Você se lembra do que você queria ser quando
crescesse? A verdade é que mais do que nunca, os comportamentos da infância tem
influenciado a forma como envelhecemos. Para além dos objetivos profissionais,
pensar no futuro envolve bem-estar, qualidade de vida e envelhecimento
saudável.
Histórico:
Nas últimas décadas, com o avanço do
desenvolvimento científico em diversas áreas, pode-se perceber que elementos
essenciais para saúde, bem-estar e produtividade dos adultos são originados
durante os primeiros anos de vida, em especial nos primeiros 1000 dias – que
engloba desde a gestação aos dois primeiros anos do indivíduo.
Ao nascer, o cérebro já tem quase todos os
neurônios formados. Aos 2 anos, existe uma grande quantidade de conexões
neuronais que, mais tarde, serão podadas de acordo com o uso. É por isso, que a
exposição a ambientes adversos nessa fase, prejudica o desenvolvimento em um
futuro próximo, mas sobretudo a longo prazo.
Os primeiros estudos que levantaram hipóteses
de que a saúde do adulto era influenciada pelas condições de vida na infância
surgiram no século XIX. Essas pesquisas abriram caminhos para entender melhor
os mecanismos de como isso ocorre e propiciar o desenvolvimento de ações
preventivas.
Doenças orgânicas
e emocionais podem ter origem na infância e adolescência?
Atualmente sabe-se que alterações na condição
de vida intrauterina, como deficiência na nutrição fetal, podem ocasionar
repercussões na saúde na vida adulta. Os estudos feitos no Reino Unido no
século passado, originaram a chamada teoria de Barker: “fetos expostos à
privação nutricional adotam estratégias que os ajudam a sobreviver e determinam
a reprogramação do seu metabolismo”. Esta característica ficou conhecida como o
Fenótipo Poupador (Thrifty Phenotype).
A “origem fetal” das doenças crônicas tem como
fundamento a presença das alterações nutricionais e endócrinas que podem
ocorrer durante a vida intrauterina, e que determina adaptações das funções e
do metabolismo dos indivíduos, predispondo-os à doenças de vários tipos,
incluindo as frequentes enfermidades cardiovasculares na vida adulta.
A maioria dos hábitos na vida das pessoas se
inicia durante a infância, por influência da família e das condições ambientais
a que são submetidas. Esses hábitos envolvem a nutrição (tanto em aspectos
quantitativos como qualitativos), tabagismo, alcoolismo, sedentarismo. Essas
situações iniciam nesse período, mas perduram e se agravam ao longo da vida,
causando problemas na fase adulta.
Fatores de risco
na infância:
- Nascimento
(prematuridade, complicações no parto); - Fatores
intrauterinos (nutrição materna, infecções maternas, uso de substâncias,
restrição do crescimento intrauterino); - Nutrição da
criança (amamentação insuficiente, desnutrição proteico-calórica, carência de
micronutrientes, infecções da infância – parasitoses, HIV, malária, diarreia
crônica); - Exposição
ambiental (metais pesados – chumbo e mercúrio, toxinas ambientais -arsênico,
desreguladores endócrinos, pesticidas, bifenilas policloradas), poluição do ar
doméstica); - Família (baixa
escolaridade, altos níveis de estresse, oportunidades insatisfatórias de
aprendizagem no lar, ambiente doméstico superlotado ou desestruturado, uso
indevido de álcool e substâncias pelo cuidador, limitações econômicas, pobreza,
exposição à violência); - Comunidade (má
qualidade dos ambientes de cuidados iniciais fora do lar, falta de serviços de
saúde e sociais, acesso limitado ou ausência de acesso a saneamento ou a água
potável); - Hábitos
sedentários.
Doenças crônicas
com origem relacionada à infância:
Com o aumento da expectativa de vida da
população, as doenças crônicas não-transmissíveis estão cada vez mais
prevalentes. Diante desse cenário, as relações entre essas doenças e a infância
estão cada vez mais evidentes para a medicina, e as principais doenças com
origem relacionada à infância são:
- Aterosclerose;
- Obesidade;
- Hipertensão
Arterial; - Diabetes Mellitus;
- Acidente Vascular
Cerebral; - Câncer;
- Doenças
pulmonares.
De acordo com estimativas da OMS publicadas em
2010, o consumo insuficiente de frutas, legumes e verduras são responsáveis,
anualmente, por 2,7 milhões de mortes e por 31% das doenças isquêmicas do
coração, 11% das doenças cerebrovasculares e 19% dos cânceres gastrointestinais
(estômago e colo-reto) que ocorrem no mundo (WHO – Global status report on noncommunicable
diseases 2010 Geneva).
No Brasil a prática de atividade física é
reduzida e os hábitos sedentários prevalecem. Uma das mais importantes
consequências é o crescimento exponencial do sobrepeso/obesidade que aumentam a
prevalência de doenças crônicas, tais como hipertensão arterial e diabetes.
Além dos prejuízos diretos com o
desenvolvimento dessas doenças, as crianças que não recebem os cuidados de
criação necessários para permitir o progresso de suas competências são menos
sadias. Elas crescem pouco, aprendem e avançam menos na escola. Se não houver
intervenção, estima-se que sua renda anual média seja cerca de um terço menor
que a de seus pares.
Essa situação torna mais difícil que elas e
suas famílias melhorem de vida, levando a degradantes ciclos intergeracionais
de pobreza. Lembrando que, esses custos individuais se acumulam em toda a
sociedade, restringindo a criação de riqueza e corroendo as receitas nacionais.
Medidas
preventivas:
Sabe-se que as doenças crônicas não transmissíveis
(DCNT) são as responsáveis pelas maiores taxas de morbimortalidade no Brasil e
a adoção de hábitos saudáveis é aceita como um fator de proteção fundamental na
prevenção das DCNT.
As habilidades de aprendizagem e as
competências pessoais e sociais básicas são adquiridas cedo, e as competências
subsequentes dependem desse alicerce. Intervenções preventivas e promotoras nos
primeiros anos de vida têm mais resultados e menor custo que intervenções
corretivas tardias.
A atuação preventiva sobre os diversos fatores
de risco já identificados para o aparecimento de doenças crônicas na vida
adulta deve estar focado na atuação da puericultura, visando tanto o bem-estar
geral da criança quanto o do futuro adulto.
Relativas à
assistência pré-natal:
Planejamento e aconselhamento familiar; prevenção da gravidez na adolescência,
melhora das condições nutricionais das gestantes; redução da incidência de
partos prematuros e de crianças com baixo peso ao nascer.
Alimentação: Aleitamento materno exclusivo até o sexto
mês; após o sexto mês introdução de alimentos de maneira adequada; adequar as
necessidades energéticas da criança em suas diferentes idades e os alimentos
consumidos pela família; evitar o consumo excessivo e desestimular o início
precoce de sal e de açúcar; orientar sobre o preparo adequado dos alimentos.
Crescimento: Monitorar
o crescimento e, principalmente, o ganho de peso; estimular a prática de
atividades físicas regulares; reduzir o tempo dispendido em atividades
sedentárias; identificar as crianças em risco de interrupção do crescimento com
base em fatores de risco biológicos e sociais; identificar precocemente causas
evitáveis de crescimento prejudicado.
Ambientais: profilaxia e controle dos poluentes
ambientais; melhorar as condições ambientais em creches e escolas; reduzir as
condições ambientais que predispõe a ocorrência de acidentes; proporcionar
melhorias no ambiente doméstico.
Familiares: Identificar crianças de risco com histórico
familiar de doenças crônicas e propor acompanhamento particularizado nesses
casos; desestimular os hábitos familiares de tabagismo e consumo de bebidas
alcoólicas; incentivar os pais a promover melhores cuidados e estimulação da
criança.
Por fim, intervenções preventivas nos
primeiros anos de vida têm mais resultados e menor custo que as intervenções corretivas
tardias. Isso porque, as habilidades de aprendizagem e as competências pessoais
e sociais básicas são adquiridas cedo, e as competências subsequentes dependem
desse alicerce.
Além disso, as competências iniciais facilitam
a aprendizagem de novas habilidades, e geram confiança e motivação ao longo da
vida. A intervenção precoce não só é custo-efetiva, mas também aumenta as
chances de êxito de intervenções essenciais posteriores ao longo da vida.
Dessa forma, se mudarmos o começo da história,
mudamos toda a história do indivíduo. E você, está sendo o adulto que queria
ser quando criança?