidos pela Covid-19, mas já é possível estabelecer uma padronização dos danos cerebrais verificados, considerando a individualidade de cada paciente.
Autor: Marcelo Queiroz Alves
Instagram: @marceloqa
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