É uma fase crítica, no qual a mulher e seu recém-nascido
passam por uma intensa transição. Em relação ao tardio, muitos estão
relacionando o período de isolamento social e quarentena com esse período do
ciclo gravídico-puerperal, o chamado puerpério.
À parte dessa “polêmica”, vamos conversar um pouco sobre ele e sobre a nova
política de muitas maternidades quanto a duração do tempo de observação
hospitalar nessa etapa.
O puerpério é o período pós-parto, que se define a partir do final do terceiro período do parto, quando há a expulsão (dequitação placentária). Nesse momento, imediatamente é avaliado o canal (trajeto) de parto e realizadas as correções – suturas – que se fizerem necessárias. Além disso, caso ocorra algum sinal de retenção placentária, pode ser procedida à curagem ou curetagem uterina. Além disso, é possível também a inserção de DIU pós-parto, sendo um momento ideal para sua colocação.
Entre
outros pontos técnicos, como a necessidade de vigilância na primeira hora,
inicialmente, e a averiguação da boa retração uterina, vamos conversar sobre
como está o manejo desse período nas maternidades brasileiras atualmente.
Com o risco já presente devido à transmissão comunitária do SARS-CoV2 no Brasil, é importante ter em mente que as grávidas não estão imunes – assim como ninguém está – exceto os que já se curaram. Tampouco seus acompanhantes e parceiros estão.
Desse modo, a mulher, antes gestante e agora puérpera e seu(s) recém-nascidos(os) também estão expostos. No hospital é muito provável que haja uma chance maior de infecção – tomemos como exemplo o caso do Rio Grande do Norte, onde 37% dos infectados são da área da saúde.
Assim,
surgem em várias maternidades pelo país, estratégias de redução de exposição de
riscos à essas puérperas e seus recém-nascidos e acompanhantes. Uma das medidas é autorizar a alta de puérperas e recém-nascidos de partos de risco habitual por via vaginal com 24h, para reduzir esse tempo de exposição do binômio à contaminação hospitalar.
É também possível alta hospitalar com menos de 48h, também nas mesmas condições e que estejam com boa evolução. Desse modo, essas estratégias vão ao encontro de uma portaria que não é tão recente assim, a Portaria Nº 2.068, de 21 de outubro de 2016, do Ministério da Saúde, que traz, entre outros requisitos para alta, esse, para a mãe:
“I – puérpera: (i) em bom estado geral, com
exame físico normal, sem sinais de infecção puerperal/sítio cirúrgico, com
loquiação fisiológica; (ii) sem intercorrências mamárias como fissura,
escoriação, ingurgitamento ou sinais de mastite, e orientada nas práticas de
massagem circular e ordenha do leite materno; (iii) com recuperação adequada,
comorbidades compensadas ou com encaminhamento assegurado para seguimento
ambulatorial de acordo com as necessidades; (iv) bem orientada para
continuidade dos cuidados em ambiente domiciliar e referenciada para Unidade
Básica de Saúde (retorno assegurado até o 7º dia após o parto); (v)
estabelecimento de vínculo entre mãe e bebê; (vi) com encaminhamento para
unidade de referência para acesso a ações de saúde sexual e reprodutiva e
escolha de método anticoncepcional, caso a mulher não receba alta já em uso de
algum método contraceptivo, ou para seguimento pela atenção básica da
prescrição ou inserção de método pela equipe da maternidade;”
Portanto, não se espante, caso você seja uma puérpera nesses tempos de coronavírus e pense que esteja indo para casa “cedo”. Há casos ainda de liberação e alta hospitalar mais precoce, como o exemplo da princesa do Reino Unido, Kate, que foi para sua residência após 7h de seu parto normal. Naquele caso em específico, havia também a necessidade de evitar a aglomeração de súditos nas periferias do hospital e ela tem um bom suporte clínico que daria a segurança de rapidamente ser avaliada.
É importante lembrar, por exemplo, dos riscos de hemorragia pós-parto – a principal causa, por atonia uterina ocorre na primeira hora pós-parto (80%) e 20% ocorre nas 23h horas seguintes. Então parece uma medida bem sensata nesses novos tempos.
Um abraço e se possível, fiquem em casa!
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Autor: Érico Lucas, Médico
Instagram: @ericolucasoliveira