Introdução
A Retocolite Ulcerativa e a Doença de Crohn, que representam as Doenças inflamatórias intestinais (DII), são desordens crônicas, de etiologia indefinida, de curso imprevisível, com necessidade de tratamento a longo prazo e associadas, por diversos fatores, a alterações psicológicas que se refletem nos relacionamentos, nas atividades sociais e no trabalho dos portadores. Por conta dessa realidade, diversos estudos vem demonstrando a prevalência entre esses transtornos mentais comuns e a DII, fato esse que, indubitavelmente, interfere na eficácia do tratamento.
Impactos na qualidade de vida e no tratamento

Não é de hoje que temos o conhecimento da influência dos fatores emocionais sobre nosso o organismo, exemplos como a frase do poeta romano Juvenal “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são) ou o livro “O tratado das paixões humanas” do filósofo René Descartes que reconhece a influência das emoções sobre os sintomas corporais, corroboram com essa prerrogativa.
O paciente que é diagnosticado com Doença de Crohn ou Retocolite Ulcerativa convive com diversas apresentações clínica desagradáveis ao seu cotidiano, como crises diarreicas, dor abdominal em forma de cólica, sangramentos anais e até mesmo a presença de complicações como fístulas e estenoses. Por conta disso, o indivíduo é exposto a uma alta carga emocional, seja por medo de novos períodos de crise ou medo dessas repercussões em seu cotidiano, seja em seus relacionamentos interpessoais ou até mesmo na sua rotina de trabalho.
Essa situação acaba contribuindo para o aparecimento de crises de ansiedade, episódios depressivos e estresse emocional que, claramente, apresentam manifestações psicossomáticas nesses indivíduos e, inclusive, são classificadas no CID 10 como F54.0 – Fatores Psicológicos e de Comportamento Associados a Transtornos ou Doenças Classificadas em outros Locais.
Um levantamento recente desenvolvido pela Universidade Federal de Juiz de Fora mostrou uma taxa de 40% de ansiedade e/ou depressão em indivíduos com DII, relacionada principalmente com pacientes em crise ou com a doença em atividade. Entretanto, não são somente os períodos de atividade da doença que influenciam, de fato, na vida dos portadores. Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Retocolite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD) aponta que 80% dos pacientes relatam que a doença afeta seu cotidiano de alguma independente do quadro da doença (remissão ou crise) e, desses, 77% refere medo em apresentar uma nova crise.
Estudos comparativos

Em 2020, um trabalho que objetivava avaliar a prevalência de ansiedade e depressão em portadores de DII foi publicado pelo Journal of Coloproctology. No mesmo, foram aplicados dois questionários para estimar os aspectos psicológicos nesses pacientes e ,como forma comparativa, em outros 2 (dois) grupos de pessoas que não apresentavam Doença Inflamatória Intestinal. Os questionários utilizados foram o Questionário sobre Saúde do Paciente (PHQ-9) e o questionário de Transtorno Geral de Ansiedade (GAD-7) que são validados mundialmente nessa avaliação.
Outros dois trabalhos realizados, um pela Universidade Federal de Pernambuco e outro pela Universidade Federal de Pelotas, produziram o mesmo estudo avaliando os pacientes com DII que era acompanhados pelo ambulatório dos Hospitais Universitários das duas instituições e serão citados aqui também para corroborar que essa correlação entre as Doenças Inflamatórias Intestinais e os Transtornos Mentais Comuns não são algo verificado somente na atualidade e que poderia ser algo em decorrência da pandemia de Covid 19 que vivenciamos.
Mesmo antes de falar sobre os estudos, podemos adiantar que os sintomas de ansiedade e depressão são mais severos durante os períodos de doença ativa e constata que os transtornos psicológicos parecem desempenhar um papel na exacerbação dos sintomas. A atividade da doença de Crohn está fortemente associada com humor deprimido, e a depressão e a ansiedade são condições altamente concorrentes como fatores de risco para recidiva clínica precoce em pacientes com doença de Crohn inativo.
E não somente no curso das DII, mas em doenças crônicas de uma forma geral. Fato que pude comprovar na prática diária na porta de urgência psiquiatria do Hospital de Clínicas Gaspar Viana, o número de pacientes com alguma comorbidade pré existente e quadros mais arrastados de crises de ansiedade ou quadros depressivos que procuravam atendimento na urgência foram incontáveis.
Voltando ao tema proposto, a maioria dos portadores de doença inflamatória intestinal acredita que o estresse psicossocial é o principal motivo para o agravamento de sua doença, a resposta ao estresse recruta mecanismos neurais e hormonais numa tentativa de restaurar ou reforçar o funcionamento normal do corpo. Há uma estreita relação dos fatores psicológicos nas recaídas de pacientes em remissão. Toda essa situação faz com que a busca por resultados que busquem quantificar essa relação são muito importantes.
Resultados dos estudos

O trabalho citado inicialmente, publicado no Journal of Coloproctology, observou que a presença de uma maior severidade de crises de ansiedade e quadros depressivos nos portadores de Doenças Inflamatórias Intestinais pela avaliação dos dois questionários aplicados. Situação que é corroborado pelos outros dois trabalhos citados posteriormente, no ano de 2013 o realizado em Pernambuco e o de Pelotas no ano de 2021, demonstram que a prevalência de ansiedade e depressão no grupo populacional estudado foi compatível com a literatura. Alem disso, o sexo feminino esteve relacionado significativamente à maior prevalência de ansiedade, bem como a gravidade da doença esteve relacionada à depressão.
Comprovando que é uma situação anterior a pandemia de Sars-Cov-2, trabalhos realizados com intervalo de aproximadamente 10 anos, mas que , sem dúvidas, pode sim ter sido agravada com a realidade atual de nossa sociedade.
Conclusão
Independentemente de a doença ser crônica ou não, a sua aceitação já é o presságio de uma possível melhora. No entanto, nos pacientes com DII a ausência de controle sobre a sintomatologia é um dos fatores que pode levá-los a deprimir, seja pelo medo de novas crises ou pelo medo de complicações.
O paciente mesmo em estados de remissão merece uma atenção especial ao seu bem estar completo, uma abordagem completa do portador de DII se faz necessário em um âmbito multiprofissional. Diversos estudos mostram que a psicoterapia associada ao tratamento medicamentoso acaba sendo eficaz nesses pacientes.
Uma coisa é certa e devemos concordar, o objetivo terapêutico desses pacientes não pode ser somente voltado a impedir a atividade da doença, deve-se fazer valer o conceito de saúde defendido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de que é uma situação de perfeito bem-estar físico, mental e social.
Autor: Vinícius Sussuarana Rocha, discente de medicina
Instagram: @vsussuaranar_
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
https://alemdii.org.br/quadros-depressivos-podem-influenciar-na-adesao-ao-tratamento/
https://docs.bvsalud.org/biblioref/2016/08/1032/associacao-de-doenca.pdf
https://www.thieme-connect.de/products/ejournals/pdf/10.1016/j.jcol.2020.07.006.pdf