A anemia é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a condição na qual o conteúdo de hemoglobina (Hb) no sangue está abaixo do normal – considerando-se o limiar de hematócrito (Ht) ou (Hb) abaixo de dois desvios padrão da média da população normal.
Elas variam de acordo com sexo, raça e a altitude em relação ao mar, e tem origem multifatorial, sendo causadas por deficiência de vários nutrientes como ferro, zinco, vitamina B12 e proteínas ou, ainda, por perdas sanguíneas, processos infecciosos e patológicos concomitantes e uso de medicações especificas que impeçam ou prejudiquem a absorção do ferro.
Estima-se que quase dois bilhões de pessoas em todo o mundo apresentam anemia e sua principal causa é a deficiência de ferro, estando associada a mais de 60% dos casos mundiais.
No Brasil, em 2006, a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS) demonstrou prevalência de 20,9% de anemia nas crianças de 6 a 59 meses, sendo que na região Nordeste ocorreu a maior frequência (25,5%).
1.1 Classificação
As anemias podem ser classificadas do ponto de vista fisiológico e morfológico:
Fisiológico: alterações na produção efetiva dos eritrócitos, na qual a taxa de produção está diminuída, e nos distúrbios em que há destruição ou perda de eritrócitos.
Morfológico: baseia-se no volume corpuscular médio (VCM) dos eritrócitos, no qual as anemias podem ser dívidas em:
- Microcíticas (VCM abaixo do normal para sexo e idade);
- Macrocíticas (VCM acima do valor esperado para sexo e idade);
- Normocítica (VCM dentro dos vamos da normalidade).
1.2 Diagnóstico
Abordagem inicial do paciente com anemia inclui a anamnese e o exame físico detalhados, visando identificar sua possível etiologia; idade, sexo, raça/etnia, sinais/sintomas, fatores dietéticos, história familiar e uso de medicamentos podem sugerir a etiologia do problema. Algumas crianças podem apresentar sinais e sintomas gerais, como palidez das mucosas, fadiga, cansaço, anorexia e irritabilidade.
Apesar de uma boa anamnese e exame físico sugerirem uma hipótese diagnóstica, o diagnóstico só pode ser confirmado por exames laboratoriais. A avaliação clínica não é o suficiente para detecção de casos precocemente, uma vez que os sinais clínicos se tornam visíveis apenas depois da condição instalada ou quadro de deficiência já intenso, com consequências graves e de longa duração.
Assim, o diagnóstico precoce é fundamental para a aplicação de tratamentos eficazes. Os exames laboratoriais de rotina para diagnóstico e para a profilaxia da anemia são preferencialmente o hemograma completo (com parâmetros hematimétricos), contagem de reticulócitos e ferritina.
O uso da ferritina como marcador da fase de depleção é essencial, porque, quando há intervenção nesta fase, os resultados são de possível profilaxia dos déficits cognitivos.
O diagnóstico da anemia por valor de hemoglobina deve ser feito pelas faixas de normalidade para cada idade e não por valor absoluto. O critério para ferritina é que a criança deve ter valores acima de 30ug/dL. Valores inferiores a 15ug/dL indicam deficiência grave e valores intermediários devem ser avaliados após suplementação com ferro. O teste do pezinho (triagem neonatal) também deve ser utilizado para descartar causas genéticas de anemia.
Repercussões da anemia para a saúde
A anemia ferropriva tem efeito no crescimento e desenvolvimento de populações em risco, por afetar grupos em idade de crescimento e comprometer o desenvolvimento cerebral.
Desde o período pré-natal, tem repercussões importantes e deletérias de longo prazo no desenvolvimento de habilidades cognitivas, comportamentais, linguagem e capacidades motoras das crianças, visto que o possível impacto negativo permanece mesmo após o tratamento precoce por décadas, especialmente em crianças pouco estimuladas ou de baixo nível social e econômico – que já são as mais afetadas pela anemia.
A carência de ferro na infância também predispõe a cáries dentárias, menor discriminação e identificação de odores em comparação aos grupos de controle, alterações na imunidade não específica, paladar e apetite; resposta alterada ao estresse metabólico e desenvolvimento audiovisual.
Tratamento
As ações para prevenção e tratamento não medicamentoso da anemia ferropriva preveem o estímulo ao acesso universal, à alimentação adequada, ao aleitamento materno exclusivo e prolongado, de forma a aumentar o consumo de alimentos fontes de ferro, bem como de alimentos que aumentam a biodisponibilidade e a sua absorção.
A contraindicação de uso de leite de vaca in natura, não processado, em pó ou fluído antes dos 12 meses também é uma estratégia reconhecidamente protetora contra a deficiência de ferro e o desenvolvimento de anemia ferropriva, devendo ser continuamente incentivada.
No Brasil, há políticas para suplementação de ferro atingindo crianças de 6 a 24 meses de idade, gestantes e lactantes até o terceiro mês pós-parto, com suplementação profilática com sulfato ferroso via oral.
Segundo o programa, crianças entre 6 e 24 meses devem ser suplementadas com sulfato ferroso na dosagem de 1mg/kg peso/dia. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta a suplementação profilática com dose de 1mg de ferro elementar/kg ao dia, dos 3 aos 24 meses de idade, independentemente do regime de aleitamento.
Para lactentes nascidos pré-termo, a recomendação é de suplementação com 2mg/kg/dia a partir do trigésimo dia até os 12 meses de idade. Já os prematuros com baixo peso, a recomendação de suplementação é de 3mg/kg/dia até os 12 meses e, para os recém-nascidos com menos de 1000g, de 4mg/kg/dia.
Após o primeiro ano de vida, a suplementação em todos os casos reduz-se para a dose de 1mg/kg/dia por mais 12 meses. A dose de suplementação profilática com ferro elementar é diferenciada para crianças entre 2 e 12 anos residentes em regiões com prevalência de anemia ferropriva superior a 40%.
O planejamento do tratamento medicamentoso deve ser pautado na confirmação diagnóstica e identificação da etiologia da anemia, seguida pela correção da causa primária. A escolha da preparação de ferro vai depender da gravidade da doença e da tolerância do paciente ao ferro oral que, por ser eficaz e barato, é considerado a primeira linha de tratamento.
Para bebês recém-nascidos e crianças com anemia leve microcítica e diagnóstico de anemia ferropriva, a melhor indicação é dar ferro empiricamente e avaliar a resposta.
Para as crianças com diagnóstico confirmado, o sulfato ferroso é a melhor opção de tratamento com doses recomendadas de 3 a 6mg/kg/dia de ferro elementar, dependendo da gravidade da anemia.
A dose de ferro depende do sal utilizado na suplementação, e sua escolha deve ser pautada nos padrões de absorção de sal, no grau de resposta em relação ao tempo, e na menor ocorrência de efeitos colaterais (sugere-se prioritariamente o uso de sais quelatos-bisglicinatos ou ferro polimaltosado, inclusive nos programas de suplementação profilática da rede pública, visando a redução dos efeitos colaterais que causam a baixa adesão ao programa).
O sulfato ferroso poderia ser a escolha entre as opções na inexistência de sais férricos, monitorando-se a adesão ao programa pela grande quantidade de ocorrência de efeitos colaterais, mesmo em doses baixas.
A monitorização do quadro deve ser realizada pelos parâmetros laboratoriais de reticulócitos, hemograma completo a cada 30 a 60 dias e dosagem de marcadores do estoque de ferro-ferritina, com 30 e 90 dias, sendo que o tratamento deve durar até a reposição dos estoques de ferro, quase sempre por volta dos seis meses de tratamento.
Autora: Rúbia Jocken Jeronimo – estudante de medicina.
Instagram: @rubiajocken
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