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Promoção e Prevenção à Saúde |Colunistas

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Curar ou prevenir? Por muitos anos, a medicina teve um foco mais curativo, visando apenas tratar quem adoecia. Felizmente, essa visão tem se modificado ao longo dos anos, e cada vez mais temos nos preocupado em prevenir doenças antes que aconteçam, atuando em seus fatores de risco e lesões precursoras… isso, além de mais eficaz, é mais barato!

Modelo de Leavell e Clark

A história natural da doença é dividida em período pré-patogênico, onde atua a prevenção, e período patogênico, no qual a doença já está instalada.

De acordo com essa evolução, temos níveis de prevenção:

– no período pré-patogênico, está a prevenção primária
– no período patogênico, estão a prevenção secundária e a prevenção terciária

  • Prevenção Primária
    Consiste em ações para evitar que uma doença ocorra.
    Divide-se em:
    1. Prevenção primordial = objetiva evitar o surgimento de fatores de risco.
    2. Promoção da saúde = ações que agem nos condicionantes e determinantes sociais de saúde, como atividade física, alimentação saudável etc.
    3. Proteção específica = medidas que aumentam a resistência do indivíduo ou diminuem seu nível de exposição, direcionadas a uma doença específica, como vacinas ou equipamentos de proteção individual.
  • Prevenção secundária
    Consiste em diagnosticar a doença precocemente, em um estágio inicial, possibilitando tratamento precoce (mais simples e mais efetivo).
  • Prevenção terciária
    Consiste em ações que visam reduzir as complicações da doença e melhorar a qualidade de vida do paciente com determinada doença.

Programa Nacional de Imunizações (PNI)

A vacinação é uma das formas mais efetivas de prevenção de doenças, especialmente das formas graves. E não são só crianças que tomam vacinas! Por isso, é fundamental estar atento ao calendário vacinal de todos os pacientes que atendemos.

VACINA TIPO DOSES E INDICAÇÕES
Hepatite B Inativada 3 doses (0, 1, 6 meses)
Realizar 4ª dose se anti-HbS <10; se ainda <10, completar mais 2 doses.
Febre amarela Vírus vivo atenuado Dose única (5-59 anos)
Dupla adulto (dT) Inativada 3 doses (0, 2, 4 meses) + reforço a cada 10 anos
Influenza Inativada Anual (SUS: crianças de 6 meses a 6 anos, idosos e outros grupos de risco, como gestantes, puérperas, profissionais da saúde, professores, indígenas e indivíduos com doenças crônicas)
Tríplice viral (SCR) Vírus vivo atenuado Até 29 anos: 2 doses (0, 1 mês)
30-59 anos: 1 dose (se não vacinado antes)
Pneumocócica 23 Inativada 1 dose e 1 reforço (0, 5 anos)
SUS: idosos e pessoas com risco elevado de doença pneumocócica (diabetes, asplenia etc)

Programas de rastreios populacionais

São sistematizados para a detecção precoce de uma doença, com objetivo de diminuir sua mortalidade.
Para que uma doença seja incluída em um programa de rastreio, ela deve preencher a alguns critérios:
1. Deve ser um problema importante de saúde pública, o que é avaliado por sua prevalência, capacidade de causar danos e possibilidade de tratamento
2. Sua história natural deve ser bem conhecida
3. Deve haver um estágio assintomático (pré-clínico) onde possa ser detectada
4. O benefício em diagnosticá-la precocemente deve ser maior do que se fosse diagnosticada após apresentar sintomas
5. Os exames para detectá-la devem ser disponíveis, aceitáveis e confiáveis
6. O custo do rastreamento deve ser razoável e compatível com o orçamento do sistema de saúde
7. O rastreamento deve ser um processo contínuo e sistemático

Vamos abordar as indicações de rastreio do Ministério da Saúde, usadas no SUS, e do USPSTF (US Preventive Service Task Force), usadas mundialmente e em alguns serviços particulares no Brasil.

Ministério da Saúde Task Force
HAS A partir de 18 anos: a cada 2 anos se PA < 120×80 / anual se PAS 120-139 ou PAD 80-90 Anual a partir de 18 anos
Dislipidemia A partir de 35 anos para homens e 45 anos para mulheres: a cada 5 anos Não recomenda
Diabetes mellitus Adultos com PA > 135×80: sem periodicidade definida, mas o exame de escolha é a glicemia de jejum Adultos de 40-70 anos com IMC > 25; ou < 40 anos com fator de risco: periodicidade sugerida de 3 em 3 anos, com glicemia de jejum, TTOG ou hemoglobina glicada
Câncer de mama Mulheres de 50-69 anos (a partir dos 35 anos se fator de risco): mamografia a cada 2 anos Mulheres de 50-74 anos: mamografia a cada 2 anos
Câncer de próstata Não recomenda Individualizar a decisão, compartilhando os prós e contras com o paciente de 55 a 69 anos
Câncer de colo uterino Mulheres de 25-65 anos com vida sexual ativa: 2 colpocitologias oncóticas anuais consecutivas; se ambas normais, coletar a cada 3 anos Mulheres a partir de 21 anos, com colpocitologia oncótica a cada 3 anos, ou teste DNA para HPV a cada 5 anos (a partir dos 30 anos)
Câncer colorretal 50-75 anos ou enquanto a expectativa de vida for > 10 anos: pesquisa de sangue oculto nas fezes anual ou retossigmoidoscopia a cada 5 anos ou colonoscopia a cada 10 anos.
Se 2 parentes de 1º grau com CA colorretal ou 1 parente de 1º grau com CA colorretal ou pólipos adenomatosos antes dos 60 anos, solicitar colonoscopia a cada 5 anos a partir dos 40 anos
Início aos 45 anos: colonoscopia a cada 10 anos ou retossigmoidoscopia a cada 5 anos ou colonografia por TC a cada 5 anos ou pesquisa de testes fecais anuais
Câncer de pulmão Não recomenda 50-80 anos com carga tabágica ≥ 20 anos-maço, fumante ou ex-fumante há menos de 15 anos: TC tórax anual
Aneurisma de aorta abdominal Não recomenda Homens de 65-75 anos que já fumaram devem fazer USG abdominal ao menos 1 vez na vida
Osteoporose Não recomenda Mulheres > 65 anos ou < 65 anos se grupo de risco: densitometria óssea a cada 2 anos
Infecções sexualmente transmissíveis Não recomenda 15-65 anos ou qualquer faixa etária com comportamento de risco: anti-HIV, VDRL, HbSAg, anti-HCV em intervalo de 3 a 5 anos

Você sabe por que o rastreio do câncer de próstata deixou de ser recomendado?
Estudos mostram que homens com idade entre 55 e 69 anos que fazem PSA e toque retal de rotina podem ter um pequeno benefício, porém os riscos para a saúde são mais frequentes!
De 1000 homens nessa faixa etária que realizam esses exames de rotina por 13 anos:
– 178 poderão ter um resultado alterado, realizar biópsia e descobrir após, que não têm câncer de próstata
– 100 confirmarão câncer de próstata, sendo que 50% desses cânceres serão de crescimento lento e não ameaçador à vida
– 5 morrerão de câncer de próstata mesmo após o tratamento
– 1 poderá ter a morte evitada
Assim, esse rastreio aumenta a morbimortalidade desses pacientes, pois poucos indivíduos têm a morte evitada graças ao rastreio, mas muitos pacientes adquirem sequelas por causa das intervenções realizadas após o rastreio! Por exemplo, de 100 homens submetidos a cirurgia de próstata, 60 podem ter impotência sexual e 20, incontinência urinária.

Conclusão

A medicina preventiva exige investimento inicial em programas de rastreio e programas de promoção da saúde, mas com o passar do tempo, esse investimento se converte em uma redução do número de doentes crônicos, do número de hospitalizações, entre outros. Por isso, é uma ótima estratégia de saúde pública para controlar os custos assistenciais, além de ser melhor para os indivíduos, que ganham mais qualidade de vida e evitam doenças, as quais trazem não apenas malefícios físicos, mas também psicológicos e sociais.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

https://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstf/recommendation-topics/uspstf-and-b-recommendations

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_primaria_29_rastreamento.pdf

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2476910/mod_resource/content/1/Leavell%20%20Clark.pdf

https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document/apoio_decisao_cancer_prostata_2019_0.pdf

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