O priapismo caracteriza-se por uma ereção prolongada e rígida do pênis, que persiste além de quatro horas, na ausência de estímulo sexual adequado. Este problema exige atenção urgente porque, se não resolvido prontamente, pode causar lesão irreversível, resultando em disfunção erétil permanente. Três formas principais existem: isquêmio (fluxo baixo), não isquêmico (fluxo alto) e intermitente (isquêmico recorrente).
O que é priapismo?
O priapismo é uma ereção persistente do pênis, indesejada e muitas vezes dolorosa, sem relação com estímulo sexual. Essa condição decorre de alterações no fluxo sanguíneo peniano e pode comprometer irreversivelmente a função erétil se não for tratada a tempo.
Embora menos comum, o priapismo também pode ocorrer em meninas com alterações clitorianas, sobretudo em distúrbios hematológicos. Na imagem abaixo é possível observar a anatomia peniana:

Classificações clínicas do priapismo
O quadro clínico é dividido em três tipos principais:
Priapismo isquêmico (ou de baixo fluxo)
É a forma mais comum e grave. Ocorre quando o sangue venoso não consegue sair dos corpos cavernosos, gerando hipóxia, acidose bem como necrose muscular. Assim, o paciente relata dor intensa e rigidez peniana completa. Portanto, se o tratamento não for iniciado em até 12 horas, o risco de disfunção erétil permanente é alto.
Priapismo não isquêmico (ou de alto fluxo)
Mais raro, geralmente está associado a trauma perineal ou peniano, com formação de fístula arteriovenosa. A ereção é parcial, indolor e além disso tende a resolver espontaneamente. Neste caso, a urgência médica é relativa.
Priapismo recorrente ou intermitente
Caracteriza-se por episódios autolimitados e repetidos de ereção prolongada. É frequente em portadores de anemia falciforme e pode evoluir para priapismo isquêmico se não for controlado.
Por que o priapismo é uma urgência médica?
O priapismo isquêmico constitui uma emergência urológica. A partir de 4 a 6 horas de ereção contínua, os tecidos cavernosos entram em sofrimento. Assim, com o passar do tempo, ocorre dano estrutural ao músculo liso peniano, seguido de fibrose e impotência sexual.
Além disso, em algumas situações, como na anemia falciforme ou leucemia, o priapismo pode indicar uma complicação sistêmica grave.
Portanto, quanto mais precoce o atendimento, maior a chance de preservar a função erétil do paciente.
Principais causas do priapismo
Diversas condições médicas e fatores externos estão associados ao desenvolvimento do priapismo. A seguir, listamos os mais relevantes:
Doenças hematológicas
As doenças hematológicas representam causas relevantes de complicações vasculares, com destaque para a anemia falciforme e as leucemias. Portanto, a anemia falciforme é a principal etiologia em crianças e adultos jovens, sendo caracterizada pela vaso-oclusão provocada pelas hemácias falciformes, o que leva à estase sanguínea e à disfunção da cascata do óxido nítrico.
Além disso, nas leucemias, especialmente na fase blástica aguda, a hiperleucocitose pode resultar em obstrução venosa, contribuindo para manifestações clínicas significativas.
Medicamentos
- Injeções intracavernosas (alprostadil, papaverina)
- Inibidores da fosfodiesterase-5 (sildenafil, tadalafil)
- Antidepressivos (ex: trazodona)
- Antipsicóticos (ex: risperidona)
- Anticoagulantes e agentes antineoplásicos
Drogas ilícitas
O uso de drogas ilícitas também está associado a diversas complicações vasculares e hematológicas. A cocaína, por exemplo, é conhecida por provocar vasoespasmo, lesão endotelial e aumento do risco de eventos trombóticos. A maconha, embora menos associada a efeitos cardiovasculares graves, pode causar alterações hemodinâmicas e, em alguns casos, desencadear fenômenos tromboembólicos.
Já o consumo excessivo de álcool está relacionado à disfunção hepática, alterações na coagulação e maior propensão a sangramentos ou tromboses, especialmente em contextos de hepatopatia avançada.
Outras causas
- Traumas genitais ou perineais
- Metástases para o pênis (raro)
- Doenças neurológicas (ex: lesão medular)
- Mordida de animais peçonhentos (como escorpiões).
Como diagnosticar o priapismo?
O diagnóstico é, na maioria das vezes, clínico. No entanto, exames complementares são fundamentais para definir o tipo e orientar o tratamento.
Exame físico
O exame físico é uma etapa central nesse processo. No priapismo isquêmico, observa-se rigidez acentuada dos corpos cavernosos com a glande flácida, geralmente acompanhada de dor intensa, indicando sofrimento tecidual. Além disso, no priapismo não isquêmico, o paciente apresenta ereção parcial, indolor e sem sinais de sofrimento, o que sugere um quadro menos urgente e de etiologia distinta.
Gasometria dos corpos cavernosos
- Isquêmico: pH < 7,25, pO₂ < 30 mmHg, pCO₂ > 60 mmHg
- Não isquêmico: valores próximos aos da artéria periférica
Ultrassonografia com Doppler peniano
Permite avaliar o fluxo arterial cavernoso e confirmar a presença de fístula em casos de trauma.
Tratamento do priapismo isquêmico
A prioridade é restaurar o fluxo venoso e promover a detumescência. O manejo deve seguir uma abordagem escalonada:
Aspiração cavernosa
Realiza-se aspiração do sangue dos corpos cavernosos com agulha de grosso calibre, seguida de lavagem com soro fisiológico. Essa etapa já pode resolver até 30% dos casos.
Injeção de agentes alfa-adrenérgicos
A fenilefrina é a droga de escolha. Dessa forma, deve ser administrada lentamente no corpo cavernoso, com monitoramento da pressão arterial e do ritmo cardíaco.
Cirurgia de shunt peniano
Indicada em casos refratários. A técnica cria uma via de escoamento alternativo entre os corpos cavernosos e outra estrutura venosa, como a glande ou a veia safena.
Prótese peniana precoce
Quando o priapismo ultrapassa 48 a 72 horas, a fibrose cavernosa se instala. Dessa forma, nestes casos, o implante precoce de prótese peniana pode evitar encurtamento e disfunção sexual permanente.
Tratamento do priapismo não isquêmico
O tratamento do priapismo não isquêmico, por não representar risco de necrose tecidual, deve iniciar com uma abordagem conservadora.
Assim, as primeiras medidas incluem o uso de compressas frias e a observação clínica cuidadosa. Além disso, caso o quadro persista por mais de 72 horas, pode ser indicada a embolização seletiva por radiologia intervencionista.
Estratégias de prevenção para priapismo recorrente
Pacientes com episódios frequentes, especialmente os com anemia falciforme, devem receber medidas preventivas. Entre elas:
- Uso de hidroxiureia, que reduz a frequência de crises vaso-oclusivas
- Transfusões programadas em casos mais graves
- Inibidores de PDE-5 em baixas doses, que atuam na regulação da homeostase cavernosa
- Terapias hormonais com agonistas do GnRH ou antiandrogênicos
Dessa forma, novas abordagens, como o crizanlizumabe (anticorpo monoclonal anti-P-selectina) e voxelotor (modulador da hemoglobina), têm mostrado resultados promissores em estudos recentes.
Conheça nossa pós em Medicina de Emergência
Domine a linha de frente da medicina. Conheça nossa pós em Medicina de Emergência.
Referência bibliográfica
- NEJAT, E. J.; ZWIRNER, C. In: MULHALL, J. P. (Ed.). Priapism. UpToDate. WOLTERS KLUWER, 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/priapism. Acesso em: 7 ago. 2025.
