Por que o sistema de alerta de pandemia da OMS falhou | Colunistas
Há um ano, a Organização Mundial da Saúde(OMS) usou a declaração de PHEIC (Public Health Emergency of International Concern) como alerta sobre o “potencial pandêmico” do coronavírus, mas a questão que não quer calar é se isso representou uma falha ou precaução da Organização perante o mundo.
Cascata de falhas
Em 11 de março de 2020, mesmo que profundamente preocupada com os níveis alarmantes de propagação (Figura 1) e gravidade e com os níveis alarmantes de inação, a OMS avaliou [1] que o COVID-19 “poderia” ser caracterizado como uma pandemia. Porém, no Relatório de situação – 51 [2] , referente ao mesmo dia em questão, a mesma ainda classificava-o apenas como um surto.

Em 22 de janeiro de 2020, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, convocou uma reunião a portas fechadas de virologistas, pesquisadores de saúde pública e alguns representantes do governo, na qual foi decidido que um PHEIC não era garantido. Por mais que devessem ser mais transparentes perante essa reunião e no quesito PHEIC, a OMS estava fornecendo informações sobre a periculosidade e medidas que limitassem a disseminação do vírus no restante do mundo, mas, por precaução, ainda não era o momento de classificar abertamente como uma pandemia.
Como se deu o alerta
Somente em 30 de janeiro de 2020, houve uma declaração chamada “emergência de saúde pública de interesse internacional”, ou PHEIC, sinalizando que uma pandemia poderia ser iminente.
“O principal motivo dessa declaração não diz respeito ao que está acontecendo na China, mas o que está acontecendo em outros países. Nossa maior preocupação é o potencial do vírus para se espalhar por países com sistemas de saúde mais fracos e mal preparados para lidar com ele”[3], afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Potencial pandêmico ou pandemia
Antes de considerar essa situação como uma emergência extraordinária, com potencial pandêmico, a OMS já havia aconselhado os governos sobre como responder à situação em questão. Por exemplo, implementar medidas fortes para detectar precocemente a doença, isolar e tratar os casos, rastrear contatos e promover medidas de distanciamento social, porém isso não foi convincente o suficiente para que as atividades econômicas, comerciais e turísticas fossem limitadas perante os olhos dos governos em questão.
No Relatório de situação – 70 [4], em 30 de março de 2020, que já havia sido classificado como pandemia, o COVID-19 trouxe um novo cenário no qual os países começaram a perceber tamanha importância do assunto, não pela definição PHEIC em si, mas pela palavra “Pandemia”. Algo que estava aparentemente tão distante já assolava o mundo todo, cada dia com números mais preocupantes (Figura 2).

Retrospectiva e reflexões
Quando se reflete sobre o assunto, um atraso de uma semana em declarar uma emergência global nem é a ação mais preocupante que ocorreu nos primeiros dias da pandemia do COVID-19, segundo os críticos do mundo todo. Até porque houveram avisos e outros alertas significativos a cada boletim emitido pela OMS desde a descoberta do vírus na China.
Segundo texto publicado na Revista Nature, “A OMS, portanto, depende da diplomacia, que muitas vezes se resume a elogiar ou envergonhar os países. Mas o apetite da OMS por críticas é limitado por sua dependência de doações de seus países membros e de países que oferecem abertamente acesso e informações – o que poderia ser negado se os líderes se sentissem insultados. Um caso em questão é que a OMS passou semanas persuadindo suavemente a China a permitir que uma equipe internacional de cientistas visitasse Wuhan depois que o surto foi relatado lá. Quanto ao financiamento, os pesquisadores dizem que um orçamento maior e confiável para a OMS daria à organização maior autonomia, porque ela não dependeria da arrecadação de fundos em meio a um desastre”[5].
Conclusão
Independente se foi uma semana ou mais de atraso para evidenciar uma emergência global de saúde pública, a questão é que faltou transparência no debate sobre o assunto. A Revista Nature, em 23 de janeiro de 2021, ressaltou que, para abordar questões de comunicação, o diretor-geral da OMS sugeriu “adicionar um gradiente de avisos ao PHEIC, codificados por cores”. No qual, “Os países com surtos – ou variantes ameaçadoras do coronavírus – podem compartilhar informações com mais disposição se houver um alarme de baixa intensidade com menor probabilidade de resultar em interrupções nos meios de vida das pessoas ou na economia”[6]. Até porque, qualquer mudança é de difícil aceitação e adaptação e, para ultrapassar a pandemia e evitar novas falhas, deve-se olhar para o futuro com disposição e sabedoria, sem minimizar ações nem subestimar situações como forma de precaução.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
[1] Twiter World Health Organization (WHO)- https://twitter.com/WHO/status/1237777021742338049?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1237777021742338049&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.who.int%2Femergencies%2Fdiseases%2Fnovel-coronavirus-2019%2Fevents-as-they-happen
[2] Coronavirus disease 2019 (COVID-19) Situation Report – 51 – https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200311-sitrep-51-covid-19.pdf?sfvrsn=1ba62e57_10
[3] WHO Director-General’s statement on IHR Emergency Committee on Novel Coronavirus (2019-nCoV)- https://www.who.int/dg/speeches/detail/ihr-emergency-committee-on-novel-coronavirus-(2019-ncov)
[4] Coronavirus disease 2019 (COVID-19) Situation Report – 70- https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200330-sitrep-70-covid-19.pdf?sfvrsn=7e0fe3f8_4
[5] e [6] Why did the world’s pandemic warning system fail when COVID hit?- https://www.nature.com/articles/d41586-021-00162-4
OMS declara emergência de saúde pública de importância internacional por surto de novo coronavírus – https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6100:oms-declara-emergencia-de-saude-publica-de-importancia-internacional-em-relacao-a-novo-coronavirus&Itemid=812#:~:text=30%20de%20janeiro%20de%202020,de%20Import%C3%A2ncia%20Internacional%20(ESPII)
WHO Director-General’s statement on IHR Emergency Committee on Novel Coronavirus (2019-nCoV)- https://www.who.int/director-general/speeches/detail/who-director-general-s-statement-on-ihr-emergency-committee-on-novel-coronavirus-(2019-ncov)
Coronavirus disease (COVID-19) Weekly Epidemiological Update and Weekly Operational Update- https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/situation-reportsListings of WHO’s response to COVID-19- https://www.who.int/news/item/29-06-2020-covidtimeline
