As reações adversas às vacinações estão em alta por conta dos imunizantes contra o novo coronavírus. Pacientes relatam desde febre e cefaleia até mialgia. Na era das fake news, a população pode se mostrar receosa com o bombardeio de tantos efeitos colaterais, e esquecer-se que as reações às vacinas não são uma novidade trazida pela pandemia da COVID-19. Nesse sentido, vale recordar que os eventos adversos pós-vacinação fazem parte da nossa realidade há muito tempo, especialmente no âmbito pediátrico, e, inclusive, possuem orientações para identificação e manejo devidamente sistematizadas por um manual do Ministério da Saúde: o Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação.
Sistema Nacional de Vigilância dos Eventos Adversos Pós-Vacinação
A recomendação do estabelecimento da vigilância de eventos adversos pós-vacinação (VEAPV) data de 1991, e foi realizada pela Organização Mundial de Saúde. Através do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o Brasil iniciou em 1992 a estruturação do Sistema Nacional de Vigilância de EAPV e, em 2000, implementou o do Sistema de Informação da Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação (SIEAPV). Desse modo, as informações provenientes dos estados puderam ser coletadas e analisadas de forma mais abrangente e consistente, objetivando, primordialmente, afastar as causas coincidentes de reações adversas e indevidamente atribuídas às vacinas.
Definição de Eventos Adversos
O evento adverso pós-vacinação (EAPV) é definido como qualquer ocorrência de caráter médico após a vacinação, isto é, não requer o estabelecimento de uma relação causal entre vacinação e sinal/sintoma, nele, há obrigatoriamente apenas a relação temporal (após aplicação). Logo, não necessariamente o EAPV é causado pelo uso de uma vacina ou de outro imunobiológico (imunoglobulinas e soros heterólogos). As reações adversas podem ser de dois tipos segundo a manifestação clínica: locais e sistêmicas.
Reações Adversas Locais
São mais comuns em vacinas intramusculares, tendo em vista que a introdução de uma agulha, por si só, é capaz de lesar fibras musculares e de gerar irritação local. Ademais, algumas substâncias presentes nas vacinas ocasionam reação local de inflamação, a saber, os adjuvantes como o hidróxido de alumínio. Incluem sintomas como edema, hiperemia, calor e dor local no sítio de aplicação da vacina.
Ocasionalmente, pode aparecer nódulo indolor no local da injeção, que muitas vezes é reabsorvido lentamente ao longo de várias semanas. Em alguns casos, há formação de abscessos no local da aplicação, os quais são intumescimentos que podem ou não estar associados a sinais flogísticos. Quando estéril, trata-se de um abscesso frio, e, quando contém pus, edema e dor intensa, um abscesso quente, frequentemente oriundo de uma infecção bacteriana secundária.
Todo caso de abscesso (quente ou frio) deve ser notificado, bem como as reações locais muito intensas (edema e/ou vermelhidão extensos, limitação de movimentos). Geralmente a conduta é sintomática (com exceção dos abscessos quentes que devem ter avaliação clínica mais detalhada) e não há contraindicação para a administração de doses subsequentes.
Reações Adversas Sistêmicas
A febre é a reação sistêmica mais comum, a qual ocorre principalmente nas primeiras 24 horas depois da administração da vacina. O prognóstico é bom, particularmente quando a febre se manifesta isoladamente e, quanto à notificação, todos os casos de febre alta (≥39,5°C) nas primeiras 48 horas devem ser notificados. A vacina da DTP (Difteria, Tétano e Pertússis) é a que mais está associada à febre.
Outras reações sistêmicas comuns são mialgia, sonolência, irritabilidade, anorexia, vômitos e diarreia. A vacina do rotavírus humano, por exemplo, comumente cursa com diarreia após sua aplicação. Já as vacinas da hepatite B e da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), por sua vez, podem causar púrpura trombocitopênica.
Falhas de Vacinação
É necessário salientar ainda que a presença de EAPV não significa falha de vacinação. Há suspeita de falha apenas quando há desenvolvimento de doença em pessoa com vacinação comprovada ou quando esta é confirmada imunologicamente, por exemplo: profissional da saúde devidamente vacinado com vacina de Hepatite B e testagem de anticorpos anti-HBs com níveis inferiores a 10U/l. Ademais, quando as falhas ocorrem, existem diversos fatores envolvidos no processo, e, dentre os relacionados às vacinas, devemos nos lembrar que nenhuma vacina é 100% eficaz, podendo haver cobertura inadequada de tipos, sorotipos, genótipos e variantes antigênicas, e também falhas na qualidade do produto ou variação de lotes.
Autora: Cláudia Bispo Martins
Instagram: @uma.caumaria
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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Referências:
MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação. [Brasília, DF]: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_epidemiologica_eventos_adversos_pos_vacinacao.pdf. Acesso em: 24 mai. 2021.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES. Imunização: tudo o que você sempre quis saber. [Rio de Janeiro, RJ]: Sociedade Brasileira de Imunizações, 2020. Disponível em: https://sbim.org.br/images/books/imunizacao-tudo-o-que-voce-sempre-quis-saber-200923.pdf. Acesso em: 24 mai. 2021.