Por que o sistema de alerta de pandemia da OMS falhou | Colunistas

  • março 28, 2021
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Há um ano, a Organização Mundial da Saúde(OMS) usou a declaração de PHEIC (Public Health Emergency of International Concern) como alerta sobre o “potencial pandêmico” do coronavírus, mas a questão que não quer calar é se isso representou uma falha ou precaução da Organização perante o mundo.

Cascata de falhas

Em 11 de março de 2020, mesmo que profundamente preocupada com os níveis alarmantes de propagação (Figura 1) e gravidade e com os níveis alarmantes de inação, a OMS avaliou [1] que o COVID-19 “poderia” ser caracterizado como uma pandemia. Porém, no Relatório de situação – 51 [2] , referente ao mesmo dia em questão, a mesma ainda classificava-o apenas como um surto.

Figura 1. Países, territórios ou áreas com casos confirmados relatados de COVID-19, 11 de março de 2020. Fonte: Organização Mundial da Saúde.

Em 22 de janeiro de 2020, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, convocou uma reunião a portas fechadas de virologistas, pesquisadores de saúde pública e alguns representantes do governo, na qual foi decidido que um PHEIC não era garantido. Por mais que devessem ser mais transparentes perante essa reunião e no quesito PHEIC, a OMS estava fornecendo informações sobre a periculosidade e medidas que limitassem a disseminação do vírus no restante do mundo, mas, por precaução, ainda não era o momento de classificar abertamente como uma pandemia.

Como se deu o alerta

Somente em 30 de janeiro de 2020, houve uma declaração chamada “emergência de saúde pública de interesse internacional”, ou PHEIC, sinalizando que uma pandemia poderia ser iminente.

O principal motivo dessa declaração não diz respeito ao que está acontecendo na China, mas o que está acontecendo em outros países. Nossa maior preocupação é o potencial do vírus para se espalhar por países com sistemas de saúde mais fracos e mal preparados para lidar com ele[3], afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Potencial pandêmico ou pandemia

Antes de considerar essa situação como uma emergência extraordinária, com potencial pandêmico, a OMS já havia aconselhado os governos sobre como responder à situação em questão. Por exemplo, implementar medidas fortes para detectar precocemente a doença, isolar e tratar os casos, rastrear contatos e promover medidas de distanciamento social, porém isso não foi convincente o suficiente para que as atividades econômicas, comerciais e turísticas fossem limitadas perante os olhos dos governos em questão.

No Relatório de situação – 70 [4], em 30 de março de 2020, que já havia sido classificado como pandemia, o COVID-19 trouxe um novo cenário no qual os países começaram a perceber tamanha importância do assunto, não pela definição PHEIC em si, mas pela palavra “Pandemia”. Algo que estava aparentemente tão distante já assolava o mundo todo, cada dia com números mais preocupantes (Figura 2).

Figura 2. Países, territórios ou áreas com casos confirmados relatados de COVID-19, 30 de março de 2020. Fonte: Organização Mundial da Saúde.

Retrospectiva e reflexões

Quando se reflete sobre o assunto, um atraso de uma semana em declarar uma emergência global nem é a ação mais preocupante que ocorreu nos primeiros dias da pandemia do COVID-19, segundo os críticos do mundo todo. Até porque houveram avisos e outros alertas significativos a cada boletim emitido pela OMS desde a descoberta do vírus na China.

Segundo texto publicado na Revista Nature, A OMS, portanto, depende da diplomacia, que muitas vezes se resume a elogiar ou envergonhar os países. Mas o apetite da OMS por críticas é limitado por sua dependência de doações de seus países membros e de países que oferecem abertamente acesso e informações – o que poderia ser negado se os líderes se sentissem insultados. Um caso em questão é que a OMS passou semanas persuadindo suavemente a China a permitir que uma equipe internacional de cientistas visitasse Wuhan depois que o surto foi relatado lá. Quanto ao financiamento, os pesquisadores dizem que um orçamento maior e confiável para a OMS daria à organização maior autonomia, porque ela não dependeria da arrecadação de fundos em meio a um desastre[5].

Conclusão

Independente se foi uma semana ou mais de atraso para evidenciar uma emergência global de saúde pública, a questão é que faltou transparência no debate sobre o assunto. A Revista Nature, em 23 de janeiro de 2021, ressaltou que, para abordar questões de comunicação, o diretor-geral da OMS sugeriu “adicionar um gradiente de avisos ao PHEIC, codificados por cores”. No qual, “Os países com surtos – ou variantes ameaçadoras do coronavírus – podem compartilhar informações com mais disposição se houver um alarme de baixa intensidade com menor probabilidade de resultar em interrupções nos meios de vida das pessoas ou na economia[6]. Até porque, qualquer mudança é de difícil aceitação e adaptação e, para ultrapassar a pandemia e evitar novas falhas, deve-se olhar para o futuro com disposição e sabedoria, sem minimizar ações nem subestimar situações como forma de precaução.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

[1] Twiter World Health Organization (WHO)- https://twitter.com/WHO/status/1237777021742338049?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1237777021742338049&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.who.int%2Femergencies%2Fdiseases%2Fnovel-coronavirus-2019%2Fevents-as-they-happen

[2] Coronavirus disease 2019 (COVID-19) Situation Report – 51 – https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200311-sitrep-51-covid-19.pdf?sfvrsn=1ba62e57_10

[3] WHO Director-General’s statement on IHR Emergency Committee on Novel Coronavirus (2019-nCoV)- https://www.who.int/dg/speeches/detail/ihr-emergency-committee-on-novel-coronavirus-(2019-ncov)

[4] Coronavirus disease 2019 (COVID-19) Situation Report – 70- https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200330-sitrep-70-covid-19.pdf?sfvrsn=7e0fe3f8_4

[5] e [6] Why did the world’s pandemic warning system fail when COVID hit?- https://www.nature.com/articles/d41586-021-00162-4

OMS declara emergência de saúde pública de importância internacional por surto de novo coronavírus – https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6100:oms-declara-emergencia-de-saude-publica-de-importancia-internacional-em-relacao-a-novo-coronavirus&Itemid=812#:~:text=30%20de%20janeiro%20de%202020,de%20Import%C3%A2ncia%20Internacional%20(ESPII)

WHO Director-General’s statement on IHR Emergency Committee on Novel Coronavirus (2019-nCoV)- https://www.who.int/director-general/speeches/detail/who-director-general-s-statement-on-ihr-emergency-committee-on-novel-coronavirus-(2019-ncov)

Coronavirus disease (COVID-19) Weekly Epidemiological Update and Weekly Operational Update- https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/situation-reportsListings of WHO’s response to COVID-19- https://www.who.int/news/item/29-06-2020-covidtimeline

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