A relação médico-paciente deve ser abordada desde os primeiros períodos da vida acadêmica do médico. O objetivo dessa abordagem é o de se distanciar do que prega o Modelo Biomédico, o qual entende que “a saúde é a ausência de doença”, e se aproximar do que afirma, desde 1948, a Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a qual “a saúde é o completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a mera ausência de doença ou enfermidade”
Com efeito, a definição de saúde dada pela OMS configura-se como um avanço, já que ela sinaliza a importância do médico e do estudante de medicina em enxergar o paciente como um ser integral e dotado de particularidades.
A integralidade e a particularidade de cada um deles são fatores determinantes de sua saúde ou do processo de sua eventual doença. Surge, então, a necessidade de se falar sobre a relação médico-paciente, pois cada vez mais é importante se relacionar com o paciente entendendo seus aspectos físicos e emocionais, não dedicando a prática médica somente ao cuidado da doença.
Estabelecer uma boa relação médico-paciente não é algo tão simples, uma vez que essa relação pode ser dotada de grande fundo emocional. Geralmente, o motivo da procura do médico pelo paciente é para tratar sobre uma doença.
Porém, quando esse motivo não diz respeito a uma doença, o simples fato do paciente se deslocar e ir até um consultório, mesmo que para fazer um check-up, pode ser capaz de despertar angústias e inseguranças nele. Ressalta-se que a intensidade dessas emoções dependerá da duração dessa relação, da presença ou não de uma enfermidade e, também, de como o médico faz para atenuá-las.
Dessa maneira, cabe ao médico auxiliar nesse momento de angústia, fazendo com que o paciente se sinta confortável. Para isso, é importante que o profissional da área da saúde tenha diversas condutas em relação ao seu paciente, durante o atendimento, com o objetivo de criar ou fortalecer a relação entre ambos.
Além disso, essas condutas podem reduzir o sentimento de insegurança do paciente. Aliás, desde o momento em que o profissional de saúde vai até a sala de espera chamar ou cumprimentar o seu paciente, o vínculo entre os dois já começa a se formar.
Sendo assim, para que esse vínculo se inicie da melhor forma, o médico deve abordar o paciente se apresentando, já na sala de espera, de forma educada e simpática. Ademais, no decorrer da anamnese, deve-se escutá-lo de forma empática, mostrando-se atento e sem estabelecer julgamentos e quaisquer opiniões pessoais.
Feita a anamnese, o exame físico deve ser realizado de forma que o paciente se sinta confortável e respeitado. Salienta-se que são nesses momentos que a relação entre as duas partes se fortalece e que o paciente ganha confiança no médico. A todo o momento, o paciente observa a conduta do médico em relação a ele, principalmente por encontrar-se em uma situação de certa fragilidade e exposição.
Não somente a forma pela qual o profissional conduz a anamnese e o exame físico, mas, também, o tempo que é dispensado no atendimento, bem como a vestimenta do médico e o uso de equipamentos de segurança. Todos esses aspectos apresentados são relevantes, além da maneira de comportar-se do médico, a fim de que haja uma boa relação entre eles.
Como visto, a escuta do profissional deve ser empática. É significativo dizer que o médico deve dar espaço para o seu paciente falar, evitando interrupções excessivas. Afinal, a queixa é dele e é ele quem dirá o motivo da procura por um profissional de saúde.
A atenção do médico deve ser centrada no paciente. Existem diversas doenças crônicas que levam a processos psíquicos complexos, o que justifica que, independentemente da queixa do paciente, o médico deve se preocupar em entender o componente físico e emocional que pode ser desencadeado por uma doença.
Durante esse atendimento centrado no paciente, os princípios bioéticos devem ser respeitados. Aquele profissional que não causa danos ao paciente (não maleficência) e procura fazer o bem a ele (beneficência) está respeitando esses princípios.
Além disso, esse tipo de profissional procura deixar o paciente tomar as decisões sobre o seu tratamento (autonomia) e ser justo e equânime (justiça). Levando-se tais princípios em consideração, o médico deve dialogar, explicar e informar sobre o melhor método terapêutico, tirando as dúvidas do paciente e sendo sempre transparente. Tem-se, assim, o perfil de médico que será capaz de estabelecer uma relação de vínculo satisfatória com o seu paciente.
Desse modo, a relação médico-paciente será construída durante todo o momento do atendimento e essa relação será a principal definidora do sucesso do tratamento. Quando isso existe, o médico atua como um terapeuta durante as consultas, como, por exemplo, no caso de atuação de uma médica de família na Atenção Primária (SANTOS; BÖING, 2019).
Destaca-se que esse perfil de médico pode auxiliar as famílias e os indivíduos a gerirem melhor o seu problema e auxiliá-los na tomada de decisão. Existem, ainda, outras situações nas quais o paciente procura o médico com sintomas físicos, mas que, ao ser realizada uma anamnese detalhada e uma escuta atenciosa, como mencionado acima, percebe-se, na verdade, que o paciente apresenta um problema de fundo emocional.
Dessa forma, não se deve deixar de destacar que, comprovadamente, quando existe uma boa relação médico-paciente, o sucesso de um tratamento, seja por meio de medicação, seja através de intervenção cirúrgica, é maior.
Por mais que muitos pacientes, atualmente, sejam bem informados, pesquisem sobre as doenças e cheguem ao consultório com um diagnóstico preestabelecido, é possível criar uma parceria. No mais, é fundamental estabelecer um diálogo com ele sobre a melhor opção terapêutica, visando, como dito acima, respeitar a autonomia desse indivíduo.
Finalmente, estabelecer um vínculo e uma relação médico-paciente adequada não será sempre tarefa fácil para o médico, porém deve ser algo constantemente treinado, estudado e aperfeiçoado, desde a vida acadêmica do profissional da saúde até a sua atuação prática.
A partir do momento em que se estabelece o paciente como sua prioridade, durante o atendimento, essa relação torna-se cada vez mais natural e, consequentemente, tem-se a sua importância para uma maior adesão ao tratamento e para a confiança de ambas as partes envolvidas na relação médico-paciente.
Autora: Ana Luísa Zinato de Carvalho
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