Introdução
A pandemia de COVID-19 trouxe, para os cientistas do mundo inteiro, diversos desafios: lutar contra um inimigo desconhecido, contra uma doença para a qual não se conhecia nenhuma cura, e contra o tempo. Era necessário produzir, o mais rápido possível, conhecimento suficiente para enfrentar a pandemia. E assim foi feito. Através de diversas pesquisas, em tempo recorde, surgiram algumas vacinas, que começaram a ser aplicadas após menos de um ano do início da crise.
Entretanto, ao mesmo tempo que a sociedade se reorganizou o mais rapidamente possível para lidar com a ameaça pandêmica, o vírus também mudou – e muda, constantemente. Diversas variantes do SARS-CoV-2 já foram relatadas: algumas mais virulentas, outras mais infecciosas e algumas delas, inclusive, resistentes às vacinas que existem atualmente. A variante Delta, por exemplo, mostrou-se mais contagiosa e relativamente resistente a algumas vacinas, o que fez com que o governo estadunidense voltasse atrás em algumas de suas recomendações: em estados onde o uso de máscaras já não era mais exigido, voltou-se a recomendar tal medida. Esse cenário trouxe desânimo para a população, que viu o sonho do fim da pandemia ficar mais distante do que antes: se novas variantes resistentes continuarem surgindo, a pandemia continuará se estendendo por tempo indeterminado. Então, como evitar um círculo vicioso, em que não consigamos nos livrar do cenário da pandemia?
Para além da vacinação
Um estudo publicado na revista Nature evidenciou que o uso de máscaras, álcool em gel e o distanciamento social ainda são essenciais, mesmo durante a vacinação. Isso porque, em áreas onde a maioria da população está vacinada, a cepa resistente à vacina possui uma vantagem sobre a cepa original. Portanto, esta cepa teria o poder de se espalhar pela população muito rapidamente. O ideal, então, seria evitar que estas novas variantes – em especial as resistentes à vacinação – fossem transmitidas. E, o único método conhecido atualmente para evitar a transmissão é o distanciamento social e o uso de máscaras.
Desse modo, valendo-se destes meios de proteção, poderíamos inclusive remover estas mutações resistentes de circulação. O virologista do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, José Eduardo Levi, afirma que as variantes do coronavírus podem surgir em qualquer lugar, mas que, se o vírus não tiver condições de se proliferar, desaparecerá. Daí a importância de continuar os cuidados para evitar a proliferação do patógeno.
A situação brasileira
No Brasil, entretanto, o cenário está longe de ser ideal. Com o número de casos em queda, mas ainda bastante elevado; a flexibilização das medidas de restrição; a falta de acompanhamento das mutações; e a progressão lenta da vacinação, o país oferece terreno fértil para a disseminação de variantes. Mas esta inadequação não é de agora: desde o início da pandemia, a população brasileira vem se comportando de maneira preocupante com relação às medidas de prevenção. No entanto, a vacinação tem dado uma falsa sensação de segurança, o que tem piorado a situação, que já era ruim.
Além da falta de medidas de prevenção, um outro fator que favoreceria o surgimento e a proliferação de variantes perigosas seria o atraso em completar a vacinação. Alguns países adotaram a postura de atrasar a segunda dose de vacinação, a fim de vacinar mais pessoas, de modo incompleto, em um período de tempo menor. No entanto, virologistas alertam que essa estratégia poderia estimular mutações nos vírus, derivadas da imunidade parcial da população. Essas mutações, eventualmente, poderiam dizimar a eficácia das vacinas, antes mesmo que a população receba a segunda dose.
No entanto, nem tudo são más notícias: as vacinas disponíveis atualmente têm se mostrado eficazes para a grande maioria das cepas novas. No início do mês de julho, por exemplo, na Europa, todas as variantes circulantes estavam cobertas pelas quatro vacinas disponíveis no continente (Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Johnson & Johnson).
Conclusões
Embora o momento seja de continuar os cuidados de prevenção, não há motivo para alarmar-se. Até agora, as variantes existentes não demonstraram resistência completa às vacinas disponíveis. Elas deixarão de ser efetivas caso existam mutações significativas nas proteínas de superfície do vírus. No entanto, quanto mais o vírus circula na sociedade, mesmo entre vacinados, mais chance de surgirem novas variantes. E, com a vacinação incompleta, essas novas variantes têm mais possibilidade de serem resistentes às vacinas atuais. É possível, por conta do perfil do vírus, que novas vacinas precisem ser desenvolvidas para cobrir as mutações futuras.
A OMS recomenda, portanto, que algumas medidas sejam tomadas de modo a impedir a transmissão e o surgimento de novas variantes, mesmo durante a vacinação: identificar as novas variantes o máximo possível, através de pesquisa e sequenciamento genético, de modo a “conhecer o inimigo”; manter as medidas de distanciamento social, evitando eventos de grande porte e aglomerações; manter a higiene pessoal; e incentivar o uso de máscaras. Apesar desse plano de contingência sugerido pela OMS, é importante salientar o Brasil ainda não apresentou um plano nacional específico para as variantes.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Somente a vacinação não é suficiente para impedir a propagação de variantes: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/07/30/somente-a-vacinacao-nao-e-suficiente-para-impedir-a-propagacao-de-variantes
Rates of SARS-CoV-2 transmission and vaccination impact the fate of vaccine-resistant strains: https://www.nature.com/articles/s41598-021-95025-3
Brasil, um possível celeiro de novas variantes do coronavírus: https://saude.abril.com.br/medicina/brasil-um-possivel-celeiro-de-novas-variantes-do-coronavirus/
Estratégia de vacinação gera receio sobre caldo de cultivo para novas variantes resistentes do coronavírus: https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-01-11/estrategia-de-vacinacao-gera-receio-sobre-caldo-de-cultivo-para-novas-variantes-do-coronavirus.html
Duas doses de vacina mostram eficiência contra variante delta, diz agência: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/afp/2021/07/01/duas-doses-de-vacina-mostram-eficiencia-contra-variante-delta-diz-agencia.htm
“Como as novas variantes do coronavírus afetam a vacinação?”: cientistas da UFPR respondem novas dúvidas da sociedade: https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/como-as-novas-variantes-do-coronavirus-afetam-a-vacinacao-cientistas-da-ufpr-respondem-novas-duvidas-da-sociedade/
O que se sabe sobre as vacinas e a variante Delta da COVID-19: https://www.istoedinheiro.com.br/o-que-se-sabe-sobre-as-vacinas-e-a-variante-delta-da-covid-19/
Variante delta da COVID-19: 8 fatos sobre a maior preocupação da pandemia: https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/variante-delta-da-covid-19-8-fatos-sobre-a-maior-preocupacao-da-pandemia/
Variante Delta obriga EUA a retomarem uso de máscara para vacinados: https://canaltech.com.br/saude/variante-delta-obriga-eua-a-retomarem-uso-de-mascara-para-vacinados-191031/