A coleta de citologia está entre um dos exames de rastreio mais frequentemente realizados nos consultórios médicos, e isso está ligado ao fato do câncer de colo de útero ocupar o terceiro lugar entre as neoplasias malignas mais frequentes no Brasil. Anualmente no Outubro Rosa, associado ao aumento da frequência das mulheres em idas ao ginecologista para rastreio do câncer de mama, cresce concomitantemente o número de análises de amostras histológicas do colo de útero, popularmente conhecido como Papanicolau.
A técnica é simples e os materiais para coleta são de baixo custo, facilitando a realização desse teste no Sistema Único de Saúde, assim como nas redes privadas de saúde.
Quem deve realizar o exame Papanicolau?
A coleta de citologia do colo de útero é indicada a todas mulheres, a partir dos 25 anos de idade que já tenham iniciado vida sexual, uma vez que o principal agente ligado ao câncer de colo de útero é o Papilomavírus humano (HPV), transmitido através da inter-relação sexual.
Mulheres com 64 anos ou mais podem interromper o exame preventivo quando tiver 2 exames consecutivos nos últimos 5 anos com resultado negativo.
Mulheres menopausadas devem estrogenizar dentro de um ciclo de 21 dias com aplicação via vaginal e, após sexto dia de pausa, colher a citologia.
É importante ressaltar que homens transexuais com vagina devem realizar o rastreio de câncer do colo de útero.
Quem não deve realizar a coleta preventiva?
Mulheres sem história de atividade sexual prévia.
Fatores de risco para câncer de colo de útero
São considerados fatores de risco ou comportamento de risco para neoplasias de colo de útero associadas ao HPV:
Sexo sem preservativos, início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros sexuais ou parceiro com múltiplos parceiros sexuais, outras infecções sexualmente transmissíveis prévias, tabagismo, etilismo, grande ingesta de conservantes e corantes, estado imunodeprimido, presença de oncogenes E6 e E7 que degradam a proteína p53.
O Papanicolau
É realizado a abertura do canal vaginal com o espéculo, a fim de expor o colo do útero. Após coletar com a espátula de Ayre e a escova cervical células da ectocérvice e da endocérvice, respectivamente, a lâmina vai para análise e, de acordo com os resultados, se dá o acompanhamento e conduta médica.
Resultados
Achados citológicos normais, como:
Alterações celulares benignas, inflamação, metaplasia escamosa imatura, reparação, atrofia com inflamação, alterações decorrentes da quimioterapia ou radioterapia, achados microbiológicos: Cocos, lactobacillus e outros bacilos.
Realizar acompanhamento para realização de nova coleta após 3 anos.
Achados citológicos anormais:
Células significado atípico indeterminado (ASC-US): possivelmente não neoplásicas, de origem escamosa, ou seja, oriunda da ectocérvice, possui risco de evoluir para câncer baixíssimo. Nesse caso, se a paciente tem idade:
<25 anos – repetir citologia em 3 anos
25-30 anos – repetir citologia em 1 ano
>30 anos – repetir citologia em 6 meses
Células de significado atípico indeterminado (ASC-H), risco baixo de neoplasia, mas não se pode excluir malignidade:
Realizar o exame decolposcopia. Caso alterado, realizar biópsia.
Células glandulares atípicas (CGA): origem glandular, oriundas da endocérvice, possui baixo risco de câncer.
Proceder a colposcopia. Se não alterada, realizar avaliação endocervical (raspagem) e ultrassom transvaginal em pacientes maiores de 35 anos. Se alterada, prosseguir com biópsia do tecido.
Lesão intraepitelial de baixo grau (LIEBG), risco baixo de câncer:
<25 anos repetir citologia em 3 anos
>25 anos repetir citologia em 6 meses
Lesão intraepitelial de alto grau (LIEAG), risco baixode câncer:
Proceder a colposcopia. Se essa alterada, prosseguir com biópsia do tecido.
Carcinomas, alto risco de neoplasia:
Proceder a colposcopia. Se a mesma alterada, realizar a biópsia.
Em casos de citologias com:
· Lesão intraepitelial de alto grau, não podendo excluir microinvasão ou carcinoma escamoso invasor;
· Carcinoma microinvasor ou microcarcinoma;
· Adenocarcinomain situ ou invasor
Sempre proceder com colposcopia ao se deparar com um desses achados, havendo alteração do parecer da colposcopia, encaminhar para a realização da excisão da lesão.
Alterações da Colposcopia
Nem todas as alterações do exame de colposcopia são consideradas malignas, desse modo, pode haver como análise:
Achados normais, dentre eles:
Menores: epitélio escamoso original (maduro ou atrófico), epitélio colunas (ectopia), deciduose da gravidez.
Maiores: epitélio escamoso metaplásico – cisto de Naboth e orifícios glândulares.
Achados anormais, sendo esses:
Menores: epitélio acetobranco fino, pontilhado fino e mosaico fino.
Maiores: epitélio acetobranco denso, pontilhado grosseiro, mosaicogrosseiro, orifícios glandulares espessados, sinal da margem interna, margem demarcada, sinal da crista (sobrelevação).
Há também outros achados que não se encaixam especificamente nos citados, que são os achados: inespecíficos, suspeitos de invasão e miscelâneas.
Biópsia
No caso da colposcopia revelar achados suspeitos deve prosseguir para a biópsia, onde essa pode confirmar se há lesão neoplasia ou não.
São possíveis resultados da biópsia: cervicite crônica, metaplasia escamosa endocervical, neoplasia intraepitelial cervical I (NIC I), neoplasia intraepitelial cervical II (NIC II), neoplasia intraepitelial cervical III (NIC III), carcinoma invasor de colo uterino, carcinoma microinvasor ou carcinoma in situ.
Assim, é possível verificar que nem toda alteração na citologia é decorrente de câncer.
Autora: Rafaela Moreno
Instagram:@dr-rafael-alves
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Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Bibliografia
BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Controles dos cânceres do colo de útero e da mama. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/controle_cancer_colo_utero_mama.pdf
HOFFMAN, B. L.; et al. Ginecologia de Williams. 2.ed. São Paulo: Artmed, 2014
RIBEIRO, Camila; ROMEO, Gabriela; CEDRO, Marina. Yellowbook: fluxos e condutas: ginecologia e obstetrícia. Salvador: Sanar, 2019.