O que é o partograma?
É um gráfico no qual são anotadas a progressão do trabalho de parto (dilatação cervical, descida da apresentação, contrações uterinas, bolsa, líquido amniótico, uso de ocitocina) e as condições da mãe e do feto (FCF). Permite a identificação precoce de anormalidades na evolução da dilatação cervical e da descida da apresentação fetal, auxiliando na tomada de condutas apropriadas e evitando intervenções desnecessárias. Estudos mostraram que seu uso melhora desfechos obstétricos e reduz as taxas de cesarianas em países de baixa renda.
Deve ser aberto na fase ativa do trabalho de parto, caracterizada por contrações uterinas regulares que causam esvaecimento e dilatação cervical, com no mínimo 5cm de dilatação.
Partograma normal
Em geral, a progressão da dilatação cervical na fase ativa do trabalho de parto deve ser de ao menos 1cm/h. Entretanto, deve-se ter cautela nessa interpretação, pois cerca de 50% das mulheres não dilatam 1cm/h até alcançarem 5-6cm. Portanto, não é apenas uma velocidade menor de dilatação que vai nos obrigar a tomar uma conduta nesse parto; apenas requer mais atenção a essa evolução.
Para iniciar o registro da evolução do trabalho de parto, marca-se a dilatação no momento da abertura do partograma com um triângulo e desenhamos 2 linhas: a linha de alerta e a linha de ação.

Além do triângulo, que como dito anteriormente, corresponde à dilatação, utilizamos um outro símbolo para representar a descida fetal: um círculo, correspondente à cabeça do bebê. Através dele, registra-se:
1. Altura da apresentação fetal: à direita da primeira parte do partograma, temos os graus DeLee – de -3 a +4, sendo 0 o correspondente à insinuação. Abaixo de 0 (números negativos), a cabeça do feto está acima do estreito superior da bacia; acima de 0 (números positivos), está abaixo do estreito superior da bacia, cada vez mais próximo da vulva.
2. Variedade de posição: é a relação da cabeça fetal em relação à pelve materna. Existem 6 variedades:
OEA = occipito esquerda anterior
ODA = occipito direita anterior
OET = occipito esquerda transversa
ODT = occipito direita transversa
OEP = occipito esquerda posterior
ODP = occipito direita posterior
Representamos ainda: horário, FC fetal, contrações (frequência e duração), bolsa amniótica (íntegra, rota espontânea ou rota artificialmente), aspecto do líquido amniótico (claro, com grumos ou sem, meconial) e ocitocina se utilizada.

Trabalho de parto normal
A ruptura das membranas amnióticas ou a saída do tampão mucoso indicam o início do trabalho de parto. Este começa com contrações uterinas irregulares de intensidade variável, as quais amolecem o colo e começam a dilatá-lo e afiná-lo. À medida que o trabalho de parto progride, aumentam a duração, intensidade e frequência das contrações.
O trabalho de parto divide-se em 4 fases:
- Dilatação – divide-se em 2 períodos:
– Latente: contrações irregulares com dilatação do colo de até 4cm. Sua duração é variável, podendo durar até 30 horas em nulíparas e até 12h nas multíparas.
– Ativa: com contrações mais intensas e regulares, inicia com a dilatação <4cm até atingir a dilatação completa, de 10cm. Dura de 5 a 7 horas em nulíparas e 2 a 4 horas em multíparas. - Expulsivo – vai da dilatação total do colo até o desprendimento do feto.
Dura até 2 horas em nulíparas (em média 50 minutos) e 1 hora em multíparas (em média 20 minutos). Pode ser prolongado em 1 hora se usada analgesia. - Dequitação – do nascimento do lactente até a expulsão da placenta. Pode durar até 30 minutos sem que seja necessária nenhuma intervenção.
Distócias
Distócias são anormalidades que podem ser percebidas durante a evolução do parto. Podem ser visualizadas no partograma:
- Fase ativa prolongada (distocia funcional)
– Dilatação lentificada, em velocidade <1cm/h, cruzando a linha de alerta
– Principal causa: contração uterina ineficaz ou irregular
– Conduta: mobilização da gestante para posturas verticalizadas
ocitocina
rotura artificial das membranas

- Parada secundária da dilatação
– Ausência de progressão da dilatação em 2 toques vaginais consecutivos, com intervalo maior de 2 horas
– Contrações uterinas são eficazes e regulares
– Principal causa: desproporção cefalopélvica
– Conduta: mobilização da gestante para posturas verticalizadas
alívio da dor com métodos não farmacológicos, como hidroterapia, massagem, acupuntura, controle da respiração
analgesia peridural

- Parto taquitócico ou precipitado
– Período entre o começo da fase ativa e da expulsão fetal < 4h
– Principal causa: uso iatrogênico de ocitocina, gerando taquissistolia
– É fator de risco para hemorragia puerperal

- Período pélvico prolongado
– Descida fetal progressiva, mas mais lenta do que o esperado; ou seja, >2h em nulíparas ou >1h em multíparas
– Causa: contrações uterinas ineficazes

- Parada secundária da descida
– Parada da descida fetal por pelo menos 1 hora, tendo dilatação cervical máxima
– Principal causa: desproporção cefalopélvica
– Conduta: verticalização da paciente
rotura artificial de membranas

Sugestão de leitura complementar
- Parto livre no mar: quais os riscos desse procedimento?
- O que é o programa de especialização em ultrassonografia do Cetrus?
- Aborto induzido: o que é, legislação e polêmicas
- Candidíase vulvovaginal: causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/29761/2/PREENCHIMENTO%20DE%20PARTOGRAMA.pdf
Zugaib M, Francisco RPV. Zugaib Obstetrícia. 4ª. Ed. São Paulo: Manole; 2019
Fernandes CE, Silva de Sá MF. Tratado de Ginecologia FEBRASGO. São Paulo: Elsevier, 2018
http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/parto_aborto_puerperio.pdf
