Introdução
A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa progressiva do sistema nervoso que afeta entre 1% a 2% da população acima dos 65 anos, sendo a segunda doença neurodegenerativa mais comum; sua etiologia consiste em fatores ambientais, genéticos e do próprio envelhecimento. Dentro do quadro clínico, se manifesta com sintomas motores e não motores.
Os sintomas motores que caracterizam a doença são: rigidez muscular, bradicinesia, tremor de repouso e instabilidade postural, e ocorrem devido à perda de neurônios na sustância negra, um processo irreversível. Já os sintomas não motores envolvem: constipação intestinal, hiposmia, transtornos miccionais, hipotensão ortostática, demência, transtorno de comportamento e depressão.
A depressão é um sintoma não motor muito comum nos pacientes acometidos pela Doença de Parkinson, com taxa de prevalência de até 70%, apesar de essa comorbidade psiquiátrica ser subdiagnosticada devido sobreposição dos sintomas da própria doença. Além disso, a depressão na DP está associada à progressão mais rápida dos demais sintomas e à maior mortalidade, e pode preceder os sintomas motores em anos!
A sobreposição dos sintomas da Doença de Parkinson e da depressão constitui um importante obstáculo para o diagnóstico dessa última, bem como instrumentos não padronizados de avaliação. Além disso, com a progressão do déficit cognitivo, o diagnóstico torna-se mais difícil devido às dificuldades de linguagem e comunicação.
Dessa forma, é essencial que o médico saiba diferenciar os sintomas de depressão dos sintomas da DP para efetivo diagnóstico e adequado tratamento, para melhorar a qualidade de vida destes pacientes.
Neste texto, vamos abordar os fatores de risco para o aparecimento da depressão na DP, dando ênfase nos sintomas e escalas que auxiliam no seu reconhecimento e avaliação.
Fatores de Risco
Alguns fatores de risco aumentam a chance de o paciente com DP apresentar depressão. São eles:
- Sexo feminino;
- Início dos sintomas antes dos 40 anos de idade;
- História prévia de depressão;
- Severidade do prejuízo cognitivo;
Quadro Clínico e Diagnóstico
Como dito anteriormente, os sintomas de depressão e DP se sobrepõem e dificultam o diagnóstico. Porém, alguns sintomas são diferenciais e podem auxiliar na suspeita, além do uso adequado de escalas que vão auxiliar o médico na busca e reconhecimento da depressão.
O humor deprimido e a anedonia são sintomas chaves para o diagnóstico, e ao menos um destes sintomas deve estar presente.
Outros sintomas presentes são:
- Perda ou ganho de peso;
- Alteração do apetite e do sono;
- Comprometimento da memória;
- Falta de interesse em atividades que antes despertavam interesse;
- Redução da libido;
- Fadiga;
Essas manifestações clínicas podem surgir em diversas combinações diferentes, estando, porém, presentes na própria Doença de Parkinson.
Atenção à dica! Sentimento de culpa ou inutilidade e pensamentos suicidas não são sintomas da Doença de Parkinson, ajudando no diagnóstico diferencial. Outras características que indicam a depressão são:
- História pessoal e familiar de depressão;
- Início mais pontual e progressão mais rápida;
- Discurso coerente;
- Postura pouco colaborativa durante avaliação clínica;
- Boa resposta aos antidepressivos.
A tabela abaixo traz o diagnóstico diferencial da depressão e das demências:

Algumas escalas para o diagnóstico de depressão foram revisadas pelo Comitê de Pesquisa da Sociedade de Distúrbios de Movimento (Research Committee of the Movement Disorders Society – MDS) e, para avaliação dentro da Doença de Parkinson, as escalas recomendadas como instrumento de rastreamento foram:
- Escala de Depressão de Hamilton (HAM-D);
- Invetário de Depressão de Beck (BDI);
- Escala de Ansiedade e Depressão (HADS);
- Escala de Avaliação Montgomery–Asberg (MADRS);
- Escala de Depressão Geriátrica (GDS).
Já as escalas recomendadas para avaliação da severidade da depressão foram:
- Escala de Depressão de Hamilton (HAM-D);
- Escala de Avaliação Montgomery–Asberg (MADRS);
- Invetário de Depressão de Beck (BDI);
- Escala de Autoavaliação de Depressão de Zung (SDS).
Tratamento
Alguns aspectos devem ser considerados para escolha do melhor manejo da depressão na Doença de Parkinson.
Caso os sintomas de depressão apareçam intercalados com os sintomas motores, ou seja, quando há flutuação entre os sintomas motores e não motores, o melhor manejo é o ajuste das medicações antiparkinsonianas.
Quando os sintomas de depressão não estão associados às flutuações, o passo seguinte seria avaliar a severidade dos sintomas a partir das escalas acima citadas, classificando-os em leves, moderados e graves.
Sintomas depressivos leves: são a maioria dos casos; a escolha é o tratamento não farmacológico, como terapia e atividade física regular.
Sintomas depressivos moderados a graves: nesta classe, o tratamento farmacológico é o mais indicado; os medicamentos de escolha são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e antidepressivos tricíclicos (ATC).
Conclusão
Dado o exposto, é evidente a importância de saber pesquisar e reconhecer os sintomas de depressão nos portadores da Doença de Parkinson com ajuda de ferramentas como as escalas, anteriormente citadas, recomendadas pelo Comitê de Pesquisa da Sociedade de Distúrbios de Movimento para o adequado manejo desses sintomas e garantia de melhor qualidade de vida para o paciente, visto que os sintomas de depressão são comuns no portador da Doença de Parkinson e, ainda, se sobrepõem aos sintomas da própria doença, dificultando o diagnóstico e consequentemente o tratamento, acarretando em grande prejuízo na vida diária do paciente.
Autora: Vera Regina Dias de Almeida Prado
Instagram: @_veraalmeidaprado
Referências
- GORZONI, Milton Luiz et al., Tratado de Geriatria e Gerontologia. 4 ed.
- Artigo: NAKABAYASHI, Tatiana I.K. et al, Prevalence of depression in Parkinson’s Disease. 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rpc/a/zp6xhtpCnN3GTVrh6FrmGqD/?format=pdf⟨=pt
Artigo: COSTA, Flavio Henrique de Rezende et al., Depression in Parkinson’s disease: diagnosis and Treatment. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/anp/a/crtH859mdsLwf5MKqrkxJ8m/?format=pdf⟨=en
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.