Introdução: A perda auditiva é uma das condições mais comuns que ocorrem em indivíduos da terceira idade. Um grande estudo apontou que ela pode ter relação com o aumento do risco da demência. Esse estudo foi publicado online na revista Alzheimer and Dementia no dia 21 de julho de 2021. Além disso, os distúrbios de equilíbrio também estão relacionados com a perda auditiva e demência, segundo Visser H. Gait and balance in senile dementia of the Alzheimer´s type. Mas por que ocorre a perda auditiva? Geralmente está relacionada a idade, pois ocorre um desgaste diário do sistema auditivo, mas também pode ser causada por infecções, lesões ou defeitos de nascença, ou induzida por ruídos. Fatores de risco para a Demência: Hipertensão arterial, diabetes, aterosclerose, fibrilação atrial, altos níveis de gorduras, fumar e ter sofrido um acidente vascular cerebral. Prevenção da Demência: A prevenção da Demência se baseia em hábitos saudáveis, como ter uma alimentação balanceada, praticar exercícios físicos, para que os fatores de risco para essa doença possam ser reduzidos. Além disso, houve um acréscimo com relação a deficiência auditiva, ou seja, manter hábitos ao longo da vida em que não gere tantos danos ao canal auditivo, tomando cuidado com sons muito altos, para que essa perda auditiva com relação a idade não seja tão acometida. Ademais, existem muitos tratamentos eficientes para a reversão total ou parcial do quadro de deficiência auditiva. Como foram os estudos relacionando a demência com a deficiência auditiva até o presente momento? Anteriormente esses estudos usaram audiometria tonal, que media a sensibilidade auditiva em um ambiente controlado e silencioso. Hoje, o estudo utilizou uma técnica chamada ‘fala no ruído’’, que avalia a capacidade de ouvir sons em um ambiente de muitos ruídos. Qual é a relação entre a perda auditiva com a demência? As principais hipóteses para essa relação seriam a exaustão da reserva cognitiva, diminuição da chegada de estímulos ambientais ao cérebro, isolamento social, diminuição em atividades de lazer. Com a dificuldade de percepção sensorial da audição, são usados mais recursos neurais, e mais esforço é feito para que volte essa percepção, porém se sobressai a outros processos cognitivos, como a memoria por exemplo. Levando a que a demência apareça mais rapidamente. Quais são os sintomas de uma possível perda auditiva? -Dificuldade de escutar aparelhos eletrônicos; -Dificuldade de acompanhar conversas em grupo; -Escutar zumbidos e intolerância a sons; -Isolamento social; -Depressão; Ao identificar esses sintomas, deve-se diferenciá-los de outros quadros patológicos. Se for realmente um comprometimento auditivo, é necessário buscar um tratamento em busca da reversibilidade, para evitar que esse quadro de perda auditiva leve se torne uma perda auditiva permanente e o aparecimento de uma Síndrome Demencial. O que os estudos mostram: Pacientes que já possuem alguma Síndrome Demencial, como a Doença de Alzheimer, e que possuem baixa qualidade auditiva, tem evolução dos sintomas da demência mais rápido. O cérebro das pessoas que possuem alguma perda auditiva, seja moderada ou grave, está vulnerável, porque acaba não recebendo informações de forma correta, devido ao esforço maior em áreas relacionadas a audição, o que reduz a atividade em outras. Como evitar a perda auditiva? Para evitar a perda auditiva, deve-se tomar o cuidado desde o começo da vida, evitando colocar objetos no ouvido, no caso das crianças isso ocorre facilmente, por isso os pais devem ficar de olho, além disso, na fase adulta existe o risco do cotonete usado excessivamente, pois seu uso indevido pode perfurar o tímpano. Evitar sons muito altos nos fones de ouvidos, pois com o passar dos anos, esses sons vão danando o canal auditivo. A importância do sistema auditivo além da própria audição: O ouvido interno é uma das 4 partes que compõem o sistema de equilíbrio humano. O fluido do ouvido interno ativa os receptores de equilíbrio quando movimentamos a cabeça, estimulando as terminações nervosas que enviam impulsos para o cérebro. Isso ocorre de maneira equivalente tanto no ouvido interno direito quanto no esquerdo. Distúrbios do equilíbrio: -Vertigem e o desequilíbrio são os sintomas mais comuns, afetando de 20 a 30% da população, e a grande maioria dos casos, são devidos a alguma patologia no ouvido interno. A tontura pode ser causada por movimentos excessivos dos fluidos do ouvido interno, como também qualquer problema de pressão ou circulação do fluido. -Doença de Meniére: geralmente ocorre entre 20 a 50 anos de idade. É causada por um desequilíbrio na pressão dos fluidos do ouvido interno. Sintomas: vertigem, perda auditiva e zumbido no ouvido. -Efeitos colaterais de medicamentos- Medicamentos Ototóxicos podem causar problemas auditivos, como: Aminoglicosídeos, que são antibióticos de atividade bactericida; Eritromicina, que possui uma ototoxidade rara que resulta na perda auditiva neurossensorial bilateral em todas as frequências; Vancomicina, em que a ototoxicidade ocorre quando é administrado por via parenteral; Salicilatos, sua ototoxicidade é limitada a cóclea, manifestando-se com uma perda auditiva neurossensorial, bilateral, simétrica, em todas as frequências e zumbido. -Envelhecimento; -Labirintite: infecção grave no ouvido interno que pode ser viral ou bacteriana. Sintomas: perda auditiva, zumbido, febre, dor no ouvido e distúrbios de equilíbrio. Relação entre a perda auditiva, distúrbios de equilíbrio e as Síndromes demenciais: Os distúrbios de equilíbrio e a perda auditiva estão relacionados, em todos os distúrbios citados todos eles ocorrem a perda auditiva além do desequilíbrio. Avaliando o tempo de reação a um estímulo auditivo durante uma tarefa motora em uma plataforma móvel, Shumway- Cook e Woollacott(2000) verificaram que a tarefa auditiva tem maior interferência na estabilidade postural quando se aumenta a dificuldade sensorial da atividade motora( movimento da plataforma e ausência de visão). Eles concluem, que com o envelhecimento, a demanda de atenção para controle postural aumenta, conforme a informação sensorial da demanda diminui, ocasionando desequilíbrio e quedas. Foi mostrado também que os idosos possuem maior oscilação corporal, quando realizam tarefas de processamento de informação (estímulo auditivo). A idade tem efeito na interação entre a integração sensorial do controle motor e o processo de atenção (Redfern et al., 2001). Verghese et al. (2002) avaliaram idosos entre 65 e 98 anos sem demência, e tiveram a confirmação de que falar enquanto anda, é um fator de quedas e parar de andar enquanto conversa também. ( Lundin- Olsson et al., 1997). Já em indivíduos com Doença de Alzheimer, o desempenho na marcha é pior do que em idosos sem a demência, quando acrescenta a fala ao mesmo tempo. Houve uma maior redução da velocidade em pacientes com DA do que em idosos sem a patologia, enquanto falavam nomes próprios percorrendo determinada distância. Conclusão: Pode-se perceber, que a perda auditiva, desequilíbrio, controle postural e as síndromes demenciais possuem nítida ligação. Logo, para que não ocorra perda auditiva moderada a grave, deve-se ocorrer uma prevenção e se o individuo possui uma perda leve, procurar o mais rápido possível auxilio médico para tratamento. Além disso, aqueles pacientes que já possuem algum distúrbio de equilíbrio, tratar e não deixar para depois, pois pode causar danos ainda mais graves em sua saúde. Autor: Bruna Caroline Basso Perretto Instagram: @medbrunabp10 O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto. Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização. Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós. Referências: Medscape; http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/arquivos/4554; https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5160/tde-01062007-103434/publico/sabrinammuhale.pdf; https://www.direitodeouvir.com.br/blog/ototoxicos-problemas-auditivos; https://www.direitodeouvir.com.br/blog/qual-outra-funcao-da-orelha; https://idosos.com.br/relacao-entre-perda-auditiva-e-sindromes-demenciais/; https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/delirium-e-dem%C3%AAncia/dem%C3%AAncia-vascular#:~:text=Os%20fatores%20de%20risco%20para,Ter%20aterosclerose; https://escutaragoraesempre.com/blog2/perda-auditiva-e-demencia-existe-alguma-relacao/;