Confira o artigo do Dr. Alexandre Câmara sobre os princípios da hormonização e a abordagem de pessoas transexuais.
A atuação da endocrinologia é fundamental na abordagem da pessoa trans para garantir um seguimento seguro e eficaz, uma vez que entender e abordar as suas necessidades específicas exige uma atenção clínica e metabólica refinada.
O papel da endocrinologia vai além da simples prescrição hormonal. Ele engloba:
- Avaliação hormonal: Esta é a base para qualquer intervenção. Determinar os níveis hormonais atuais e os objetivos desejados é essencial para personalizar o tratamento.
- Gestão da terapia hormonal: O endocrinologista deve não apenas prescrever, mas também monitorar a resposta do corpo à terapia, ajustando as dosagens conforme necessário e assegurando que os efeitos colaterais sejam minimizados.
- Educação do paciente: É imperativo que os pacientes compreendam como os hormônios afetarão seu corpo. Isso inclui mudanças físicas, emocionais e metabólicas. O médico deve garantir que o paciente esteja bem informado sobre o que esperar e como gerenciar possíveis desafios.
- Discussão sobre fertilidade: Muitas intervenções hormonais podem impactar a fertilidade. O endocrinologista deve discutir opções para preservá-la, caso o paciente deseje ter filhos no futuro.
- Coordenação de cuidados: A abordagem deve ser holística. Isso significa coordenar com outros especialistas, garantindo que todas as necessidades médicas e emocionais do paciente sejam atendidas. A atenção primária à saúde, por exemplo, é fundamental para evitar comorbidades.
Embora a taxa de mortalidade entre os transgêneros seja mais alta, especialmente entre as mulheres trans, a terapia hormonal não parece ser a causa direta. As principais razões incluem uso de drogas, HIV, doenças cardiovasculares e suicídio. A hormonização adequada, acompanhada de suporte psicossocial, pode reduzir a vulnerabilidade desses indivíduos.
Em resumo, a endocrinologia é mais do que ciência; é também arte. No contexto do cuidado transgênero, é fundamental oferecer uma abordagem integrada e compassiva, garantindo o bem-estar do paciente em todas as etapas do processo.
Avaliação clínica dos pacientes transgêneros
Anamnese
Quando se trata de conversar com pacientes transgêneros sobre hormonização, é crucial realizar uma anamnese completa e detalhada para compreender a jornada individual de cada um. É importante lembrar que a transição de gênero com hormonização pode ou não ser desejada por pessoas trans e travestis.
Aqui vão algumas orientações para essa conversa:
História pessoal e identificação de gênero:
- Entenda a trajetória de identificação de gênero do paciente.
- Pergunte sobre experiências negativas, como discriminação, abuso físico e emocional em contextos familiares, laborais e de saúde.
- O uso correto de nomes e pronomes durante toda a consulta é essencial. Sugere-se adaptar termos para uma abordagem mais inclusiva e respeitosa.
Saúde e automedicação
É fundamental avaliar a possibilidade de automedicação, considerando o medo da rejeição, atrasos na terapia hormonal e custos.
Identifique quaisquer condições de saúde atuais ou anteriores que possam influenciar os riscos associados à terapia hormonal. Estas podem incluir doença cardiovascular, diabetes mellitus, transtornos psiquiátricos, doenças hepáticas ou renais, HIV, tromboembolismo venoso e cânceres relacionados a hormônios.
Uso de hormônios e saúde sexual
- Questione o paciente sobre como eles administram os hormônios, especificando a dosagem.
- Inquira sobre como os hormônios são obtidos e discuta as expectativas do paciente em relação ao tratamento.
- Aborde a questão da saúde e satisfação sexual com sensibilidade.
Anatomia e modificações corporais
- Evite suposições sobre a anatomia do paciente com base em sua apresentação de gênero.
- Pergunte sobre o uso de binder ou packer. O binder é uma peça de vestuário que comprime o tórax, e o packer é um objeto usado para criar uma protuberância na virilha.
Discuta sobre desejos ou realizações de modificações corporais e cheque os sintomas relacionados à disforia (quadro 1)
| Quadro 1: Critérios de Disforia de Gênero (DSM-5) |
| 1. Desconforto intenso com as características sexuais primárias e/ou secundárias (por exemplo, genitais, crescimento de pelos, desenvolvimento dos seios). |
| 2. Desejo forte de ser reconhecido como o gênero oposto ou de um gênero diferente do atribuído ao nascer. |
| 3. Desejo forte de ter características sexuais primárias e/ou secundárias que correspondam ao gênero vivenciado/identificado. |
| 4. Desejo intenso de ser do outro gênero ou de um gênero diferente. |
| 5. Convicção de ter sentimentos e reações típicas do gênero com o qual se identifica. |
| 6. Desejo de viver e ser aceito como membro do gênero identificado, em todas as facetas da vida. |
| 7. Desgosto ou aversão a características físicas, como voz, menstruação (em indivíduos designados como femininos ao nascer), entre outros. |
Seguindo estas orientações, você pode garantir uma conversa aberta, compreensiva e respeitosa, que valorize as identidades e experiências dos pacientes transgêneros.
Antecedentes familiares
Foque em patologias que possam ser influenciadas pela terapia hormonal (Tabela 1). Deixe claro para o paciente que o antecedente familiar positivo para estas condições não significarão contraindicações ao processo de hormonização, mas apenas uma personalização da vigilância.
Tabela 1: Antecedentes para ponderar na avaliação de hormonização
| Categoria de Antecedentes | Condições/Aspectos a Questionar |
| Doenças Cardiovasculares | – Hipertensão arterial- Doenças cardíacas (ex.: infarto do miocárdio)- Acidente vascular cerebral (AVC) |
| Tromboembolismo Venoso | – Trombose venosa profunda (TVP)- Embolia pulmonar (EP)- Condições relacionadas à coagulação ou trombofilias |
| Distúrbios Endócrinos | – Diabetes mellitus- Outros distúrbios da tireoide ou glândulas adrenais |
| Cânceres | – Câncer de mama- Câncer de próstata-Cânceres hormônio-dependentes (ex.: ovário, endométrio, testículo) |
| Doenças Osteomusculares | – Osteoporose ou baixa densidade mineral óssea- Fraturas ósseas recorrentes |
| Distúrbios Psiquiátricos | – Depressão, ansiedade, transtornos bipolares, esquizofrenia |
| Doenças Renais e Hepáticas | – Insuficiência renal ou doenças hepáticas |
| Condições Genéticas ou de Diferenciação Sexual | – Intersexualidade ou outros distúrbios da diferenciação sexual |
| Histórico de Uso de Hormônios | – Uso de terapia hormonal na família e possíveis complicações ou efeitos colaterais |
Orientações sobre exame físico
Você sabia que esta etapa é crucial e precisa ser realizada com muita atenção e sensibilidade? Pois é, uma abordagem transparente e aberta com o paciente é fundamental, especialmente porque muitos indivíduos com disforia de gênero podem se sentir bastante vulneráveis neste momento.
Vamos lá, quando você está fazendo o exame físico, não se esqueça de que ele não só ajuda a identificar características e possíveis complicações, mas também reforça o quão importante é tratar cada paciente de maneira humanizada e individualizada. Isso garante cuidados médicos apropriados e sensíveis às necessidades únicas de pacientes transgêneros.
Características sexuais secundárias
- Nos pacientes que ainda não começaram a hormonização, geralmente as características sexuais secundárias vão estar alinhadas com o sexo biológico.
- Mas para aqueles que estão em terapia hormonal, seja por conta própria ou sob supervisão médica, você vai notar uma variedade de características em desenvolvimento.
Exame físico homens trans
- Fique de olho no crescimento de pelos faciais e corporais, no aumento da massa muscular e na redistribuição da gordura para um padrão mais masculino.
- Também preste atenção ao tórax. Alguns homens trans comprimem essa área para parecer mais masculina, o que pode levar a lesões cutâneas e outras complicações dermatológicas.
Exame físico mulheres trans
- Você pode observar desenvolvimento mamário (às vezes discreto), redistribuição da gordura para um padrão feminino e redução da massa muscular.
- Não esqueça de verificar se há complicações decorrentes de técnicas para ocultar a genitália, como hérnias ou rupturas cutâneas.
Exame após cirurgias de afirmativa de gênero
Os achados podem variar bastante, dependendo dos procedimentos realizados e das possíveis complicações pós-operatórias.
Nesses casos, uma abordagem em conjunto com um cirurgião plástico é super recomendada.
Exame pélvico em homens trans
- Este exame deve ser feito por profissionais capacitados e experientes. Uma curiosidade: muitos homens trans estão atrasados com exames de câncer cervical e apresentam taxas mais altas de amostras inadequadas.
- Para minimizar a atrofia vaginal comum em terapias à base de testosterona, aplicar estrogênios vaginais antes do exame pode ajudar.
- E lembre-se, ao enviar amostras para exames citológicos, é essencial informar que se trata de um esfregaço de Papanicolau e destacar o uso de testosterona ou amenorreia na requisição.
Orientações sobre exames complementares
As avaliações ajudam a identificar cedo qualquer condição que possa ser exacerbada pela terapia hormonal ou até mesmo contraindicá-la. Mas lembre-se, cada paciente é único e é necessário individualizar cada peculiaridade!
Áreas de rastreamento primordial
- Fique de olho em cânceres específicos relacionados ao sexo biológico do paciente ou ao uso de hormônios.
- Saúde mental também é fundamental. Transtornos como depressão e ansiedade merecem atenção especial.
- Avalie e monitore continuamente os riscos suicidas.
- Não esqueça de verificar o histórico de violência, incluindo violência doméstica.
- O uso de substâncias, como álcool e drogas, também deve ser monitorado.
- E, claro, o rastreamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) é crucial.
Após o início da terapia hormonal, o monitoramento deve ser a cada três meses no primeiro ano e, depois, uma a duas vezes por ano, focando no desenvolvimento das características sexuais secundárias e possíveis efeitos adversos.
Os exames laboratoriais iniciais e de acompanhamento da hormonização são descritos na Tabela 2.
Tabela 2 – Acompanhamento laboratorial na terapia hormonal
| Exames iniciais | Seguimento |
| Hemograma, Função renal e eletrólitos;Função hepática, Glicemia de jejum e hemoglobina glicadaPerfil lipídico;HbsAg, anti-Hbs, Anti-Hbc, Anti-HCV, Anti-HIV,VDRL, FTA-Abs;LH, FSH Estradiol e Testosterona Total.Prolactina (mulher trans) | Hemograma, Função renal e eletrólitos, Função hepáticaFSH, LH, Estradiol e Testosterona Total. |
Além disso, temos que ficar atentos a medidas preventivas gerais, adaptando-as para cada paciente. A Tabela 3 traz algumas dessas medidas, como densitometria óssea e rastreamento para dislipidemia e diabetes.
Tabela 3 – Medidas preventivas em cuidado transgênero

Finalmente, é de suma importância que a abordagem preventiva também contemple medidas recomendadas para a população em geral, como rastreamento de câncer de colo retal e protocolos de vacinação.
E não se esqueça, é importante considerar a fertilidade dos seus pacientes trans. A terapia hormonal e as cirurgias de redesignação sexual podem impactar nesse aspecto, então discuta com eles sobre a preservação da fertilidade antes de qualquer intervenção.
Por fim, lembre-se que, apesar de a criopreservação ser uma solução promissora, ela pode ser cara e inacessível para muitos. Então, é sempre bom pensar em alternativas e soluções de financiamento.
Princípios gerais da hormonização
A hormonização no transgênero visa alinhar as características físicas à identidade de gênero. Ao adotar essa abordagem, é crucial seguir certos princípios para garantir a eficácia e segurança do tratamento.
Candidatos à hormonização
Os critérios de Início são:
- Disforia ou incongruência de gênero persistente, com documentação adequada;
- Capacidade de tomar decisões bem informadas;
- Condições médicas e mentais relevantes adequadamente controladas.
No Brasil, é proibido iniciar a hormonioterapia antes dos 16 anos, exceto em protocolos de pesquisa específicos.
Objetivos da terapêutica hormonal
- Diminuir os níveis de hormônios endógenos;
- Estabelecer níveis hormonais alinhados ao gênero psíquico;
- Favorecer o desenvolvimento das características sexuais secundárias desejadas e minimizar as inerentes ao sexo biológico.
- Expectativas e Realidades da Hormonização:
- Durante a consulta, é vital compreender os objetivos do paciente com a terapia hormonal. Expectativas irrealistas devem ser corrigidas. É essencial destacar que a rapidez e a extensão das mudanças físicas variam entre indivíduos, não estando necessariamente ligadas à dosagem hormonal.
Monitoramento e assimilação
Os processos de feminização e masculinização são seguros quando aplicados dentro de protocolos estabelecidos e mantidos na faixa fisiológica normal. No entanto, é crucial monitorar condições clínicas que possam ser afetadas pela terapia hormonal, conforme detalhado na Tabela 4.
Tabela 4 :Condições médicas que podem ser exacerbadas pela terapia com hormônios sexuais cruzados
| Homem transgênero | Mulher transgênero |
| • Câncer de mama ou endométrio • Eritrocitose (hematócrito > 50%) ou hiperviscosidade sanguínea. • Apneia obstrutiva do sono; • Insuficiência cardíaca descompensada.• Doença hepática ativa / grave (transaminases >3x o limite superior da normalidade) |
• Câncer de mama • Macroprolactinoma;• Doença arterial obstrutiva recente (como infarto agudo do miocárdio, angina). • Doença hepática ativa / grave (transaminases >3x o limite superior da normalidade)• Enxaqueca com crises frequentes e incapacitantes • Hipersensibilidade conhecida aos componentes da terapia. • Porfiria cutânea tarda. • Tromboembolismo venoso*. • Hipertensão arterial sistêmica não controlada*. |
Os pacientes devem estar aptos e abertos a monitorar regularmente as mudanças e integrá-las ao dia a dia. A capacidade de tomar uma decisão bem informada é essencial antes de iniciar o processo.
- A terapia hormonal, quando realizada corretamente, está associada a:
- Redução da depressão, ansiedade e disforia de gênero;
- Melhora no bem-estar físico, mental e emocional.
Hormonização no homem transgênero
Objetivos e efeitos esperados
A hormonização para o homem trans tem como meta principal a virilização, manifestando características sexuais masculinas secundárias (Tabela 5).
Dentre os principais resultados da hormonização, destacam-se:
- Ocorrência de amenorreia geralmente em até três meses.
- Progressão do crescimento de pelos faciais semelhante à puberdade masculina.
- Aumento da massa magra e redistribuição da gordura corporal.
- Modificações nas estruturas da linha média, como aprofundamento da voz e crescimento do clitóris.
- Manutenção da massa óssea devido à ação da testosterona.
- Estaturas mais baixas e quadris mais largos em homens trans, que permanecem inalterados com a terapia
Tabela 5: Evolução das mudanças corporais após o tratamento no homem transgênero
| Efeito | Início | Máximo |
| Oleosidade da pele / acne | 1 a 6 meses | 1 a 2 anos |
| Crescimento de pelos faciais / corporais | 6 a 12 meses | 4 a 5 anos |
| Queda de cabelo do couro cabeludo | 6 a 12 meses | Variável |
| Aumento da massa / força muscular | 6 a 12 meses | 2 a 5 anos |
| Redistribuição de gordura | 1 a 6 meses | 2 a 5 anos |
| Cessação da menstruação | 1 a 6 meses | – |
| Aumento do clitóris | 1 a 6 meses | 1 a 2 anos |
| Atrofia vaginal | 1 a 6 meses | 1 a 2 anos |
| Intensificação da voz | 6 a 12 meses | 1 a 2 anos |
Terapia de reposição de testosterona
A hormonização masculina é predominantemente realizada com a administração de testosterona (Tabela 6).
Tabela 6: Tipos de testosterona disponíveis e posologia
| Apresentação | Posologia adulto | Monitoramento |
| Deposteron® (Enantato ou cipionato de testosterona 200 mg/2mL) | intramuscular (IM) a cada 14 dias | Na véspera da aplicação seguinte. |
| Durateston® (Ésteres mistos de testosterona- 1 mL) :• Propionato de testosterona 30 mg• Fenilpropionato de testosterona 60 mg• Isocaproato de testosterona 60 mg• Decanoato de testosterona 100 mg | IM a cada 14-21 dias | |
| Androgel® (50 mg de testosterona ) | SACHE – 1 unidade em pele sem pelos, pela manhã;PUMP – 3 pumps | Após 2-3 semanas de uso e a coleta deve ser realizada cerca de 4 horas após a aplicação ou imediatamente antes da próxima aplicação |
| Nebido® Hormus® Atesto® (Undecilato de testosterona 1.000 mg / 4 mL) | Aplicar IM a cada 12 semanas | Intervalo intermediário entre duas injeções; |
A testosterona é classificada como substância anabolizante, conforme estabelecido pela Resolução RDC nº 98/2000. Dessa forma, em concordância com a Lei nº 9.965/2000 e a Portaria MS nº 344/1998, sua aquisição deve ser realizada sob estrito controle, e a sua prescrição segue normativas específicas.
Prescrição da testosterona
Ao prescrever testosterona, é essencial considerar os seguintes requisitos:
- Formato da receita: A receita deve ser formulada em duas vias.
- Informações do paciente: É obrigatório incluir o endereço completo do paciente na receita.
- Especificação do CID: Deve ser indicado o código CID. Utilize o CID-10: F 64.0.
- Dados do prescritor(a): A receita deve conter o CPF do(a) médico(a) que está prescrevendo.
- Quantidade prescrita: Não deve ultrapassar a quantidade de cinco ampolas ou o que for equivalente a 60 dias de tratamento.
Efeitos colaterais da hormonização
A terapia hormonal pode causar efeitos colaterais. Alguns dos mais comuns incluem:
- Alterações cardiovasculares, como hipertensão.
- Modificações lipídicas.
- Reações no fígado.
- Acne e alterações comportamentais.
- Aumento de peso e necessidade de mudança de hábitos para otimização da saúde.
- Eritrocitose, com necessidade de monitoramento do hematócrito.
- Possibilidade de sangramento menstrual, com opções de ajuste terapêutico.
- Risco potencial, embora raro, de neoplasias hormônio-dependentes.
É vital o acompanhamento regular e monitoramento dos pacientes em hormonização, garantindo o bem-estar e mitigando possíveis riscos associados à terapia.
A educação contínua e apoio ao paciente são essenciais para assegurar uma transição segura e saudável.

Hormonização na mulher transgênero
Objetivos e efeitos esperados com a hormonização
A terapêutica estrogênica visa induzir o desenvolvimento das características sexuais femininas (Tabela 7) .
As primeiras mudanças tornam-se perceptíveis após três meses de intervenção hormonal e alcançam seu ponto culminante em torno dos 24 meses.
Tabela 7: efeitos esperados do uso de estrógeno
| Efeito | Início | Máximo |
| Redistribuição da gordura corporal | 3 a 6 meses | 2 a 3 anos |
| Redução da massa muscular e força | 3 a 6 meses | 1 a 2 anos |
| Suavização da pele/diminuição da oleosidade | 3 a 6 meses | Indeterminado |
| Diminuição do desejo sexual | 1 a 3 meses | 3 a 6 meses |
| Redução das ereções espontâneas | 1 a 3 meses | 3 a 6 meses |
| Complicações sexuais masculinas | Variável | Variável |
| Desenvolvimento mamário | 3 a 6 meses | 2 a 3 anos |
| Redução do volume testicular | 3 a 6 meses | 2 a 3 anos |
| Diminuição na produção de espermatozoides | Indeterminado | > 3 anos |
| Decréscimo no crescimento do pelo terminal | 6 a 12 meses | > 3 anos * |
| Aumento do cabelo no couro cabeludo | Variável | Segundo padrão genético |
| Alterações vocais | Nenhum | – |
Estrogenioterapia
A estrogenioterapia é a pedra angular do processo de feminização em mulheres transgêneras. Essa abordagem busca suprimir a produção natural de androgênio e substituí-la por estrogênio (tabela 8).
Com frequência, o início da terapia é feito utilizando estrógenos orais em doses elevadas. Isso ocorre pois, na maioria das vezes, as mulheres trans possuem testículos intactos.
O que dificulta a supressão da testosterona a níveis femininos e, adicionalmente, favorece uma melhor resposta no desenvolvimento mamário nos dois primeiros anos de tratamento.
Tabela 8: doses de estrógenos

Contudo, após esse período inicial, recomenda-se a adoção do 17-beta-estradiol de via transdérmica como o estrogênio preferencial. Embora apresente um custo mais elevado, esse composto está associado a uma diminuição do risco de tromboembolismo venoso (TEV) e acidente vascular encefálico (AVE), sendo especialmente recomendado para pacientes acima de 40 anos ou aquelas com maior predisposição a doenças cardiovasculares.
Uma vantagem adicional dos estrógenos naturais (como o 17-beta-estradiol) em relação aos sintéticos é a capacidade de serem mensurados. Para otimizar o tratamento de hormonização, sugere-se a avaliação dos níveis séricos de estradiol e testosterona a cada 3 meses.
O objetivo é garantir que estes estejam dentro da faixa normal para mulheres no estágio folicular do ciclo menstrual, assegurando que a testosterona sérica não ultrapasse 55 ng/dL e que os níveis de E2 não excedam limites suprafisiológicos (superior a 200 pg/mL).
Bloqueio androgênico
Os estrogênios, por si só, possuem capacidade de reduzir a produção de androgênio ao suprimir a produção de gonadotrofinas. Contudo, a combinação com agentes que inibem diretamente a ação ou secreção de testosterona potencializa esse efeito.
Essa associação também possibilita o uso reduzido de estrogênio, minimizando possíveis efeitos colaterais.
Diversos agentes ajudam a combater a ação do andrógeno. No Brasil, temos uma variedade desses medicamentos, como demonstrado na Tabela 9. Uma combinação amplamente adotada na prática clínica envolve o uso de ciproterona, uma progestina, com o 17-beta-estradiol transdérmico.
Tabela 9 – Medicamentos bloqueadores da testosterona disponíveis no Brasil
| Mecanismo | Classe | Medicamento | Posologia |
| Antiandrógenos | Antagonistas do receptor mineralocorticoide | Espironolactona | 100-300 mg/dia |
| Antagonista do receptor de andrógenos | Ciproterona | 25-100 mg/dia | |
| Supressão de gonadotrofinas | Agonistas do GnRH | Leuprolida | 3,75 a 7,5 mg/mês ou 11,25 mg 3/3 m – IM |
| Goserelina | 3,6 mg/mês – Implante SC | ||
| Redução de DHT | Inibidor da 5-alfa-redutase 2 | Finasterida | 1-5 mg/dia |
| Dutasterida | 0,5 mg/dia |
Nos EUA, a combinação de espironolactona com estrógeno é frequentemente adotada para mulheres trans. A espironolactona, além de inibir o receptor de andrógeno, interfere na formação de esteroides nos testículos. Por suas características diuréticas, recomenda-se monitorar eletrólitos, principalmente o potássio, regularmente.
Importante: após cirurgias genitais de confirmação de gênero, que incluem a orquiectomia, o uso de antiandrogênios torna-se desnecessário.
Efeitos colaterais da estrogenoterapia
O tratamento com estrogenoterapia em mulheres trans tem diversos efeitos colaterais associados, e compreendê-los é fundamental para uma abordagem clínica segura e eficaz.
Tromboembolismo venoso (TEV)
É um efeito colateral de grande preocupação, com risco aumentado em até 20 vezes em algumas situações, podendo ter incidência de até 5%.
O risco cresce progressivamente com o tempo de tratamento. Esta progressão contrasta com o padrão observado na terapia hormonal da menopausa, onde a incidência de TEV tende a estabilizar após os primeiros anos.
O risco é mais acentuado com o uso de estrogênio sintético (etinilestradiol) ou doses altas de hormônios. Por exemplo, estudos mostram que ao usar análogos de GnRH combinados ao estradiol oral, a incidência cai para 1,7%. Quando o 17-beta-estradiol transdérmico é utilizado, a incidência fica abaixo de 1%.
Fatores de risco cardiovasculares
A estrogenoterapia pode trazer um perfil lipídico mais favorável, com aumento do HDL e redução do LDL.
No entanto, há efeitos metabólicos contrários, como aumento de peso, resistência insulínica acentuada, hipertensão e elevação de marcadores inflamatórios e protrombóticos.
Estrógenos orais podem elevar os níveis de triglicerídeos, representando risco para pacientes com hipertrigliceridemia grave devido à potencial pancreatite aguda.
Outros efeitos adversos
Há risco elevado de colelitíase com o estrógeno oral. Caso se identifique cálculo biliar, pode ser recomendada a colecistectomia, sem prejuízo à continuação do tratamento estrogênico.
Em torno de 14% das pacientes podem manifestar hiperprolactinemia relevante. Para diagnóstico diferencial, é sugerido pausar o tratamento estrogênico temporariamente e reavaliar os níveis de prolactina.
Riscos oncológicos
Há preocupações sobre o risco aumentado de cânceres dependentes de estrógeno. Ainda que os estudos atuais indiquem segurança em curto prazo (20-30 anos), a longo prazo é incerto. Portanto, o rastreio de câncer de mama deve seguir as diretrizes para mulheres cisgêneras.
O câncer de próstata é raro, principalmente se a terapia de privação de androgênio começou antes dos 40 anos. Todavia, a literatura ainda é limitada quanto a longo prazo.
Sugere-se que indivíduos que iniciaram a transição após os 20 anos façam exame retal digital e dosagem de PSA anualmente após os 50 anos.
Autoria
Dr. Alexandre Câmara, endocrinologista
CRM: 159.495-SP
RQE 107.837
Sugestão de leitura complementar
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