Nos últimos anos, a literatura científica tem chamado a atenção para a ocorrência de transtornos mentais entre crianças e adolescentes. Existem dados indicando que de 50% a 75% dos transtornos mentais têm início na infância e na adolescência. Considerando que problemas de saúde mental são altamente persistentes, fazendo com que parcela importante desses indivíduos tenha algum prejuízo na vida adulta, identificar a prevalência dos transtornos mentais na infância, bem como fatores de vulnerabilidade e de proteção, auxilia no delineamento de políticas de saúde, na prevenção e no tratamento de casos diagnosticados.
Epidemiologia
Os transtornos mentais mais prevalentes entre crianças e adolescentes apontados pelos estudos, respectivamente, foram:
- Depressão
- Transtornos de ansiedade
- Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
- Transtorno por uso de substâncias
- Transtorno de conduta
Na infância as características principais do transtorno são a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade. Porém, no início da adolescência, o transtorno é relativamente estável, atenuando-se durante o final da adolescência, sendo essa queda mais significativa para sintomas de hiperatividade e impulsividade. No ano de 2016 foi publicado um estudo de base populacional realizado em São Paulo – Brasil. Esse mostrou que a idade média de início de transtornos psiquiátricos é mais precoce para os transtornos de ansiedade (13 anos de idade) e transtornos do controle de impulsos (14 anos de idade), quando comparados aos transtornos de abuso de substâncias (24 anos de idade) e transtornos do humor (36 anos de idade)
Classificação
De acordo com a OMS, existem duas grandes categorias de transtornos mentais da infância e da adolescência:
– Transtornos do desenvolvimento psicológico
Tendo início na primeira ou na segunda infância, havendo comprometimento ou retardo do desenvolvimento de funções ligadas à maturação biológica do sistema nervoso central com evolução contínua sem remissões nem recaídas. Exemplos: Autismo infantil; Síndrome de Asperger; Transtornos de aprendizagem (Ex -Dislexia; discalculia); Transtornos específicos do desenvolvimento da fala e da linguagem e outros.
-Transtornos de comportamentos e emocionais
Este grupo de transtornos inicia durante os primeiros cinco anos de vida, e pode vir acompanhado de um déficit cognitivo e de um atraso específico do desenvolvimento da motricidade e da linguagem. Exemplos: Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade; Distúrbios da atividade e da atenção, Transtornos de conduta; Transtorno de ansiedade; Transtorno depressivo; Transtornos de tique
Fatores de risco
O conhecimento de potenciais fatores de risco à saúde mental de crianças e adolescentes traz a possibilidade de desenvolvimento de programas de intervenção focados em prevenir ou atenuar os efeitos desses transtornos. É importante ressaltar que são diversos fatores que aumentam o risco de transtornos mentais ao longo da vida. Sendo os de maior prevalência: fatores biológicos, fatores genéticos, psicossociais, e fatores ambientais, como problemas na comunidade (violência urbana), aspectos relacionados à saúde mental dos pais ou responsáveis, abuso de substâncias, e tipos de abuso (físico, psicológico e sexual).
Diagnóstico
Familiares e professores têm importante papel na identificação dos transtornos mentais na infância, uma vez que grande número de crianças chega ao serviço de saúde a partir de um encaminhamento escolar ou familiar. Sendo duas queixas primordiais: déficit no aprendizado ou comportamento belicoso e incômodo aos outros (transtorno de conduta).
O diagnóstico é realizado de forma ampla, deve envolver a criança e suas circunstâncias. A equipe de saúde deverá avaliar, de forma abrangente, se queixas apresentadas são consequências de problemas da criança, de sua família ou do ambiente escolar.
Os transtornos do desenvolvimento intelectual são frequentemente observados, pela primeira vez, em unidades básicas de saúde. Através de medidas pré-natais, peri-natais e no atendimento de puericultura. Por conseguinte, terá na atenção secundária a confirmação do diagnóstico e o tratamento necessário.
Já os diagnósticos, relacionados aos Transtornos específicos do desenvolvimento psicológico, são comumente realizados em unidades básicas de saúde e nos centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Infantil CAPS
Comorbidades psiquiátricas, dificuldades emocionais, problemas sociais e familiares podem ser detectados e encaminhados a terapias (medicamentosas ou psicoterápicas) e a assistência educacional. As crianças com dificuldade específicas de aprendizagem não devem ser chamadas de deficientes. Cabe à equipe de saúde explicitar isto às famílias, sempre que se faça necessário
Importante ressaltar que o diagnóstico final de um transtorno mental é habitualmente realizado a partir de critérios padronizados, como os da Classificação Internacional de Doenças (CID‑10) ou do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM‑IV).
Conclusão
Os transtornos mentais destacam-se como principais desafios a serem enfrentados pelos serviços de saúde. Identificar os transtornos mais prevalentes e seus fatores associados durante a infância ou adolescência possibilita o desenvolvimento de tratamentos e intervenções eficazes. Por conseguinte, atua minimizando os prejuízos ao longo da vida adulta.
Referências
- https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/L3j6bTTtvSK4W9Npd7KQJNB/?lang=pt
- http://pepsic.bvsalud.org/pdf/ptp/v16n2/05.pdf
- https://www.scielo.br/j/rsp/a/vwSmjXbN4pDggk8X7CTVdwC/?format=html⟨=pt
- https://www.psiquiatriageral.com.br/cid/f90.htm
- https://www.psiquiatriageral.com.br/cid/f80.htm
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.




