O penfigoide bolhoso (PB) é o distúrbio bolhoso subepidérmico autoimune mais frequente, responsável por cerca de 80% dos casos de doenças imunobolhosas subepidérmicas. Acomete predominantemente indivíduos idosos, entre 60 e 80 anos, e caracteriza-se clinicamente pela presença de bolhas tensas associadas a prurido intenso e generalizado.
A confirmação do diagnóstico baseia-se em exames complementares, como biópsia cutânea com coloração por hematoxilina e eosina, que evidencia clivagem subepidérmica com infiltrado rico em eosinófilos, e imunofluorescência direta, que demonstra depósitos lineares de autoanticorpos contra a membrana basal. Além disso, testes sorológicos, como o ELISA, também auxiliam na detecção dos autoanticorpos contra os antígenos-alvo.
O tratamento varia conforme a gravidade e envolve desde o uso de corticosteroides tópicos até imunossupressores sistêmicos, sendo o acompanhamento prolongado essencial para monitorar recidivas e complicações.
Etiopatogenia do penfigoide bolhoso
O penfigoide bolhoso geralmente resulta da ação de autoanticorpos contra proteínas localizadas na junção dermoepidérmica, embora alguns casos sejam desencadeados por medicamentos sistêmicos, especialmente em pacientes mais jovens, até três meses após o início da medicação. Entre as drogas associadas, destacam-se:
- Diuréticos (furosemida, espironolactona).
- AINEs.
- Amoxicilina.
- Inibidores de PD-1/PD-L1.
- Gliptinas.
- Inibidores de TNF-alfa.
A fisiopatologia do penfigoide bolhoso envolve dois componentes principais: o imunológico e o inflamatório.
No aspecto imunológico, autoanticorpos se dirigem contra proteínas hemidesmossômicas dos queratinócitos basais, especialmente o antígeno BPAG1 e o BPAG2/colágeno XVII, fundamentais para a adesão epitelial ao estroma. A ligação desses anticorpos desencadeia a ativação do complemento e dos mastócitos, o que recruta neutrófilos e eosinófilos. Essas células liberam mediadores inflamatórios e enzimas proteolíticas, provocando a destruição da junção dermoepidérmica e a formação das bolhas características.
Quadro clínico do penfigoide bolhoso
O penfigoide bolhoso apresenta um quadro clínico que pode evoluir em fases e com manifestações variadas.
Na fase prodrômica, que pode durar semanas ou meses, surgem lesões pruriginosas de aspecto eczematoso, papular ou semelhante à urticária, podendo alguns pacientes nunca desenvolver bolhas.

Quando as bolhas aparecem, são tipicamente tensas, medindo 1 a 3 cm, sobre base eritematosa ou não inflamatória, podendo ser numerosas e disseminadas. Diferem das bolhas flácidas do pênfigo devido a característica tensa das bolhas e não apresentam sinal de Nikolsky. Ao romperem-se, deixam erosões e crostas úmidas, que cicatrizam sem deixar marcas. O prurido é frequente e, por vezes, intenso.

A distribuição costuma incluir tronco, áreas de flexão, axilas e virilhas. Além disso, o comprometimento de mucosas ocorre em 10% a 30% dos casos, principalmente na mucosa oral, mas também, menos frequentemente, na laringe, genitais ou ânus. Alterações ungueais podem surgir.


Ademais, existem formas localizadas que afetam áreas como pernas, região anogenital, pele ao redor de estomas ou locais de trauma, podendo permanecer restritas ou evoluir para doença generalizada.

Por fim, entre as variantes clínicas, destacam-se:
- Apresentações não bolhosas, como eczema, urticária, pápulas ou nódulos pruriginosos, e formas com prurido isolado, diagnosticadas por exames laboratoriais.
- Líquen plano penfigoide, em que bolhas surgem em áreas normais ou com líquen plano prévio, semanas a meses após o início deste.
- Formas raras, como o penfigoide vegetante (placas verruciformes em dobras), o disidrosiforme (lesões nas palmas e/ou plantas, frequentemente hemorrágicas), o vesicular (semelhante à dermatite herpetiforme) e o associado à ceratodermia palmoplantar transitória.
Diagnóstico do penfigoide bolhoso
O diagnóstico do penfigoide bolhoso envolve a combinação criteriosa de avaliação clínica e exames complementares, sendo fundamental para diferenciar a doença de outros distúrbios bolhosos autoimunes.
Portanto, o primeiro passo é a anamnese detalhada e o exame físico minucioso, observando a presença de bolhas tensas sobre base eritematosa ou normal, geralmente em pacientes idosos. Além disso, a evolução lenta e o prurido intenso que precede as lesões também são pistas importantes.
O exame histopatológico, por sua vez, é peça central nesse processo. A biópsia de pele de lesão recente revela uma clivagem subepidérmica, com infiltrado inflamatório rico em eosinófilos na derme papilar e perivascular. Quando realizada corretamente, essa análise fornece achados altamente sugestivos da doença.
Já a imunofluorescência direta é considerada o padrão-ouro para confirmação diagnóstica. Ela detecta depósitos lineares de IgG e C3 ao longo da membrana basal da epiderme, um achado clássico e característico. Enquanto isso, a imunofluorescência indireta pode identificar autoanticorpos circulantes, especialmente contra as proteínas BP180 e BP230, fortalecendo o diagnóstico.
Ademais, testes sorológicos baseados em ELISA permitem quantificar os autoanticorpos e monitorar a atividade da doença ao longo do tratamento.
Diagnóstico diferencial do penfigoide bolhoso
O diagnóstico do penfigoide bolhoso pode ser desafiador, pois seus sinais clínicos se sobrepõem a várias outras doenças bolhosas ou não bolhosas. Entre as condições mais relevantes estão variantes do próprio penfigoide, outras dermatoses autoimunes e doenças inflamatórias da pele e mucosas.
Outras variantes do penfigoide
Algumas formas do penfigoide apresentam características semelhantes ao penfigoide bolhoso, como:
- Penfigoide gestacional: surge durante a gestação ou no pós-parto, com lesões pruriginosas no abdome que podem se espalhar, poupando geralmente a face e mucosas.
- Penfigoide anti-p200 (anti-laminina gama-1): afeta pacientes mais jovens que o penfigoide bolhoso clássico e pode estar associado à psoríase.
- Penfigoide de Brunsting-Perry: forma cicatricial localizada, geralmente na cabeça e pescoço de homens idosos, com diferentes perfis de autoanticorpos.

Outras doenças cutâneas com lesões semelhantes
- Urticária e dermatite eczematosa: o estágio inicial do penfigoide bolhoso pode assemelhar-se a essas doenças, mas as lesões PB são persistentes e não transitórias.
- Epidermólise bolhosa adquirida: forma bolhas subepidérmicas semelhantes ao PB, mas com cicatrizes e milia.

- Pênfigo: grupo de doenças com bolhas flácidas devido a presença de autoanticorpos contra células epiteliais, sendo a imunofluorescência essencial para diferenciação.

- Doença de IgA linear: apresenta bolhas tensas e padrão característico em “cacho de joias”, com depósitos lineares de IgA na membrana basal.

- Dermatite herpetiforme: caracteriza-se pela presença de vesículas e crostas pruriginosas, principalmente em cotovelos, joelhos e nádegas, com depósitos granulares de IgA.

- Lúpus eritematoso bolhoso: bolhas em pacientes com LES, associadas a infiltrado neutrofílico subepidérmico.
Lesões mucosas no diagnóstico diferencial
No acometimento de mucosas, o penfigoide bolhoso e o penfigoide de mucosas devem ser diferenciados de:
- Variantes do pênfigo;
- Doença de IgA linear e epidermólise bolhosa adquirida com envolvimento mucoso;
- Líquen plano da mucosa oral e genital.

- Eritema multiforme.

- Síndrome de Stevens-Johnson.

- Lesões associadas ao HIV.
- Síndrome de Behçet.
- Úlceras aftosas.

Em cada caso, a distinção depende da integração entre quadro clínico, localização das lesões, exames histopatológicos e testes imunológicos, como imunofluorescência e ELISA para anticorpos específicos.
Tratamento do penfigoide bolhoso
O tratamento do penfigoide bolhoso envolve inicialmente avaliar se a doença foi desencadeada por medicamentos e verificar a presença de comprometimento mucoso ou sinais de envolvimento sistêmico. O foco principal é escolher terapias imunomoduladoras que diminuam a produção dos autoanticorpos e a inflamação associada.
Como tratamento inicial, são usados principalmente corticosteroides tópicos, corticosteroides orais e doxiciclina, com a escolha dependendo da gravidade da doença, dos riscos de efeitos adversos, da viabilidade do tratamento e da preferência do paciente.
Para pacientes que conseguem aplicar cremes, recomenda-se corticosteroides tópicos potentes, como o clobetasol 0,05%, especialmente em casos mais extensos, pois são eficazes e apresentam menos efeitos sistêmicos. No entanto, o uso diário e em grandes áreas pode ser difícil para alguns.
Para aqueles que preferem tratamento oral, pacientes com formas leves da doença podem iniciar com doxiciclina, que tende a apresentar menos efeitos colaterais, frequentemente associada à aplicação tópica nas lesões. Já nos casos mais graves ou extensos, a prednisona oral é sugerida como primeira opção, devido à sua ação mais rápida na remissão, embora também possa trazer mais riscos.
Considerando que o penfigoide bolhoso costuma persistir por longos períodos, são frequentemente indicados medicamentos poupadores de corticosteroides, como tetraciclinas, dapsona, micofenolato, azatioprina e metotrexato, para permitir a redução gradual dos corticoides orais, mesmo que a qualidade dos dados que suportam seu uso ainda seja limitada.
Ademais, nos casos que não respondem ao tratamento convencional, terapias biológicas podem ser consideradas. Dessa forma, em situações resistentes, medicamentos como imunoglobulina intravenosa, rituximabe ou omalizumabe podem ser empregados.
Por fim, a dosagem dos autoanticorpos específicos (como IgG anti-BP180) pode ajudar a monitorar a gravidade da doença e a identificar riscos de recidiva durante e após o tratamento.
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Referências
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- Leiferman, K. M. Epidemiology and pathogenesis of bullous pemphigoid and mucous membrane pemphigoid. UpToDate, 2025.
- Murrell, D. F.; Ramirez-Quizon, M. Management and prognosis of bullous pemphigoid. UpToDate, 2023.